Relações comerciais

Macron insinua boicote à soja brasileira: entenda o que isso significa

Fala do presidente francês mistura protecionismo e pressão contra a política ambiental do governo Bolsonaro
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13 de janeiro de 2021

Nesta terça-feira (12), o presidente da França, Emmanuel Macron, em mensagem nas redes sociais, afirmou que “continuar dependendo da soja brasileira é endossar o desmatamento da Amazônia”.

Respaldando-se em ambições ecológicas, o mandatário alegou que é coerente ao ambientalismo fomentado no país, e que está lutando para “produzir soja europeia ou equivalente”.

Para analistas políticos e profissionais jurídicos, a declaração do francês externa interesses comerciais protecionistas, mas não deixam de refletir uma conjuntura diplomática que pressiona o Brasil acerca da postura federal frente à devastação florestal e o agronegócio.

Em entrevista para o Almoço do MyNews, o advogado e ex-deputado federal Airton Soares caracterizou a investida de Macron como metodologia de defesa, considerando as distintas condições naturais para a exploração de soja no Brasil, em detrimento da realidade agrária.

Colheita de soja em fazenda no Brasil
Colheita de soja em fazenda no Brasil. Política ambiental brasileira pode atrapalhar o agronegócio nacional.
(Foto: Pixabay)

“A soja é um pretexto. Na verdade, o Macron defende a agropecuária e os produtores de alimentos da França. Aí, então, entra a questão do frango que chega até lá, das laranjas, abacaxis, legumes… todos produzidos aqui no Brasil, afetando a produção francesa, além de concorrer, segundo ele, de maneira desleal”, explicou.

O vice-presidente Hamilton Mourão, na manhã desta quarta-feira, criticou o posicionamento do dirigente francês: “Macron desconhece a produção de soja do Brasil. Nossa produção de soja é feita no cerrado ou no sul do país […] Então, eu acho que nada mais, nada menos, ele externou aí aqueles interesses protecionistas dos agricultores franceses. Faz parte do jogo político”, completou.

De acordo com Soares, Macron se utilizou da preservação ambiental, de fato concebida como uma das principais agendas dos líderes europeus, para, indiretamente, potencializar o mercado doméstico. “É válida a primeira parte, ele tem mesmo que encampar – não é só o Macron que não tolera conviver com políticos como o Bolsonaro, mas também toda a realidade europeia e todos os democratas que estão no poder ao redor do mundo”, esclareceu.

Uma questão diplomática

Participando também da entrevista, o cientista político e professor da UERJ Christian Lynch rememorou o acordo de livre comércio engendrado entre os países do Mercosul e da União Europeia. Para ele, a resolução celebrada recentemente “foi muito difícil, sujeita ainda à ratificação, e que aqueles dados como vencidos certamente têm interesse de criar empecilhos para valorizar os próprios produtos”.

Em uma economia cada vez mais globalizada e interdependente, pautas progressistas ganham forças políticas por meio da adesão popular, delineando novos valores a práticas comerciais, principalmente àquelas atreladas às transformações e reformas sociais.

“Estamos em um ambiente de competição internacional, somos os únicos produtores de soja no mundo. O risco que a gente corre é que aconteça com a soja o mesmo que aconteceu com a borracha no começo do século XX: se você não se aplica a tentar vender bem o seu produto, a concorrência vai superá-lo”, elucidou Lynch.

Macron e Biden

Como toda nação, o Brasil também está sujeito às fiscalizações e regulamentações por parte da comunidade internacional. Além desse policiamento e das dificuldades naturais das transações, ainda “temos um presidente da república que dá todos os pretextos para boicotarem e imporem sanções econômicas. Temos que entender que o Macron está olhando o lado dele, mas nós, infelizmente, não estamos olhando o nosso. Quer dizer, a sociedade civil vê, mas quem deveria olhar por nós, na defesa dos interesses brasileiros em ambiente internacional, não está fazendo sua parte”, acrescentou.

A vitória de Joe Biden nos Estados Unidos estreita ainda mais o cerco contra o Brasil. Durante a campanha eleitoral, o democrata fez um alerta ao governo brasileiro: “Parem de destruir a floresta. Se vocês não pararem, sofrerão significativas consequências econômicas”. A questão diplomática, no entanto, ainda parece estar longe de ser definida.

“Diplomacia a gente tem, mas ela não está podendo falar nem agir. Esse governo tenta se impor por meio dos cargos de direção, colocando pessoas que não têm liberdade para fazerem o que querem mesmo sendo simpatizantes do próprio Bolsonaro. Em casos específicos, como o da pasta do Meio Ambiente, os ministros compram o pacote completo desse populismo reacionário radical. Diplomacia a gente tem, mas ela está impedida de atuar por causa dessa diretriz, existindo apenas para servir aos interesses da família presidencial. Os interesses do Brasil, como Estado, não importam, o que importa, na verdade, é tudo aquilo que se pode cacifar para esse projeto”, concluiu.   

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