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JUDICIÁRIO
Defendo o valor acadêmico do “Gilmarpalooza”, mas reconheço: a sociedade brasileira não suporta mais a falta de distância entre o público e o privado
A audiência do Café do MyNews não brinca em serviço. Recentemente, ao defender a relevância do Fórum de Lisboa, a resposta veio a galope. Fui contestada e confrontada com argumentos pesados. A Rosane, por exemplo, foi cirúrgica: disse que eu estava “normalizando o Gilmarpalooza”. Tomei um pau da audiência, mas arrisco a manter minha tese.
O problema não é o evento. O fórum, que chega à sua 14ª edição agora em junho de 2026, consolidou-se como um marco na agenda internacional. Ele é produzido pelo IDP, o instituto de ensino e pesquisa do qual o ministro Gilmar Mendes é sócio-fundador, em parceria com a FGV e a Universidade de Lisboa. O MyNews, assim como vários outros veículos de imprensa brasileiros e internacionais, acompanha o encontro presencialmente porque há ali uma concentração de temas e fontes que o jornalismo não pode ignorar.
De piada a palco do futuro: o Fórum de Lisboa mostrou serviço
O evento ganhou vida própria e reconhecimento internacional. No princípio, o nome de Gilmar Mendes talvez tenha sido o grande chamariz. Hoje, aposto que o fórum é relevante independentemente de ele ser ministro do STF. O conteúdo técnico é indiscutível.
Por isso, reforço o que o Evandro Éboli, diretor de jornalismo do MyNews e meu parceiro de jornada no Café, pontuou com precisão: o problema não é o fórum, é o ministro (veja no vídeo abaixo). Parece claro que Gilmar Mendes precisa escolher entre o IDP e o STF. O conflito surge quando as cadeiras se misturam e contaminam a percepção pública de um trabalho acadêmico que, por si só, é excelente.
Essa falta de distância explica por que o Judiciário brasileiro está sob um escrutínio sem precedentes. A sociedade não aceita mais notícias como o contrato de R$ 129 milhões da mulher do ministro Alexandre de Moraes ou as caronas em jatos executivos, ambos revelados no escândalo do Master. Entre penduricalhos e privilégios, a “casta judiciária” é questionada e isso fere a democracia. Esses temas, inclusive, dariam um painel urgente no Fórum de Lisboa.
A jornalista Christiana Martins, do jornal português Expresso, notou em entrevista recente com Gilmar Mendes que, no Brasil, juízes da Suprema Corte são chamados de “ministros”. É uma peculiaridade nossa. Nos EUA ou no Reino Unido, por exemplo, juízes de tribunais superiores são chamados de Justices. A nomenclatura brasileira parece reforçar uma aura política. A “casta judiciária” está sendo questionada e isso é péssimo para a nossa democracia. Em suma, enquanto os ministros não entenderem que o escrutínio da audiência é legítimo e que as fronteiras entre o público e o privado precisam ser nítidas, continuaremos alimentando crises de confiança.