A violência política contra Raquel Lyra é cruel, e é crime RECIFE

A violência política contra Raquel Lyra é cruel, e é crime

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Alguém imprimiu, pagou e colou. Os cartazes contra Raquel Lyra atacam o luto dela, não o governo dela, e explicam por que as mulheres são 53% do eleitorado e apenas 17% das eleitas

Alguém acordou, tomou café e decidiu que ia fazer aquilo.
Não foi um impulso. Não foi um comentário grosseiro digitado às três da manhã por um anônimo qualquer. Alguém escolheu a fotografia. Alguém escreveu a frase. Alguém diagramou, mandou para a gráfica, pagou a conta. Alguém pegou os cartazes, atravessou o Bairro do Recife com um balde de cola na mão e colou, um a um, nos muros da cidade, a cidade onde vivem os filhos de Raquel Lyra.
Em um deles, o rosto da governadora e a acusação: ela matou o marido para ganhar a eleição. Em outro, Raquel aparece ao lado de Elize Matsunaga e Flordelis, sob o rótulo “matadoras de maridos”.
Fernando Lucena morreu em 2 de outubro de 2022. Tinha 44 anos. Passou mal em casa, no dia do primeiro turno da eleição que faria de sua mulher a primeira governadora de Pernambuco. Um infarto.
Eu conheci o Fernando. Eram o grande amor da vida um do outro, dessas histórias que a gente vê de fora e acha bonito.
Lembro de como recebi a notícia. Vi pelas redes, não acreditei, e liguei para um amigo que trabalhava com ela para confirmar. Quando ele confirmou, eu me sentei. Fiquei triste de um jeito que ainda me lembro. Pernambuco inteiro se comoveu naquele dia. O estado que estava elegendo uma mulher estava, ao mesmo tempo, enterrando o marido dela. Havia ali, em todo mundo, um resto de decência que fez o país inteiro baixar a voz.
Quatro anos depois, esse resto de decência foi para o muro. Literalmente.

Isso tem nome

O que aconteceu no Recife não é “baixaria de campanha”. Não é jogo duro. Não é o preço de estar na vida pública. Tem nome, tem tipo penal e tem pena.
Chama-se violência política de gênero, é crime desde a Lei 14.192, de 2021, que incluiu no Código Eleitoral o artigo 326-B: assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidata ou detentora de mandato, usando o menosprezo à condição de mulher para atrapalhar sua campanha. Pena de um a quatro anos, mais multa. A lei acaba de completar cinco anos. Em cinco anos, o Ministério Público Eleitoral acompanha mais de 400 casos no país e já levou quase uma centena à Justiça.
Raquel registrou boletim de ocorrência na Polícia Federal e na Polícia Civil. Sua coligação vai acionar o Ministério Público Eleitoral. É o caminho certo, e é preciso que a investigação chegue não apenas em quem colou, mas em quem imprimiu, em quem pagou e em quem encomendou. Cartaz não se cola sozinho. Alguém financiou aquilo, e esse alguém tem nome.

O padrão

Repare no padrão, porque ele é sempre o mesmo.
Quando o alvo é um homem, o ataque vai no patrimônio, no contrato, no passado profissional. Quando o alvo é uma mulher, o ataque vai no corpo, na família, na intimidade, e, neste caso, no luto. Não se discutiu uma obra, um orçamento, uma decisão de governo. Discutiu-se o marido morto. A mensagem não é “ela governa mal”. A mensagem é “ela não deveria estar aqui”.
E funciona. As mulheres são 53% do eleitorado brasileiro. Entre 2018 e 2024, foram 34% das candidaturas e 17% das eleitas. O Brasil ocupa a 139ª posição entre 184 países no ranking de mulheres no parlamento. Não é falta de vontade, nem falta de competência. É o custo. É o cálculo silencioso que milhares de mulheres capazes fazem antes de assinar uma ficha de filiação: vale a pena expor minha mãe, meus filhos, minha dor a isso?
Cada cartaz colado num muro do Recife é uma resposta escrita para essas mulheres. E a resposta é: não venha.

O que fica

Raquel Lyra é governadora e candidata à reeleição. Vai ser cobrada, criticada, contestada, deve ser. É assim que funciona, e é bom que funcione.
Mas há uma linha, e ela é simples de enxergar: crítica se faz sobre o que a pessoa fez; crueldade se faz sobre o que a pessoa perdeu.
“Respeitem quem não está mais aqui”, ela pediu, num vídeo, a caminho da agenda de campanha na Mata Sul.
É pouco o que ela pediu. É o mínimo. E o fato de precisar pedir diz mais sobre a nossa eleição do que qualquer pesquisa que vai sair nas próximas semanas.

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