Foto: Veja
Segundo análise da BBC News Brasil, os dois maiores grupos religiosos do país apresentam comportamentos distintos na disputa presidencial, embora religião não explique sozinha a escolha do eleitor
Levantamento da Quaest mostra Lula com 48% das intenções de voto entre os católicos, contra 29% de Flávio Bolsonaro. Entre os evangélicos, o cenário se inverte: Flávio aparece com 46%, enquanto Lula registra 27%. Católicos e evangélicos representam, juntos, 79% dos brasileiros com 16 anos ou mais, segundo dados coletados pela Quaest para o Instituto de Estudos da Religião (ISER).
Os números também apontam mudanças em relação à pesquisa anterior. Entre os católicos, a vantagem de Lula passou de 16 para 19 pontos percentuais. Entre os evangélicos, a diferença favorável a Flávio caiu de 26 para 19 pontos. Em um eventual segundo turno, Lula aparece com 50% entre os católicos, contra 37% de Flávio. Entre os evangélicos, Flávio tem 54%, ante 30% de Lula.
Especialistas ressaltam, porém, que a religião não deve ser analisada isoladamente. Fatores como renda, raça e região também interferem no comportamento eleitoral. A professora Lívia Martins, da PUC-Rio e coordenadora do ISER, afirma que católicos e evangélicos são grupos heterogêneos. Entre os católicos, por exemplo, o apoio a Lula é sustentado principalmente por negros e pardos, enquanto entre os católicos brancos há empate.
No eleitorado evangélico, os pentecostais apresentam maior resistência ao PT, enquanto os chamados “desigrejados” — evangélicos sem vínculo institucional com uma igreja — tendem a apresentar posições mais flexíveis em temas morais e menor alinhamento com o bolsonarismo. A influência de líderes religiosos também não é absoluta: pesquisas do ISER mostram que a maioria dos fiéis rejeita recomendações de voto dentro dos templos.
A disputa religiosa ganhou força durante a campanha após a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida. Para pesquisadores ouvidos pela BBC, o episódio pode ter contribuído para mobilizar eleitores, mas não é possível atribuir a ele, isoladamente, as oscilações nas pesquisas. Classe social, políticas de transferência de renda, questões morais e diferenças regionais também aparecem como fatores relevantes para compreender o comportamento dos eleitores.