COPA 2026
Da literatura nórdica à simplicidade em campo, o gigante norueguês despertou no torcedor brasileiro uma saudade profunda do futebol em estado puro, longe da ostentação das redes sociais
Dizem que o algoritmo é um espelho e só nos mostra o que, no fundo, queremos ver. Se for verdade, minha timeline anda revelando um segredo curioso. Nos últimos dias, ela se encheu de brasileiros declarando amor ao homem que nos tirou da Copa, encantados com o jeito daquele grandão de um metro e noventa e cinco, com sua simplicidade, com sua falta absoluta de pose. Talvez eu tenha apenas entrado na bolha do Haaland, e o país lá fora siga alheio a essa paixão improvável. No entanto, bolha ou movimento, o sentimento existe e diz algo sobre nós.
Erling Haaland marcou os dois gols que eliminaram o Brasil nas oitavas de final, no MetLife Stadium, a queda mais precoce da Seleção desde 1990. Mas, em vez de virar vilão, virou objeto de afeto. Esse norueguês despertou, ao menos nos brasileiros que cruzaram minha tela, uma saudade dos sentimentos mais puros do futebol. O encantamento pelo jogo, pela gentileza, pela simplicidade no ser, tudo o que é o contrário do exibicionismo que dominou nossos campos. E a literatura norueguesa ajuda a explicar.
Comecemos por Ibsen. Em Peer Gynt, o dramaturgo criou o anti-herói norueguês por excelência: o fanfarrão que mente, se exibe, promete o mundo e foge de si mesmo. Peer Gynt é, convenhamos, um personagem que reconheceríamos facilmente em muitos gramados por aí. Ibsen o escreveu como crítica, o retrato de tudo o que um norueguês não deveria ser. Haaland é o anti-Peer Gynt. Um metro e noventa e cinco de ausência de fanfarrice. Marca dois gols contra a maior potência da história do futebol e declara, com a naturalidade de quem comenta o tempo: “Talvez isso escreva história na Noruega. Todo mundo só precisa se divertir.” Nenhum drama, nenhuma pose. E o brasileiro, saturado de décadas de teatro fora de campo, olhou aquilo e sentiu algo parecido com saudade.
Além de Ibsen, vem Knut Hamsun, o Nobel de A Bênção da Terra, o hino ao homem que planta, colhe e não reclama. O espírito hamsuniano é o da ligação quase sagrada com o trabalho: fazer o que precisa ser feito, sem discurso. Haaland é um personagem de Hamsun com chuteiras. Sobe, cabeceia, corre, finaliza. “Faço meu trabalho, sou pago para fazer gol”, disse numa entrevista. No primeiro gol, subiu acima da zaga e cabeceou; no segundo, um chute de esquerda com força demais para qualquer goleiro. É o futebol como lavoura: eficiente, honesto, sem adornos. E eis o paradoxo que nos encantou: nessa simplicidade radical, o brasileiro reconheceu a essência do futebol-arte que ele mesmo inventou. Porque futebol-arte nunca foi firula. Foi Garrincha driblando por alegria, Pelé resolvendo com a naturalidade de quem respira. A arte estava no gesto puro, não no espetáculo em volta dele. Haaland, à sua maneira nórdica, devolveu ao brasileiro a lembrança de que a beleza do jogo mora no jogo.
E, por fim, Sigrid Undset, cuja Kristin Lavransdatter atravessa a Noruega medieval carregando fé, dever e as consequências das próprias escolhas, sem nunca terceirizar a culpa. É a ética da responsabilidade radical. Enquanto por aqui a eliminação já rendia a tradicional caça aos culpados, os noruegueses celebravam com a “Viking Row” nas arquibancadas, aplaudida, aliás, pelos próprios torcedores brasileiros antes de a bola rolar. O Brasil aplaudindo o carrasco antes da execução, eis a cena que resume tudo. Não era rendição. Era reconhecimento.
Há ainda a Janteloven, a lei cultural norueguesa que proíbe alguém de se achar melhor que os outros. Graças a essa mentalidade, Haaland, um dos atletas mais bem pagos do planeta, se comporta como o vizinho grandão que ajuda a carregar as compras. Vive de moletom, joga videogame, dorme cedo. O brasileiro, criado no culto à ostentação dos ídolos, descobriu que existe outro jeito de ser gigante: em silêncio. E se apaixonou por isso, porque, no fundo, era disso que sentia falta.
Confesso que não conhecia nada sobre Haaland, muito menos sobre o futebol norueguês. Mal conheço o futebol brasileiro. O que conheço dos brasileiros dentro e fora de campo, na verdade, é esse exibicionismo de jogadores-celebridades que dominou os campos nas últimas décadas, ou, como resumiu o comentarista Arnaldo Cézar Coelho em entrevista exclusiva ao MyNews, jogadores brasileiros que ficaram ricos, célebres e exibicionistas.
“Estou puto”, diz Arnaldo Cezar Coelho sobre a Seleção Brasileira
Haaland é o contraponto exato. Não nasceu pobre. Ele vem de uma família de atletas de alto rendimento bem-sucedidos. Foi criado nessa disciplina, a do esporte como ofício, não como palco. Não é exibicionista; ninguém conhece o rosto do filho dele, por exemplo. Aliás, só descobrimos que ele tinha um filho depois dos dois gols que eliminaram o Brasil. Parece um garoto normal, um jovem comum, que anda pelo campo sem alarde e, quando vê a oportunidade, vai certeiro. Afinal, como ele mesmo já disse: fazer gols é o trabalho dele.
Portanto, talvez seja essa a verdadeira notícia desta Copa. Haaland não conquistou o brasileiro apesar de ter nos eliminado; conquistou porque, ao nos eliminar daquele jeito, reacendeu em nós o amor mais antigo: o amor pelo futebol em estado puro, jogado por gente que parece gente. Fomos eliminados pela Noruega. E, num gesto muito nosso, respondemos com encantamento.