O presidente Lula e o ministro da Fazenda, Dario Durigan - Foto: Evaristo Sa/AFP
00:00 A+ A- Ler o resumo da notícia Quase duas semanas após as eleições, investidores aguardam definição do novo ministro da Fazenda e plano para conter a dívida pública. Presidente Lula prioriza organizar o próximo governo, ajustar o Orçamento e consolidar o legado do seu quarto mandato. O descompasso entre mercado e governo envolve o […]
Passadas quase duas semanas das eleições, o mercado segue ansioso para saber quem comandará a Fazenda e qual será o plano para conter o crescimento da dívida. Já as prioridades que o presidente Lula sinaliza são outras: ele quer organizar o próximo governo, acomodar as despesas no Orçamento e definir o legado do quarto mandato.
Essa diferença de prioridades ajuda a explicar a distância entre a urgência dos investidores e o ritmo do presidente. Mas o desencontro vai além do calendário: envolve o tamanho do ajuste, quem pagará por ele e quanto risco o governo aceita correr.
Tanto o governo quanto o mercado compartilham do diagnóstico de que há problemas na dívida pública. A divergência está nas soluções e no custo político e social que o governo aceita assumir para colocá-las em prática.
O mercado espera medidas que estabilizem a dívida. Lula tende a procurar um caminho que preserve suas prioridades sociais, mesmo que isso signifique uma melhora fiscal menor e mais lenta.
Para os economistas mais preocupados com a trajetória da dívida, reforçar o cumprimento das metas não basta. É preciso enfrentar mecanismos que pressionam continuamente as despesas, como indexações e vinculações orçamentárias.
O receio é que o governo faça correções insuficientes e dependa de receitas extraordinárias para fechar as contas. Com menos crescimento, a arrecadação perde força, enquanto os gastos obrigatórios continuam avançando.
Há ainda o temor de uma reação tardia: o governo esperar o câmbio e os juros piorarem para agir, quando a correção já terá ficado mais difícil e socialmente mais cara.
O caminho mais provável é o de calibragens. Entre as possibilidades estão:
Há alguns caminhos que já podemos descartar: Lula não se mostra disposto a alterar a política de valorização do salário mínimo e a vinculação do mínimo às aposentadorias e benefícios previdenciários.
O governo tende a buscar um ajuste suficiente para evitar a perda de controle. O mercado questiona se esse suficiente para Lula será suficiente para a dívida.
A educação aparece como candidata – ainda sem confirmação – a principal marca do quarto mandato, com foco em ensino integral, formação e qualificação profissional.
O objetivo pode contribuir para a produtividade no longo prazo. A despesa, porém, chega antes do retorno econômico. A questão será como financiar essa prioridade e acomodá-la nas regras fiscais.
Para Lula, trata-se de construir um legado. Para o investidor, é também uma nova pressão sobre um Orçamento já apertado.
O nome importa, mas o respaldo presidencial e o programa importam mais. Um ministro com credibilidade terá pouco espaço se não puder executar as medidas que considera necessárias.
A aproximação do Centrão pode ampliar a capacidade de aprovação do governo. Isso não garante apoio a cortes: os mesmos partidos interessados em participar da gestão também querem preservar emendas e recursos para suas bases.
Além disso, Lula costuma ouvir diferentes propostas, demora a decidir e resiste a pressões apresentadas como ultimatos. A vitória eleitoral tende a reforçar sua confiança nesse método.
É nesse ponto que está o abismo: Lula pode considerar politicamente aceitável uma trajetória que o mercado julga economicamente perigosa. A escolha da Fazenda será o primeiro sinal. As decisões sobre o Orçamento e os ajustes no arcabouço fiscal mostrarão até onde o presidente pretende ir.