Foto: Republicanos 10
Eleições 2030
O governador de São Paulo diz apoiar Flávio Bolsonaro. A pergunta é quanto. E a resposta está em 2030, não em outubro
Começa neste sábado, 29, a propaganda presidencial na televisão. Trinta e cinco dias de horário eleitoral, dois blocos diários, parte de uma conta que a Receita Federal estima em R$ 996 milhões de renúncia fiscal neste ano eleitoral. E, no fundo do palanque, um homem que precisa aparecer o suficiente para não ser chamado de traidor e o menos possível para não eleger o próprio adversário.
Esse homem é Tarcísio de Freitas.
Oficialmente, o governador de São Paulo declarou apoio incondicional a Flávio Bolsonaro. Disse que vai aos quatro cantos do estado, capital e interior. Descartou Caiado. Subiu no palanque, fez tudo o que um cabo eleitoral leal faz.
Extraoficialmente, dirigentes do Centrão e da centro-direita já leram a letra miúda: Tarcísio dosa. Faz o gesto, evita o excesso. Atravessa a eleição sem virar fiador regional da candidatura do PL. E não é paranoia de adversário, é a leitura de quem senta à mesa com ele.
A conta que um engenheiro faz
Tarcísio não é engenheiro de ocasião. É engenheiro civil formado pelo IME, o Instituto Militar de Engenharia, no Rio, a mais importante e mais reconhecida escola de engenharia do país, de prestígio internacional. Fundado em 1792, é o mais antigo curso de engenharia das Américas e o terceiro mais antigo do mundo, com um dos vestibulares mais duros do Brasil e uma lista de ex-alunos que atravessa a história nacional. Foi ali também que Tarcísio fez o mestrado em engenharia de transportes; depois veio o MBA em gerenciamento de projetos na FGV, o DNIT, o Programa de Parcerias de Investimentos e o Ministério da Infraestrutura.
E governa São Paulo cercado de gente que pensa igual. O secretariado foi montado com a promessa explícita de perfil técnico, engenheiros, economistas, gestores de projeto, com a área de infraestrutura, logística e meio ambiente reunida numa supersecretaria entregue a uma engenheira civil. É um governo que se apresenta ao eleitor pela obra entregue, pelo cronograma cumprido, pela concessão modelada. Um governo que planilha.
Quem passa a vida modelando cenário, prazo e taxa de retorno não abandona o método quando o ativo em disputa é a própria carreira. E a planilha de Tarcísio é constrangedoramente simples.
Cenário A: Flávio ganha. Flávio toma posse em janeiro de 2027, com 45 anos, o sobrenome mais poderoso da direita brasileira e o Palácio do Planalto na mão. Presidente que assume não larga. Em 2030, Flávio é candidato natural à reeleição, e ninguém disputa prévia com presidente da República. Tarcísio, então ex-governador, sem cargo, sem palanque e sem máquina, espera até 2034. Nessa altura já haverá outro Bolsonaro da vez, porque a família não trabalha com transição, trabalha com sucessão hereditária. Eduardo volta do exílio, Carlos manda no Twitter, hoje X.
Cenário B: Lula ganha. Lula toma posse aos 81 anos para um quarto mandato e sai em 2030 sem poder disputar de novo. E, este é o ponto, sem herdeiro. Na convenção do PT, em agosto, o presidente escorregou ao projetar Haddad como sucessor: falou em oito anos de governo de São Paulo antes da Presidência, uma conta que não fecha em nenhum calendário eleitoral. Além disso, Haddad perde em São Paulo. O PT chega a 2030 com Lula ausente, sem nome consolidado e com uma disputa interna que os próprios petistas admitem que será feia. Do outro lado do tabuleiro, Tarcísio termina o segundo mandato em São Paulo, impedido de nova reeleição estadual, com obra entregue, aprovação alta e o caminho natural para o Planalto, exatamente o que seus aliados já dizem em voz alta.
Não há empate. A planilha grita.
A prova dos autos
Se essa leitura fosse invenção de colunista, não teria produzido reação. Produziu.
Primeiro veio Carlos Bolsonaro, que acusou publicamente a existência de um movimento para anular Flávio como herdeiro político do pai, e todo mundo em Brasília entendeu que o recado tinha dois destinatários: Michelle e Tarcísio.
Depois veio a confissão institucional. Flávio Bolsonaro passou a defender o fim da reeleição presidencial, com direito a PEC, promessa de mandato único e Rogério Marinho como fiador da palavra. A leitura de seus próprios estrategistas, ditas com todas as letras à imprensa: Michelle, Tarcísio e Nikolas participam pouco da campanha porque têm projeto presidencial próprio, e a eventual permanência de Flávio até 2030 fecharia a porta dos três.
Ou seja: a campanha de Flávio já não discute se Tarcísio está segurando o passo. Discute como comprá-lo. E o preço oferecido é o único que interessa, a promessa de não disputar a reeleição.
Vale registrar a ironia. Jair Bolsonaro também defendeu o fim da reeleição em 2018. Chegou lá e tentou se reeleger.
O que está em jogo em outubro
O Datafolha de 21 de agosto colocou Lula em 39% e Flávio em 32% no primeiro turno. No segundo turno, 47% a 43%, empate técnico no limite da margem de erro. Uma eleição decidida por quatro pontos.
Quatro pontos é exatamente o tamanho do que Tarcísio pode entregar ou não entregar.
São Paulo tem 22% do eleitorado nacional. Tarcísio aparece com 50% a 53% das intenções de voto contra Haddad, com chance real de resolver a disputa estadual no primeiro turno. É um dos poucos políticos brasileiros hoje capazes de transferir voto de verdade. Se ele rodar o interior paulista com Flávio no palanque, empenhado, com a máquina de prefeitos e deputados atrás, a diferença em São Paulo pode virar milhões de votos e enterrar a vantagem de Lula no Nordeste.
Se ele apenas comparecer, sorrir, tirar a foto e voltar para as obras do metrô, não enterra nada.
E aqui está o detalhe cruel: a campanha de Flávio comemora a possibilidade de Tarcísio vencer no primeiro turno, porque isso deixaria Lula sem palanque estadual em São Paulo e liberaria o governador para a rua no segundo turno. Os aliados de Lula fazem o cálculo inverso e chegam ao mesmo lugar, Tarcísio reeleito é Tarcísio livre, e Tarcísio livre é Tarcísio calculando 2030. Os dois lados olham para o mesmo fato e enxergam o próprio desejo. Só um vai acertar.
O nome disso
Tarcísio jamais apoiará Lula. Não precisa. Numa disputa de quatro pontos, apoio insuficiente ao adversário de Lula tem exatamente o mesmo efeito aritmético, com a vantagem de não deixar digital.
É por isso que a esquerda observa esse abandono silencioso com um interesse que não disfarça, e é por isso que o clã Bolsonaro grita. Ninguém grita contra quem está ajudando.
Há riscos na estratégia, e Tarcísio sabe. Se Flávio perder por pouco, o bolsonarismo raiz terá um culpado com nome, sobrenome e endereço no Palácio dos Bandeirantes, e é esse mesmo eleitorado que ele precisará em 2030, quando não tiver mais o abrigo de uma eleição estadual para se esconder. A pecha de traidor, naquele campo, não prescreve. Foi ela, aliás, que destruiu candidaturas mais sólidas que a dele.
Mas há um risco maior do lado oposto: eleger, com o próprio esforço, o homem que vai ocupar por oito anos a cadeira que ele quer.
A partir deste sábado dá para acompanhar a decisão pela televisão. Não pelo que Tarcísio disser sobre Flávio, ele vai dizer tudo o que se espera. Pelo tempo que ele aparecer, pelo lugar em que aparecer e, principalmente, pelas semanas em que não aparecer.
O voto de Tarcísio já está definido. O que ainda está em disputa é o voto que Tarcísio carrega. E esse, ao contrário do dele, ainda pode ficar em casa.