Eles não serão como seus pais IMPRENSA

Eles não serão como seus pais

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Relatório do Reuters Institute mostra que os jovens não abandonaram o jornal e a TV. Eles simplesmente nunca chegaram lá. E isso muda tudo para quem faz jornalismo

Pergunte a um jovem de 20 anos quando foi a última vez que abriu um jornal. Ele não vai lembrar. Não porque esqueceu. Porque nunca abriu.

Essa geração não vai crescer, amadurecer e acabar vivendo como nossos pais. Não na forma de se informar. Nunca vai assinar o jornal de domingo nem esperar o telejornal das oito para saber o que aconteceu no país.

Ela pergunta para a máquina.

“O que o STF decidiu hoje?” “Me explica isso de novo, mais simples.” “E o que isso muda para mim?” A conversa com um chatbot é o novo café da manhã com o jornal aberto. Com uma diferença. O jornal nunca respondia de volta.

Os números foram apresentados nesta semana, em Nova York, no YouTube News Working Group, por Jim Egan, do Digital News Report 2026, da Universidade de Oxford. O estudo ouviu quase 100 mil pessoas em 48 países. Entre os jovens de 18 a 24 anos, 52% se informam principalmente por redes sociais, vídeo e inteligência artificial. E 56% dos que não leram jornal na última semana dizem que nunca leram um com regularidade. A IA ainda é a porta menor, mas a que mais cresce, e entre os jovens o uso é três vezes maior que entre os mais velhos.

Por quê? Porque ali alguém escuta. O recurso mais valorizado nos chatbots é poder fazer a pergunta seguinte. Nos criadores de conteúdo, o público encontra clareza e proximidade que não vê na bancada de terno. E a notícia chega sozinha, no meio do feed, sem que ninguém precise sair para buscá-la.

Durante anos, a indústria da comunicação se consolou com uma tese confortável. Os jovens se informariam pelo celular enquanto jovens, mas, ao ter filhos, contas e boletos, voltariam ao noticiário e à assinatura. O relatório de Oxford desmonta essa esperança. Os pesquisadores concluem que não há razão para acreditar que essa geração vá adotar os hábitos das anteriores.

Isso é um perigo. E é também uma responsabilidade enorme para nós, jornalistas.

O perigo está no que ocupa o espaço vazio. A confiança na notícia caiu para 37%, o menor nível desde que começou a ser medida, em 2015. A preocupação com desinformação subiu para 62%. E só 20% confiam no que a IA responde. Nas redes sociais, 22%. Os jovens estão se informando justamente onde menos acreditam. Não por escolha consciente, mas por conveniência. É ali que eles passam o dia.

A responsabilidade está em entender que esse público não vai voltar para onde estávamos. Somos nós que precisamos ir até onde ele está. Pela primeira vez, na média global, redes sociais e plataformas de vídeo superaram os sites e aplicativos dos próprios veículos como forma de acesso à notícia. Setenta e sete por cento das pessoas assistem a vídeos de notícia toda semana. Mas o consumo de vídeo nos sites dos veículos tradicionais caiu. Todo o crescimento acontece nas plataformas.

Há quem veja nisso o fim do jornalismo. Eu vejo o fim de um endereço. O jornalismo continua necessário, talvez mais do que nunca. O que mudou é a porta de entrada.

E há sinais de esperança nos próprios dados. O YouTube aparece, ao lado do X, como uma das únicas plataformas em que a maioria dos usuários procura notícia de forma intencional, e não por acaso, entre um vídeo de receita e outro de futebol. Quase metade do público ainda prefere notícia que não toma partido. E as marcas jornalísticas em que as pessoas confiam resistem melhor à queda geral de credibilidade. O público não desistiu da boa informação. Desistiu dos formatos que não conversam com a sua vida.

Os criadores de conteúdo entenderam isso antes de muitas redações. Já são 27% as pessoas que consomem notícias de criadores dedicados ao jornalismo. Mas o mesmo público que os acha mais próximos e divertidos também os considera menos confiáveis e menos imparciais. Aí está a lacuna que o jornalismo profissional precisa ocupar. Linguagem de quem conversa, com rigor de quem apura.

Quando fundamos o MyNews, em 2018, ouvimos muitas vezes que o YouTube não era lugar de jornalismo sério. Hoje, os números de Oxford dizem que talvez seja o lugar mais importante para ele estar.

A pergunta que nos cabe não é como trazer os jovens de volta para o jornal que seus pais liam. Eles não virão. A pergunta é como levar até eles a notícia checada, contextualizada e honesta que seus pais encontravam na banca da esquina. Com a mesma apuração, a mesma responsabilidade, mas no idioma e na tela em que eles vivem.

Eles não serão como seus pais. Cabe a nós garantir que, sendo tão diferentes, não fiquem sem aquilo que de melhor tivemos. Informação em que se possa confiar.

Belchior escreveu “Como Nossos Pais” como um lamento. A dor de uma geração que sonhou mudar tudo e descobriu, no espelho, que tinha virado aquilo contra o que lutava. Quase cinquenta anos depois, a canção ganha um novo sentido para quem faz jornalismo. Nossos filhos não vão repetir a nossa história, e talvez isso seja uma boa notícia. Desde que, no caminho que eles escolheram encontrem a mesma coisa que nossos pais encontravam na banca da esquina. Informação em que se possa confiar.

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