Foto: Renato Pizzutto/Band
Eleições 2026
Escritor acumulou milhões de novos seguidores em poucos dias; dados apontam para combinação de impulsionamento e amplificação por influenciadores
O candidato à Presidência Augusto Cury (Avante) registrou um crescimento considerado atípico por especialistas digitais no número de seguidores no Instagram dias após o debate da Band, realizado no domingo (23). O estopim da aceleração começou no dia seguinte ao encontro entre os presidenciáveis e atingiu o ponto máximo na quinta-feira (27), quando o perfil do escritor ganhou aproximadamente 1,21 milhão de seguidores, conforme a série diária do Social Blade. O crescimento colocou Cury na segunda posição mundial em ganho de seguidores no Instagram entre domingo e quarta-feira, atrás da cantora Dolly Parton, que morreu em 25 de agosto.
Cury disputa a Presidência pelo Avante, legenda de menor expressão no cenário nacional, e aparece com 2% das intenções de voto na pesquisa Datafolha mencionada no material. O avanço considerado contraditório entre redes sociais e pesquisas de intenção de voto ocorre em meio à circulação de uma série de vídeos favoráveis à candidatura de Cury nas redes sociais. Publicações feitas por influenciadores de diferentes portes passaram a alcançar números expressivos de visualizações, em um movimento que gerou estranhamento de adversários e integrantes de outras campanhas presidenciais.
A evolução representa uma ruptura um tanto quanto abrupta em relação ao comportamento observado nas semanas anteriores. Entre 7 e 16 de agosto, a variação diária oscilou entre perda de 691 seguidores e ganho de 1.447, mantendo o perfil próximo dos 8,3 milhões. Anteriormente, entre 17 e 19 de agosto, houve uma aceleração moderada, com aumentos de 3.389, 7.842 e 11.715 seguidores, respectivamente.
O comportamento não permite atribuir automaticamente o salto ao desempenho de Cury no encontro da Band, já que o aumento expressivo começou um dia depois e atingiu o ápice quatro dias após o debate. Além disso, Augusto Cury protagonizou uma cena que chamou atenção de analistas e comentaristas políticos momentos antes do debate iniciar. O candidato do Avante, voltou atrás na decisão de não participar do primeiro debate presidencial de 2026 da Band e entrou nos estúdios da emissora, em São Paulo, minutos de desistir do debate.
Os instrumentos analisados pela coluna para acompanhar a audiência do perfil apresentam valores distintos, embora os dados se aproximem quando considerados de acordo com a data de captura. O Social Blade registrava 9.217.972 seguidores em 26 de agosto e 10.427.863 no dia seguinte, enquanto o Fanpage Karma, apontava 9.297.057 em relatório produzido em 27 de agosto, e obtido pela coluna. O Ativaweb DataLab indicava 10.608.152 no período de 22 a 28 de agosto, e o Social Blade chegou a 10.719.324 na sexta-feira.
“Ganhar mais de 2,27 milhões de seguidores em uma semana é um movimento excepcional, especialmente porque Augusto não partiu de uma base pequena. Ele já operava com milhões de seguidores e, ainda assim, conseguiu crescer mais de 27% em sete dias. Tecnicamente, esse é o ponto que torna o fenômeno mais relevante. Crescimentos percentuais elevados são mais comuns em perfis pequenos; quando acontecem em uma conta multimilionária, exigem aquisição de audiência em massa. Isso transforma Augusto em um caso de expansão de escala, e não apenas de crescimento proporcional“, descreveu o relatório da Ativaweb, sob a coordenação de Alek Maracajá.
Renan Santos, candidato do Missão e cofundador do MBL, publicou no X nesta sexta-feira, o apontamento de que o marqueteiro de Cury teria contratado influenciadores para defendê-lo e produzido um efeito positivo nas redes. “Sim, o marqueteiro do Cury contratou influencers pra defenderem ele e gerar um efeito positivo”, escreveu Renan Santos nas redes sociais.
Um levantamento feito pela coluna identificou diversos vídeos favoráveis ao candidato publicados no Instagram por criadores de conteúdo de diferentes alcances. Parte dessas publicações ultrapassou 1 milhão de visualizações, enquanto algumas superaram a marca de 10 milhões. Outro também superou a marca de 1 milhão de curtidas e associou diretamente uma declaração do candidato à justificativa para o apoio. A apuração também encontrou relatos de vídeos publicados por influenciadores que não mantinham produções aparente de política e passaram a declarar apoio a Cury.
Nos bastidores das campanhas, o alinhamento entre influenciadores no curto espaço de tempo gerou dúvidas, ao passo de cogitarem sobre a eventual participação de Pablo Marçal na estratégia digital da campanha, hipótese que permanece sem confirmação. O vice de Cury, Júlio Delgado, foi questionado recentemente sobre um possível apoio do empresário e não confirmou nem descartou a aproximação. O marqueteiro de Cury, Sérgio Lima, por sua vez, negou ao Estadão que Marçal participe da campanha. Também procurado por esta coluna, Marçal não se manifestou.
A coluna extraiu os dados da Biblioteca de Anúncios da Meta, que reúnem 81 anúncios ativos e inativos ligados ao perfil de Cury. Os números indicam um gasto estimado em material promocional, ativo e inativo, variou entre R$ 79,9 mil e R$ 99,5 mil desde maio, gerando entre 17 e 19 milhões de impressões nas redes. Atualmente, segundo dados disponibilizados pela Meta, 27 anúncios seguem ativos, cujo investimento varia entre R$9,5 mil e R$13 mil.
Recentemente, o marqueteiro de Cury negou à imprensa que a campanha tenha contratado ou remunerado influenciadores para promover o candidato. Segundo Lima, a equipe adotou uma estratégia de aproveitar a repercussão espontânea gerada por criadores de conteúdo, interagindo inicialmente com publicações de perfis menores na expectativa de que contas maiores reproduzissem o movimento. O marqueteiro também atribuiu parte da expansão do alcance da campanha à mobilização da base de leitores de Cury, que, segundo a equipe, já teria ultrapassado a marca de 48 milhões de livros vendidos.
A coluna procurou a campanha de Cury para uma versão oficial para esta coluna, mas não obteve retorno até a conclusão desta matéria.
No campo eleitoral, a regulamentação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) estabelece restrições à recomendação algorítmica de perfis de candidatos para usuários que não os seguem, com exceções relacionadas ao impulsionamento pago devidamente identificado. Essa regra, porém, não impede que terceiros publiquem espontaneamente conteúdos sobre um candidato e alcancem pessoas fora da sua base de seguidores.