Estátua da Justiça em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília. Foto: Marcelo Casal Jr.
Eleições 2030
Quem promete rua no 7 de Setembro está afundado até a alma no caso Master. Quem não está não tem como levar ninguém. E o único que saberia fazer isso está em silêncio
Lula, Fachin, Moraes, Mendonça, o Senado e as campanhas passam o fim de semana com os olhos grudados nas redes, procurando a mesma coisa. Algum sinal de mobilização com força suficiente para transformar o feriado de segunda-feira em ponto de virada institucional. Até agora, o que aparece na tela é o bloco bolsonarista falando sozinho. A conta importa porque só uma coisa move o Senado a ponto de derrubar um ministro do Supremo, e essa coisa é rua. Sem ela, os 54 pedidos de impeachment contra Alexandre de Moraes seguem empilhados na mesa de Davi Alcolumbre, que até agora não deu andamento a nenhum. “Se não tiver mobilização social, esse joguinho vai ficar na elite. Não prospera”, resume o cientista político e estrategista de campanha Rudá Ricci.
O ato central da segunda-feira foi convocado por Flávio Bolsonaro para a Avenida Paulista, às 15h, com os motes “Fora Lula, Fora Moraes” e “É agora ou nunca”. Foi organizado pelo PL paulista com uma comissão de líderes evangélicos montada pela campanha. Tem apoio de Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes e articulação para levar cerca de 300 prefeitos. O problema é o mensageiro.
Em 13 de maio, o Intercept Brasil publicou mensagens e áudios mostrando que Flávio negociou com Daniel Vorcaro US$ 24 milhões para bancar Dark Horse, a cinebiografia do pai, dos quais ao menos US$ 10,6 milhões teriam sido pagos. Meses antes, o senador havia negado à Folha qualquer contato com o banqueiro. Depois do vazamento, admitiu o acordo. Ou seja, quem chama o país para gritar contra o envolvimento de Moraes com o Banco Master aparece na mesma agenda do mesmo banqueiro.
Os candidatos que não carregam esse passivo não têm como ocupar o espaço. Augusto Cury, do Avante, virou a novidade da eleição ao saltar de 2% para 11% em uma semana na Nexus/BTG e assumir a terceira colocação, e chegou a dizer que Moraes deve explicações públicas. Mas nunca organizou uma manifestação na vida, e sua base é de leitores, não de militância de rua. Ronaldo Caiado e Romeu Zema criticaram publicamente a relação de Flávio com Vorcaro, estão limpos nesse escândalo e continuam estagnados nas pesquisas, sem estrutura de mobilização e sem aparecer entre os nomes divulgados nas convocações de segunda-feira. Terceira via com mão limpa e sem tração não bota gente na avenida.
Sobra Renan Santos, e é aí que a conta não fecha. O fundador do MBL, hoje candidato pelo Missão, é o político em atividade com a maior folha corrida de mobilização de rua no país, o mesmo que ajudou a montar o Comitê do Impeachment em 2015 e 2016, quando o MBL e o Vem Pra Rua encheram avenidas com gente que não se sentia filiada a nada.
É também o crítico mais duro do caso Master em todo o espectro, batendo em petistas, bolsonaristas e centrão sem distinção. Está livre para atacar Moraes sem carregar o passivo de ninguém. E está quieto. “Se eu fosse Renan Santos, eu estaria fazendo a maior bagunça nas ruas neste momento. Mas está tudo quieto”, diz Ricci. “Eles estão jogando a bola para o lado. Não estão indo para o gol.” Para ele, o que sai do campo antissistêmico são declarações protocolares, feitas para jornalista, e a explicação escapa. “Não sei se as informações de bastidor sugerem para eles ficarem quietinhos. Tem algo aí que está me escapando.”
Um dado talvez ajude. Em 31 de agosto, o ministro Dias Toffoli, do STF e do TSE, suspendeu a campanha de Renan, proibindo propaganda na internet, repasses do Fundo Eleitoral e participação em debates e podcasts, por causa de 16 perfis de redes informados 12 dias depois do registro. Deu 24 horas para explicações sob pena de indeferimento da candidatura, e a assessoria antidesinformação do tribunal extraiu mais de mil páginas de prints. A campanha só foi liberada em 1º de setembro. Não é prova de causa. Mas é contexto que ninguém que faz cálculo de campanha ignora.
Por isso a pergunta deste fim de semana não é quantos vão à Paulista, e sim se alguém aparece sem crachá. A curva não ajuda. O 7 de Setembro de 2025 na Paulista reuniu 42,2 mil pessoas pelo Monitor do Debate Político, do Cebrap e da USP, 7% menos que em 2024, e em 1º de março deste ano o mesmo trecho de avenida ficou em 20,4 mil.
Ricci desconfia inclusive de que o barulho atual seja de imprensa, não de opinião pública. “Um jornalista fala com outro, e com outro, e chamam isso de opinião pública”, afirma, lembrando que o movimento não aparece nos trackings nem nos grandes surveys de Datafolha e Quaest.
Enfim, pergunta que ele herda de Francisco Weffort é mais dura. Weffort, cientista político da USP, um dos fundadores do PT e depois ministro da Cultura de Fernando Henrique Cardoso, passou a vida estudando populismo e a relação entre o povo brasileiro e suas instituições, e morreu em 2021 fazendo mais ou menos a mesma pergunta. Será que a população já não crê nas instituições e trata isso como bagunça de quem está no andar de cima. Se ninguém aparecer, Fachin ganha o tempo que precisa, os pedidos seguem engavetados e a saída de Moraes, se vier, será a “saída honrosa” que juristas, gente do Judiciário e das campanhas já discutem nos bastidores, segundo o UOL.