Pandemia e diplomacia

Vacinação no Brasil esbarra em falta de insumos de China e Índia e na política externa

Postura do Itamaraty sobre a China e atropelos com a Índia ameaçam vacinação no Brasil
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Com um dia de atraso em relação ao previsto, a vacinação no Brasil contra a Covid-19 se encontra em andamento em todos os estados do país e do Distrito Federal. No entanto, além dos desencontros entre os entes federativos, a imunização no país ainda tem como desafio a atual política externa brasileira.

Isso porque o Brasil vem colecionando atropelos e trocas de farpas com China e Índia, que além de parceiros comerciais importantes também figuram entre os maiores fornecedores globais de insumos médicos — como aqueles usados para fabricação de vacinas.

O Brasil produz apenas 5% dos insumos médicos necessários para sua demanda de medicamentos e vacinas. Os demais 95% são importados, sendo que China e Índia respondem por nada menos que 72% do total da demanda nacional que vem de fora — 35% e 37%, respectivamente, de acordo com a Abiquifi (Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos).

As duas vacinas já aprovadas para uso emergencial no Brasil, a serem produzidas pelo Instituto Butantan (Coronavac) e pela Fiocruz (Oxford/AstraZeneca), dependem desses insumos médicos que não estão chegando de China e Índia. Sem eles, não é possível dar continuidade à vacinação no país.

Doses da Coronavac, vacina que recebeu autorização para uso emergencial no Brasil
Doses da Coronavac, vacina que recebeu autorização para uso emergencial no Brasil. (Foto: Breno Esaki / Agência Saúde)

Barradas pela diplomacia

Um desses insumos é o IFA (Ingrediente Farmacêutico Ativo), que vem da China. De acordo com o Instituto Butantan, que vai produzir a Coronavac, a encomenda acertada para as novas doses do imunizante no país já está pronta, mas depende de questões burocráticas para embarcar em direção ao Brasil.

A Fiocruz também informou que aguarda a vinda desse insumo da China para produção das vacinas a partir do convênio com a Universidade de Oxford e laboratório AstraZeneca.

No entanto, as relações do governo de Jair Bolsonaro com a China estão longe de um bom momento. O motivo principal são as sucessivas críticas do presidente, de seus filhos e do ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, contra um dos principais parceiros comerciais do Brasil.

Também entram nessa conta as seguidas acusações da ala ideológica do governo Bolsonaro — que possui em Araújo um de seus principais nomes —de que a China seria responsável pelo novo coronavírus; e os questionamentos sobre a Coronavac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac.

Diante do impasse diplomático, parlamentares tem se movimentado para tentar desatar esse nó. O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), marcou uma audiência com o embaixador da China para tentar agilizar o processo. Para Maia, o governo Bolsonaro “interditou a relação com a China”.

O presidente da Frente Parlamentar Brasil-China e da Frente Parlamentar dos BRICS, o deputado federal Fausto Pinato (PP-SP), entregou nesta terça uma carta ao presidente chinês, Xi Jinping. No documento, protocolado na Embaixada da China, em Brasília, ele pede a intervenção direta do presidente chinês para que libere a exportação do IFA ao Instituto Butantan e à Fundação Oswaldo Cruz, garantindo a continuidade da produção das vacinas Coronavac e Oxford/AstraZeneca no Brasil.

Teste com voluntário para vacina contra a Covid-19
Teste com voluntário para vacina contra a Covid-19. (Foto: Governo do Estado de São Paulo)

Importação fracassada da Índia

Outra má notícia para o programa brasileiro foi a operação frustrada de buscar 2 milhões de doses da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pelo laboratório AstraZeneca junto ao Instituto Serum, na Índia.

O Brasil chegou a adesivar um avião que teria a Índia como destino para buscar o imunizante. No entanto, o governo indiano disse que não poderia atender à demanda brasileira no momento e que a prioridade seria suprir o mercado nacional.

Nesta terça-feira (19), no entanto, a Índia iniciou a exportação de doses da vacina para países vizinhos, como parte de sua política externa. E não há qualquer previsão até o momento para atender a solicitação brasileira.

O presidente Jair Bolsonaro chegou a dizer na segunda (18) que o atraso na vinda das vacinas da Índia seria de “2 ou 3 dias”, o que acabou desmentido pelo anúncio do governo indiano.

Visão diplomática ultrapassada

Reservadamente o Itamaraty já admite o impasse com Índia e China e suas consequências. E tem atuado por meio de diplomatas na China e na Índia para tentar evitar os danos que o atraso ameaça causar ao programa de imunização brasileiro.

Para Marcos Vinicius Freitas, professor visitante na Universidade de Relações Exteriores da China, o país precisa ver a China muito mais do que como parceiro econômico. E acrescenta ainda que a visão diplomática atual do Itamaraty parece ver o mundo como há 40 ou 50 anos atrás — quando ainda estava vigente a Guerra Fria.

“O Brasil precisa da China como um parceiro econômico e político importante. As antigas alianças do Brasil não necessariamente serão aquelas que vão dar os ganhos econômicos exponenciais que a China pode oferecer”, disse o professor em participação no programa Dinheiro na Conta desta terça.

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