colunista Francisco Saboya
Superintendente do Sebrae Pernambuco

Os Estados Unidos voltaram pro jogo

Biden anunciou um pacote de investimentos para ampliar a competitividade da economia americana. É uma espécie de New Deal
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Semana passada, o presidente Biden anunciou um pacote de investimentos para ampliar a competitividade da economia americana. É uma espécie de New Deal para os próximos 70 anos. De alguma forma, ele já havia manifestado a ideia em carta enviada ao presidente do Broad Institute (MIT/Harvard) após sua eleição – gesto similar ao de Roosevelt em 1944, onde perguntava ao seu conselheiro científico o que a ciência e tecnologia poderiam fazer pela prosperidade do país. Essa provocação feita há 75 anos gerou as bases do Sistema Nacional de Ciência do país e os EUA lideraram o mundo com folga por décadas. 

O plano movimentará algo em torno de U$ 2,25 trilhões em investimentos em 8 anos. Para se ter um parâmetro de referência, equivale a cerca de 20 Planos Marshall, pacote de subsídios e empréstimos para a reconstrução da Europa no pós guerra. E também equivale a 20 vezes o plano de revitalização da economia europeia, o Europe 2020 Strategy, lançado em 2010. As maiores rubricas são voltadas para infraestrutura de transportes e logística (U$ 620 bi); indústrias high tech (U$ 300 bi); pesquisa, desenvolvimento, inovação e banda larga (U$ 280 bi); sustentabilidade ambiental (veículos elétricos + energias renováveis, U$ 274 bi). Nada de foguetes, bombardeiros e mísseis, cujo ganho marginal em termos de poder é perto de zero, considerando a capacidade de estrago que o arsenal já existente nas grandes potências é capaz de causar. O teatro da guerra volta a ser a economia. Ou mais precisamente, a economia do futuro. 

A China faz parte dessa equação. O pacote é uma resposta inteligente ao poderio do país asiático, e o oposto da reação do antecessor Trump, que preferiu instaurar uma guerra comercial anacrônica e de resto perdida na largada. A questão é a competitividade em mercados globais. Depois de viver literalmente nas trevas do conhecimento no período da Revolução Cultural (1966-1976), numa abordagem negacionista da ciência e educação combinada com a exacerbação do sectarismo doutrinário maoísta (nenhuma ironia aqui, talkey?!), a China iniciou há cerca de 40 anos um amplo programa de reformas que incluía a produção low-end de manufaturas básicas, alguma abertura para o mercado externo e a reabertura e criação de universidades. Em fases posteriores, o modelo de desenvolvimento chinês passa a priorizar o progresso científico-tecnológico e a criação de indústrias high-end de produtos de alto valor agregado para, através de estratégias agressivas de internacionalização, comercializar e rentabilizar inovações tecnológicas por meio de uma pauta industrial altamente competitiva. Compreender a China é tarefa megacomplexa, da qual cuidam especialistas, o que não é o meu caso. 

Mas o fato é que o modelo parece estar dando certo. Possui o segundo maior PIB (US$ 13 trilhões), ameaçando ser o primeiro em 10 anos; tem o maior banco do mundo em ativos, o Banco Industrial e Comercial da China (estatal); é o maior exportador do planeta, produz 75% dos celulares, 80% dos painéis solares e 90% dos computadores do mundo. Tem um quarto das empresas 500 mais da Fortune, Alibaba é maior do que a Amazon e Huawei lidera a tecnologia 5G. Como o futuro é logo ali, a China lançou há cinco anos o MIC – Made In China, programa que visa fixar a liderança do país em áreas como tecnologia da informação, robótica, saúde e biotecnologia, novos materiais e energias renováveis, entre outras. Como resultado de todo esse esforço, 850 milhões de chineses saíram da linha de pobreza nas últimas quatro décadas, segundo o Banco Mundial. É esse o pano de fundo do pacote americano.

O presidente Biden parece ter acertado ao focar na competitividade da economia americana, endereçando as áreas críticas corretas para o desenvolvimento econômico e social nas próximas décadas. A outra opção seria insistir na litigância comercial, que apenas enfraqueceria ainda mais a já fragilizada liderança econômica e diplomática do país. O fato da China ter uma arquitetura política, institucional e econômica especial, onde as fronteiras estruturalmente imprecisas entre um gigantesco estado-ator econômico (produtor, consumidor, financiador, regulador…) e um igualmente gigantesco setor produtivo privado, que cresce geometricamente em simbiose com o estado-sócio, impedem o país de ser considerado pela OMC como uma economia de mercado, é irrelevante, pois o país já domina O mercado. Questionar ideologicamente o capitalismo de estado chinês – essa deformação do capitalismo com infiltrações socialistas, como rotulam os críticos – com base nas combalidas teorias liberais e reivindicar que o país obedeça ao laissez-faire dos mercados genuínos, é inútil. Melhor seria reconhecer, pragmaticamente, que o jogo econômico tem novos players, algumas regras diferentes e muita gente fazendo gol. Com um treinador novo, os Estados Unidos voltaram pro jogo.

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