Como 15 bilhões de reais de salário viram juros num único mês Foto: Agência Brasil CONSIGNADO

Como 15 bilhões de reais de salário viram juros num único mês

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A boa ideia que virou engrenagem de abuso sistemático após agentes financeiros sequestrarem o consignado

R$ 15.000.000.000,00.

A cifra assusta, mas o processo é quase imperceptível. Foi quanto os trabalhadores brasileiros pagaram em juros de crédito consignado em apenas um mês, fevereiro (dados mais recentes do Banco Central). O dinheiro não chega às mãos de quem o produziu. O salário não circula no comércio do bairro, não aquece a economia, não vira consumo e muito menos investimento.

Ou seja, o salário  é capturado na origem. Descontado diretamente na folha. Um processo silencioso, automático e, por força de contrato, irrecorrível.

Os dados são do Banco Central do Brasil, organizados pelo economista Humberto Veiga a pedido do MyNews. O diagnóstico é seco e não aceita adjetivos: trata-se de uma transferência brutal de renda dura, direta e contínua das classes produtivas para o setor financeiro. É a transferência de renda mais cruel, avalia Veiga.  Nesse sentido, 5,1 bilhões de reais foram os juros pagos pelos aposentados do INSS, 6,8 bilhões de reais foram pagos pelos servidores públicos das três esferas, municipal, estadual e federal. Além disso, os juros pagos pelos trabalhadores do setor privado que foi de 3,66 bilhões.

Não se trata de um evento isolado, mas de um fluxo. Mês após mês, como um imposto invisível sobre o salário do trabalhador.

A escalada da dívida

O consignado está no centro do debate com o escândalo do Banco Master. Não que o Master tenha inventado o modelo. Nasceu com o BMG antes mesmo de ter uma lei específica. Mas foi o Master o arquiteto que o levou às raias da loucura, para sermos educados. A gênese da aberração escalada pelo Master nasceu na Bahia. O Credcesta, um cartão de benefícios consignado, operado até então pelo governo baiano, foi vendido para Augusto Lima. Posteriormente ele se associa a Daniel Vorcaro, no Master. Os servidores da Bahia foram as primeiras vítimas da operação montada por Vorcaro e Lima.  

O retrato do aprisionamento

O estoque total da dívida revela o tamanho do cerco:

  • R$ 381 bilhões nas mãos de servidores.

  • R$ 282 bilhões entre aposentados.

  • R$ 92 bilhões no setor privado.

Quem tem menos garantias, paga mais. No setor privado, a taxa de juros média aproxima-se aos 60% ao ano. Para os servidores públicos a taxa média é de 23,84% ao ano. Para pensionistas do INSS a taxa média é de 24,15% ao ano.

Uma boa ideia que foi esticada e distorcida

Nada disso estava no desenho original de 2003, quando o governo Lula lançou o consignado. A promessa era de crédito barato, risco baixo e acesso ampliado. Na origem, portanto, ele tinha a nobre função de tirar trabalhadores das mãos de agiotas. Era uma boa ideia. Entretanto, foi sendo “esticada”, lei após lei, margem após margem, produto após produto. Até ocupar quase metade da renda de milhões de brasileiros, no melhor caso ou 100% no caso de servidores e aposentados de regimes próprios.

Em 2025, o sistema dá mais um passo. A Lei 15.179 cria o “Crédito do Trabalhador”. Digital, instantâneo e sem a intermediação do empregador. Simultaneamente com o FGTS na jogada. Mais velocidade, menos fricção… e mais facilidade para o erro.

E ainda há o que as planilhas não mostram. Os R$ 15 bilhões mensais são o piso, não o teto. Ficam de fora modalidades como o cartão-benefício, onde a dívida parece não ter fim. Ela, portanto, gira, se alimenta e se perpetua.

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O deputado Flavio Serafini fala em abuso sistemático, venda agressiva e consentimento duvidoso. Ou seja, o crédito, muitas vezes, não é contratado, é empurrado.

Todavia, o efeito final não cabe em estatísticas. Ele é psicológico. É social. O salário encolhe antes de existir, a liberdade de escolha desaparece e o futuro é devorado pelo presente. O consignado deixou de ser uma ferramenta de auxílio para se tornar uma engrenagem que mói renda em silêncio. Deixou de ser uma ótima ideia para se tornar uma alavanca poderosa do chamado crédito predatório. Ele destroi o orçamento das famílias e alimenta o lucro de bancos que usam e abusam desta prática.

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Mas não são todos os bancos que estão nesta seara. Há bancos que tratam o produto seriamente. Além disso, alguns sequer o tem na prateleira, segundo a professora da USP Maria Paula Bertran. Ela tem estudado este mercado há alguns anos e testemunhou como a criação do cartão benefício distorceu o propósito inicial do consignado. Maria Paula revela como esse produto financeiro, “irmão ruim” do consignado clássico, funciona na prática.

“O Credcesta é um cartão de crédito de benefício criado não pelo governo federal e sim pelos estados e municípios, o pioneiro deles, a Bahia”, diz ela no MyNews Entrevista. E nos Estados e município, a regulamentação é ainda pior do que a do governo federal. O Master assaltou as folhas de pagamento dos servidores de Estados e municípios por todo o país. O banco foi liquidado. Contudo, a engrenagem que montou continua a pleno vapor. Ademais atrai novos atores para este mercado.