Foto: Jacobin Brasil
A arrogância acadêmica, o preconceito linguístico e a recusa em ouvir as periferias travam o diálogo político com a maior massa trabalhadora do país
A incapacidade da esquerda em dialogar com o eleitorado evangélico deriva de um profundo bloqueio cultural e discursivo. Ao tratar termos centrais como “amor”, “vida” e “família” com deboche ou desconfiança acadêmica, os militantes fecham os canais de comunicação com a periferia. Essa postura elitista gera uma barreira imediata nas igrejas. O discurso progressista rejeita o vocabulário popular e afasta quem busca apenas acolhimento e valorização espiritual.
O pragmatismo político exige humildade para ouvir o cidadão comum sem impor cartilhas prontas ou palavras de ordem. Líderes intelectuais insistem em abordar a comunidade evangélica a partir de estereótipos, ignorando a realidade vivida nos templos. Em vez de compreender as demandas reais do rebanho, a militância prioriza julgamentos morais. Esse comportamento perpetua a perseguição e empurra o fiel para o abraço das correntes conservadoras.
Mesmo distante do campo progressista, a massa evangélica também demonstra cansaço com a contaminação política dentro das igrejas. A transformação do culto em comício partidário gerou profunda frustração entre os fiéis que buscam paz e convívio produtivo. Contudo, a recusa em aceitar essa diversidade interna impede que a oposição ofereça uma alternativa viável. A fixação em rótulos generalistas anula a complexidade teológica e social do segmento.
Superar a polarização exige reconhecer que a fé protestante não representa uma ameaça automática ao regime democrático brasileiro. Historicamente, o protestantismo contribuiu para a conquista das liberdades individuais e para a defesa da pluralidade religiosa no país. Reduzir a religião a um bloco monolítico reacionário fortalece os grupos mais radicais e enfraquece o debate público. O respeito à autonomia dos fiéis é o único caminho para a reconstrução institucional.