Tentativa de censura

Repórter Brasil é alvo de ataques; associações repudiam e cobram providências

Abraji, Fenaj, OAB e SJSP manifestaram apoio à instituição e à liberdade de expressão
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13 de janeiro de 2021

Desde a primeira semana de 2021, a ONG Repórter Brasil vem sofrendo uma série de ataques virtuais, causando instabilidades no site do veículo, que chegou a sair do ar. Na última quinta-feira (7), a sede da redação, em São Paulo passou por uma tentativa de invasão física.

Horas depois das primeiras investidas digitais, no dia 6, a organização recebeu um e-mail anônimo exigindo que determinadas reportagens publicadas fossem retiradas integralmente do ar: “Como devem ter percebido vcs passaram por alguns problemas tecnicos na ultima data. Para que isso nao ocorra novamente removam as materias nas pastas de 2003, 2004, 2005 (sic)”.

Prontamente, em comunicado oficial, a instituição declarou que não atenderia “nenhuma tentativa de constrangimento ilegal, ainda mais uma que represente autocensura”, tendo em vista a situação de “flagrante desrespeito à liberdade de expressão e à liberdade de imprensa”.

Na manhã seguinte à nota, os ataques continuaram, e a sede da Repórter Brasil sofreu uma tentativa de ataque, impedida pela chegada de vizinhos ao local. O arrombamento do portão, então, não foi consumado, mas ele terá que passar por reparos. Com isso, a segurança local precisou ser reforçada.

Ataques online configuram nova prática de censura
Investidas digitais contra o site Repórter Brasil configuram nova prática de censura.
(Foto: Lorenzo Cafaro/Pixabay)

No dia 8, os criminosos encaminharam um novo e-mail: “vamos esperar até 11/01 para que atendam nossas solicitações…”. Na segunda-feira, data mencionada na mensagem, o site passou por novos ataques, mais intensos, que impossibilitaram o acesso ao domínio por algumas horas.  

Assessorada por advogados, os dirigentes do site acionaram o Ministério Público Federal para dar início às investigações, além de registrarem boletim de ocorrência na Polícia Civil.

Fundada em 2001, a Repórter Brasil é um grupo de jornalistas, cientistas sociais e educadores que atuam com foco em reportagens sobre direitos humanos, incluindo denúncias de trabalho escravo.

Método DDoS

Segundo a equipe de segurança digital da ONG, entre os dias 6 e 11 de janeiro, os invasores utilizaram uma tática chamada DDoS (‘Denial Of Service’ ou negação de serviço distribuída, em tradução livre), caracterizada como uma tentativa de sobrecarga em um servidor, visando a indisponibilidade de recursos para os usuários.

Para isso, o atacante comanda um computador mestre capaz de gerenciar outros milhões de computadores, denominados ‘zumbis’. Assim, a máquina principal escraviza esses milhares de zumbis, obrigando-os a acessar um determinado alvo ao mesmo tempo. Levando em consideração que os servidores web conseguem atender um número limitado de usuários, esse tráfego repentino é amplamente capaz de obstruir o sistema e causar seu colapso.

Essa metodologia, no entanto, não é considerada uma invasão, uma vez que ela realiza apenas a invalidação por intermédio da sobrecarga. O diretor da Repórter Brasil, Leonardo Sakamoto, explicou que o site “recebe esse tipo de ataque por sobrecarga há muitos anos. O grande diferencial, que faz com que esse ataque seja novo, é um pedido de chantagem não financeira: ou vocês cometem autocensura ou a gente não vai deixar o site de pé. Isso é muito grave”. “Devemos ficar de olho porque isso vai ser uma prática”, completou.

Resistência midiática

Diversos veículos de comunicação se posicionaram sobre o episódio a favor da organização de jornalismo independente e, principalmente, da liberdade de expressão.

A diretoria da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) afirmou que “não aceita ultimatos e constrangimentos ilegais impostos a jornalistas e veículos. Atos criminosos como esses afrontam o direito fundamental da liberdade de expressão, garantido pelo art. 5º, inciso IX da Constituição Federal.”

O advogado Pierpaolo Bottini, coordenador do Observatório da Liberdade de Imprensa do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), disse ser “preocupante o galopante nível de ataque as instituições jornalísticas”.

“Desde o governo federal até hackers fazem sistemático vilipêndio aquilo que deveria ser defendido como pilar de uma sociedade democrática. É preciso reagir, investigar, identificar os responsáveis”, completa.

A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), em nota assinada pela presidente da entidade, Maria José Braga, declarou que “é a primeira vez que temos um ataque cibernético com objetivo assumido de censura, portanto, assumidamente um ataque à liberdade de imprensa. A desfaçatez do ou dos responsáveis exige o repúdio de toda sociedade e uma resposta à altura das autoridades competentes”.

Também em nota, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de São Paulo (SJSP) asseguraram que as investidas “desrespeitam a liberdade de imprensa, afrontam a democracia e impõem censura ao site”, além de que as ameaças e ataques “são inconcebíveis em uma sociedade democrática e não podem ser tolerados.” O SJSP colocou-se à disposição para “somar-se às medidas judiciais já adotadas e solidariza-se com a organização que mantém o site jornalístico”, afirmou.

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