Brasil é campeão mundial… de endividamento Brasileiros recorrem ao novo Desenrola Brasil em meio ao aumento das dívidas e do custo de vida. Foto: Estadão FINANÇAS PESSOAIS

Brasil é campeão mundial… de endividamento

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De cada 100 reais que entram no orçamento das famílias, quase 30 reais vão para pagar dívidas. É o maior índice entre 20 países e o que mais cresceu nos últimos 6 anos segundo estudo da JGP

O brasileiro virou recordista mundial num ranking em que ninguém quer estar no topo: o do comprometimento da renda com o pagamento de dívidas. É o que mostra a mais recente Carta de Ações da JGP Asset Management, uma das maiores gestoras independentes do país. Segundo o estudo, é o maior índice de endividamento e o de pior qualidade.

Segundo o levantamento, o chamado Debt Service Ratio (DSR), a fatia da renda disponível das famílias que vai para juros e amortização, chegou a 29,2% em dezembro de 2025 no Brasil. Na prática, isso significa que, de cada R$ 100 que entram no bolso das famílias, cerca de R$ 30 já saem comprometidos só para honrar prestações e juros.

Como 15 bilhões de reais de salário viram juros num único mês

O número, sozinho, já seria expressivo. O que assusta é a comparação internacional: numa amostra de 20 países, o Brasil aparece em primeiro lugar, à frente de todas as economias desenvolvidas, incluindo Noruega, Austrália, Canadá e Estados Unidos.

Por que esse dado é tão grave?

A primeira pista de que há algo fora do lugar está em quem costuma liderar esse tipo de ranking. Os países que aparecem logo atrás do Brasil, Noruega, Austrália, Canadá, têm índices altos porque carregam mercados imobiliários robustos. Boa parte da renda que essas famílias destinam às dívidas é prestação de casa própria. Ou seja, um financiamento de longo prazo, com garantia de alta qualidade, que na maioria das vezes apenas substitui o aluguel.

No Brasil, a história é outra. A JGP destaca que mais de 90% do comprometimento de renda das famílias brasileiras vem de dívidas que não são imobiliárias. São dívidas com o cartão de crédito e crédito pessoal não-consignado, modalidades sem garantia e com juros que, na média dos produtos, beiram 40% ao ano. Ou seja: enquanto o endividamento dos países ricos é, em boa parte, financiamento de patrimônio, o nosso é consumo caro.

E ainda está subindo

O outro lado do dado é a velocidade. Em uma janela de seis anos (2019 a 2025), o comprometimento de renda no Brasil avançou +6,2 pontos percentuais, a maior alta de toda a amostra. Em segundo lugar ficou a Noruega, com +5,4 pontos, mas puxada justamente pelo ciclo de juros sobre financiamentos imobiliários.

E não há sinal de trégua: só nos últimos doze meses, o indicador brasileiro subiu mais 1,7 ponto percentual, novamente o maior avanço entre os países pesquisados, enquanto a maioria das outras economias recuou.

A média esconde uma realidade ainda mais dura

Os 29,2% são uma média, e a média alivia o retrato. Quando a JGP abre os números por faixa de endividamento, a desigualdade salta aos olhos: as famílias mais endividadas (3º quartil) destinam cerca de 48% da renda ao pagamento de dívidas, contra apenas 6% das menos endividadas (1º quartil).

Foi também esse grupo mais frágil, e geralmente de menor renda, o que viu o aperto crescer mais nos últimos anos. No mesmo período em que o comprometimento das famílias menos endividadas até recuou, o das mais endividadas avançou mais de 5 pontos percentuais.

O termômetro aparece nos cadastros de inadimplência: o número de negativados no Serasa não para de subir e já se aproxima de 83 milhões de brasileiros.

“Selic mais baixa vai resolver”? A JGP discorda

Um argumento comum é o de que um corte de juros resolveria o problema. A gestora reconhece que existe repasse, a cada 1 ponto de variação no CDI, a taxa média ao consumidor se move cerca de 1,2 ponto. Mas o ponto de partida é alto demais: mesmo um ciclo de 300 pontos-base de corte na Selic, aplicado sobre taxas que chegam a quase 40% ao ano, mexeria pouco no tamanho da parcela. O alívio, segundo a JGP, seria apenas parcial.

Outro contra-argumento, o de que a renda forte ajudaria a desalavancar, também não se sustenta nos dados. Com desemprego em torno de 5,5% (perto da mínima histórica) e massa salarial real crescendo cerca de 7%, o esperado seria ver as famílias reduzindo dívidas. Aconteceu o oposto: mesmo com renda em alta, o comprometimento subiu.

 O fantasma de Minsky

A carta da JGP se abre com o economista americano Hyman Minsky e sua tese de que “a estabilidade gera instabilidade”: quanto mais tempo um sistema financeiro passa sem sobressaltos, mais os agentes se acostumam ao risco e mais frágil ele fica por baixo do pano. A leitura da gestora é que o crédito ao consumidor brasileiro chegou a esse ponto, um “equilíbrio instável” que se mantém porque a rolagem das dívidas continua acontecendo, mas que pode ser testado a qualquer momento.

A própria casa reconhece que medidas de estímulo fiscal anunciadas pelo governo podem adiar o problema no curto prazo. Mas avalia que nenhuma delas, por si só, resolve o endividamento de forma estrutural.

O que muda para quem investe

A convicção já se traduziu em decisões de carteira. A JGP afirma ter reduzido de forma relevante sua exposição ao setor bancário, sobretudo a bancos com forte presença na população de menor renda, justamente a mais vulnerável a um eventual ciclo de inadimplência. Em troca, reforçou posições em setores que considera mais defensivos diante do tema: utilities, distribuição de combustíveis, mercado de capitais e construção civil ligada ao Minha Casa Minha Vida.

A mensagem de fundo é desconfortável: o Brasil construiu, nos últimos anos, um nível de endividamento das famílias que não tem paralelo claro entre economias comparáveis e ainda não foi testado por uma crise.

 

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