O Brasil não é pária do mundo, como querem alguns “patriotas” Imagem ChatGpt

O Brasil não é pária do mundo, como querem alguns “patriotas”

Muito se tem dito, e de forma absolutamente irresponsável, que o Brasil seria um país irrelevante no cenário internacional, uma espécie de pária diplomático, indigno de atenção ou respeito.

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  • O Brasil, com a sétima maior população e vastos recursos naturais, mantém liderança regional no Sul Global.
  • Sua diplomacia, iniciada no século XIX e herdada da tradição portuguesa, é considerada uma das mais profissionais do mundo.
  • O país atua ativamente em organismos internacionais, conferências ambientais e mediações de conflitos, oferecendo neutralidade e respeito ao direito internacional.
  • Essa postura independente gera pressões e interferências dos Estados Unidos, que desconfiam da possibilidade de o Brasil se afirmar como potência sem alinhar‑se a Washington.

Tal narrativa, que se tornou frequente sobretudo nos discursos de certos setores autodeclarados “patrióticos”, ignora completamente a trajetória diplomática e econômica do país ao longo dos séculos. O Brasil nunca foi um indigente diplomático, tampouco uma economia desimportante. Com a sétima maior população do planeta, vastos recursos naturais, liderança regional consolidada e uma das diplomacias mais profissionais do mundo, o Brasil ocupa um lugar central nas articulações do Sul Global — e incomoda justamente por isso.

A tradição diplomática brasileira remonta ao século XIX e foi erigida sobre bases sólidas, com figuras de grande porte intelectual, e se destacou por sua sofisticação, herdeira da também notável diplomacia portuguesa, há de se reconhecer. A atuação brasileira em organismos internacionais, nas conferências ambientais e nas mediações de conflitos evidenciam um país que, mesmo sem dispor de armas nucleares, sempre buscou protagonismo com altivez e racionalidade. Ao contrário das potências beligerantes, o Brasil oferece justamente o que falta nas mesas de negociação: neutralidade e compromisso com a legalidade internacional.

É por isso que o país se torna alvo, não raro, de pressões e interferências externas —oriundas dos próprios Estados Unidos que, como vemos estarrecidos, continua a manejar o seu proverbial “porrete”. A ideia de que o Brasil pode se afirmar como potência sem se alinhar automática e incondicionalmente a Washington é vista com desconfiança por setores do poder norte-americano. O fortalecimento dos BRICS, a defesa de uma ordem econômica multipolar e a recusa em participar de guerras por procuração são incômodas para um projeto de hegemonia em crise. As interferências recentes, algumas veladas e outras declaradas, demonstram o quanto os EUA se sentem ameaçados por um Brasil soberano e assertivo em sua inserção internacional.

É sintomático que, em contextos de afirmação internacional do Brasil — como em momentos de liderança no G20 ou protagonismo ambiental — surjam tentativas de desqualificação interna do país por figuras que se dizem patriotas, mas que, paradoxalmente, operam como agentes da deslegitimação nacional. Defender a soberania brasileira não é repetir slogans nacionalistas vazios; é reconhecer que a projeção externa do Brasil incomoda justamente por sua capacidade de articulação, negociação e liderança em fóruns multilaterais, especialmente quando não alinha seus interesses aos de potências tradicionais.

Portanto, é preciso dizer com todas as letras: o Brasil não é pária, e tampouco precisa aceitar ser tratado como tal. Temos capital diplomático, econômico e cultural para exercer papel destacado no mundo contemporâneo. O que falta, por vezes, é que as elites políticas e intelectuais reconheçam esse lugar e saibam defendê-lo com firmeza. Reduzir o Brasil a um satélite periférico é não apenas uma visão míope, mas um gesto perigoso de submissão. Em tempos de redefinição geopolítica global, afirmar a soberania e o protagonismo brasileiro é uma necessidade histórica — e um imperativo ético.

 

*Daniel Carvalho de Paula é Doutor em História e professor do curso de Ciências Econômicas da Universidade Presbiteriana Mackenzie

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