Segurança pública deve pautar disputa de 2026 em meio ao medo da violência política e avanço da criminalidade Créditos: Da direita para esquerda | Flávio Bolsonaro, foto: Vitor Salles | Presidente Lula, foto: Ricardo Stucker | Renan Santos, foto: redes sociais

Segurança pública deve pautar disputa de 2026 em meio ao medo da violência política e avanço da criminalidade

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Levantamentos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da Nexus indicam que a insegurança permanece entre as principais preocupações dos brasileiros, com impacto sobre o comportamento da população e o cenário eleitoral

A segurança pública desponta como um dos principais temas da disputa eleitoral de 2026 diante da elevada percepção de insegurança entre a população —- desde insegurança política até outros crimes bárbaros. É nessa corrente que os pré-candidatos à Presidência da República vem sustentando suas teses rumo ao Palácio do Planalto; como o Renan Santos, da Missão, que há anos defende propostas voltadas ao endurecimento da legislação penal, incluindo a adoção do conceito de direito penal do inimigo, ampliação da repressão total ao crime organizado com declaração de  guerra e aumento das penas. Já o pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) recentemente tem defendido a classificação de organizações criminosas, como PCC e Comando Vermelho, como grupos terroristas — ao passo de ter comemorado com muito entusiasmo a decisão do governo Trump em tomar tal medida.

No âmbito do governo federal, a principal iniciativa permanece sendo a PEC da Segurança Pública, articulada pelo Palácio do Planalto desde o ano passado com o objetivo de reorganizar competências e fortalecer a atuação integrada entre União, estados e municípios.

Mesmo assim, as articulações políticas não são percebidas pela sociedade brasileira, afinal a preocupação com a violência também aparece entre os fatores associados à avaliação do governo federal. Pesquisa da Nexus, divulgada na última semana, mostra que a desaprovação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva alcançou 48%, mesmo percentual registrado para a aprovação.

Créditos: Da direita para esquerda | Flávio Bolsonaro, foto: Vitor Salles | Presidente Lula, foto: Ricardo Stucker | Renan Santos, foto: redes sociais

O último levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostra que 59,6% dos brasileiros com 16 anos ou mais afirmam ter medo de sofrer agressão física em razão de suas escolhas políticas ou partidárias, o equivalente a aproximadamente 99,4 milhões de pessoas. Divulgado ao fim de maio deste ano, o estudo “Medo do crime e eleições 2026: os gatilhos da insegurança”, elaborado pelo FBSP em parceria com o Instituto Datafolha, traz um panorama estratégico do que deve pautar o discurso político nos próximos meses. 

Em termos de violência política, apesar de o índice representar um certo recuo em relação a 2022, quando 68% dos entrevistados declaravam esse receio, o levantamento revelou que 2,2% da população, cerca de 3,6 milhões de brasileiros, afirmam ter sido vítimas de agressões motivadas por posicionamentos ideológicos-políticos nos últimos doze meses.

Além das motivações políticas, o estudo identificou também que 96,2% dos brasileiros manifestam medo de ao menos uma das 13 situações de violência avaliadas. Os maiores receios concentram-se em crimes patrimoniais e digitais. Os principais resultados são:

  • 83,2% têm medo de sofrer golpe pela internet ou celular;
  • 82,3% temem roubo à mão armada;
  • 80,7% receiam morrer durante um assalto;
  • 78,8% têm medo de ter o celular furtado ou roubado;
  • 78,6% afirmam temer assaltos nas ruas;
  • 77,5% receiam ser atingidos por bala perdida;
  • 76,1% têm medo de invasão à residência;
  • 75,1% afirmam temer serem assassinados.

O levantamento também identificou diferenças entre os grupos pesquisados. As mulheres apresentaram índices de temor superiores aos dos homens em todas as categorias analisadas. 

Já a população negra, ainda que em menor proporção, registrou uma maior percepção de risco em episódios relacionados à violência letal. 

Entre as classes econômicas, pessoas das classes D e E demonstraram preocupação mais intensa com a violência física, enquanto nas classes A e B predominam os receios relacionados a crimes patrimoniais e fraudes digitais.

Violência altera hábitos da população

Um dos aspectos mais interessantes do estudo mostra que a sensação de insegurança tem provocado mudanças no cotidiano dos brasileiros. Segundo a pesquisa, 57% da população modificou algum comportamento em razão da violência durante os últimos doze meses.

As mudanças mais frequentes incluem:

  • 36,5% passaram a alterar trajetos habituais;
  • 35,6% deixaram de sair à noite;
  • 33,5% evitam circular com o celular;
  • 26,8% deixaram de utilizar alianças ou acessórios;
  • 22,5% desistiram da compra de determinados bens.

Entre as mulheres, essas alterações comportamentais aparecem de forma ainda mais acentuada, principalmente na redução da circulação durante o período noturno.

Mônica Gurjão, psicóloga e doutora em Psicologia Social pela PUC-SP, já afirmou anteriormente que viver em estado permanente de alerta produz impactos que vão além da saúde mental, podendo desencadear efeitos físicos, como aumento da ansiedade, tensão corporal e desgaste das relações interpessoais. A especialista ressaltou ainda que esse medo não pode ser compreendido apenas como um problema individual. Segundo ela, trata-se de um sentimento atravessado por experiências sociais, como violência, desigualdade, racismo e machismo, que mantêm parte da população em vigilância contínua, sobretudo aqueles em situação de maior vulnerabilidade.

Não podemos analisar esse comportamento de forma isolada, como se o medo surgisse do nada ou fosse apenas um ‘problema individual’. O medo não se cria aleatoriamente. Ele é produzido e intensificado por experiências sociais”, afirma.

Na avaliação de Mônica, mais importante do que reconhecer a existência desse sentimento é compreender suas origens e consequências. “A sensação contínua de ameaça produz um ‘medo constante do mundo’. E, quando o mundo é percebido como perigoso o tempo todo, muitas pessoas tendem a se fechar: diminuem a confiança, evitam vínculos, restringem a circulação e a convivência”, conclui.

A pesquisa também aponta que 41,2% dos entrevistados afirmam reconhecer a presença de facções criminosas ou milícias nos bairros onde vivem. Nas capitais, esse percentual alcança 55,9%, enquanto no interior chega a 34,1%, indicando que a presença desses grupos já extrapola os grandes centros urbanos.

Entre aqueles que convivem com organizações criminosas, 61,4% avaliam que esses grupos influenciam de forma moderada ou intensa as regras de convivência das comunidades. Os principais impactos relatados foram:

  • 81% têm medo de confrontos armados;
  • 74,9% evitam determinados locais;
  • 71,1% receiam o envolvimento de familiares com o tráfico;
  • 65,2% evitam circular em determinados horários;
  • 64,4% têm receio de sofrer represálias ao denunciar crimes.

O relatório sustenta que a presença dessas organizações criminosas estabelece uma forma de “governança criminal”, caracterizada pela imposição do silêncio e da autocensura em comunidades onde a atuação do Estado se mostra insuficiente. É nesse contexto que a Justiça Eleitoral do Rio de Janeiro estuda alterar o funcionamento de alguns locais de votação. Segundo informações divulgadas pelo órgão após as eleições municipais de 2024, as mudanças deverão ser acompanhadas da atualização do mapeamento eleitoral utilizado no último pleito e da implementação de ajustes operacionais ainda pendentes.

A medida também busca reduzir riscos à atuação de mesários e demais servidores da Justiça Eleitoral em áreas consideradas sensíveis do ponto de vista da segurança pública. Pelas regras adotadas, os novos locais de votação deverão permanecer, sempre que possível, em um raio máximo de 1,5 quilômetro da residência do eleitor.

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