O eleitor está cansado da polarização, mas ainda não vê a terceira via Foto: Tribunal Superior Eleitoral

O eleitor está cansado da polarização, mas ainda não vê a terceira via

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O eleitor brasileiro manifesta cansaço com a polarização entre Lula e Bolsonaro na política brasileira, mas a fadiga não é suficiente para que ele encontre na terceira via um candidato que o faça sair dos polos. Essa é uma das conclusões de estudos feitos pela Fatto Inteligência Política, coordenados pelo cientista político Arthur Santos Lira, […]

O eleitor brasileiro manifesta cansaço com a polarização entre Lula e Bolsonaro na política brasileira, mas a fadiga não é suficiente para que ele encontre na terceira via um candidato que o faça sair dos polos.

Essa é uma das conclusões de estudos feitos pela Fatto Inteligência Política, coordenados pelo cientista político Arthur Santos Lira, a partir de uma pesquisa qualitativa realizada pela Cenário Inteligência, contratada pela Fatto.

A pesquisa foi conduzida por Adriano Oliveira, doutor em Ciência Política e fundador da Cenário Inteligência, e Maria Eduarda G. Oliveira, diretora de Pesquisa da Cenário Inteligência.

Entre os dias 21 e 23 de julho de 2026, foram realizadas 30 entrevistas em profundidade com moradores de 22 localidades do município de Santa Cruz do Capibaribe (PE). O estudo utilizou o Método Qualitativo SEP — Sentimento, Estratégia e Previsão — e a Técnica Microespelho, que trata determinados municípios como laboratórios eleitorais.

A proposta não é afirmar que a cidade represente estatisticamente o Brasil, mas investigar em profundidade sentimentos, medos, rejeições e expectativas que podem ajudar a formular hipóteses sobre movimentos também presentes no cenário nacional.

Santa Cruz foi escolhida por apresentar um padrão de forte competitividade e polarização semelhante ao observado no plano nacional. A cidade foi a única de Pernambuco em que Jair Bolsonaro foi o mais votado tanto em 2018 quanto em 2022, diferenciando-se do perfil predominantemente lulista de muitos municípios do interior do Nordeste.

E por quê as pesquisas qualitativas são importantes? Porque as pesquisas quantitativas, aquelas que trazem as intenções de voto em uma amostra representativa, captam os números que temos visto, de Lula com vantagem numérica em relação a Flávio no primeiro turno e com empate técnico no segundo. Mas não captam sentimentos e desejos do eleitor pendular que irá decidir as eleições. Por isso nós, da Fatto, fomos atrás de um estudo feito em profundidade.

Durante as entrevistas, a Cenário Inteligência captou entre os entrevistados um desejo relevante por uma alternativa que rompa com a disputa entre Lula e o clã Bolsonaro.

Esse espaço, porém, ainda não está concentrado em um candidato capaz de transformar esse cansaço e desejo de renovação em intenção de voto. Parte dos entrevistados procura um nome novo, com preparo, capacidade administrativa e menor rejeição, mas encontra dificuldades para identificar uma candidatura que reúna essas características e seja percebida como eleitoralmente viável.

O desejo por uma terceira alternativa nasce, em primeiro lugar, da rejeição à polarização. Entre os entrevistados que não preferem Lula nem Flávio Bolsonaro, aparecem os sentimentos de cansaço, frustração, descrença e busca por renovação.

Lula é criticado pela idade, pelo desempenho atual e pela percepção de que poderia entregar mais. Flávio, por sua vez, é visto por parte desse grupo como despreparado ou excessivamente dependente da imagem do pai. O problema é que o desejo de mudança precisa atravessar diferentes etapas antes de se transformar em voto.

O eleitor precisa conhecer o candidato, compreender suas ideias, reconhecer capacidade de governar, confiar em sua trajetória e acreditar que ele possui condições reais de disputar a eleição. Nas entrevistas, essa sequência ainda não se completa para nenhum dos nomes alternativos apresentados.

O baixo conhecimento é a primeira barreira, já que Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos até surgem pontualmente nas falas dos entrevistados, mas a grande maioria não os conhece. Além disso, mesmo quando o eleitor deseja um candidato de fora da polarização, permanece a dúvida sobre sua viabilidade.

Uma candidatura pode ser considerada interessante, mas perder espaço diante da percepção de que apenas Lula ou Flávio possuem força para chegar ao segundo turno e derrotar o campo adversário. Assim, o medo de “desperdiçar” o voto ou facilitar a vitória da opção mais rejeitada pode levar o eleitor de volta aos mesmos polos dos quais gostaria de escapar. É esse mecanismo que ajuda a explicar por que o desejo por uma terceira via ainda não rompe a estrutura da disputa.

O grande número de respostas “nenhum dos dois” durante as entrevistas revela desconforto real com Lula e com o bolsonarismo, mas não ainda há um candidato capaz de concentrar o sentimento de renovação. Enquanto isso, Lula permanece favorecido pela combinação entre reconhecimento, viabilidade e menor rejeição que Flávio.

Outro ponto que a pesquisa detectou é que a divisão eleitoral entre Lula e o clã Bolsonaro não corresponde necessariamente à forma como os entrevistados definem a própria identidade política. Muitos rejeitam se apresentar como lulistas, bolsonaristas, de esquerda ou de direita, mesmo quando demonstram afinidade, rejeição ou predisposição de voto por um dos lados.

Essa distância entre identidade declarada e escolha concreta ajuda a compreender que o eleitor pode não se reconhecer nos polos, mas ainda considerá-los as opções mais viáveis quando chega o momento de decidir. A recusa às identidades políticas, portanto, não significa necessariamente neutralidade eleitoral.

Um dos achados mais claros das entrevistas é o distanciamento em relação às identidades políticas formais. A resposta “nenhum” aparece repetidamente quando os participantes são perguntados se são lulistas ou bolsonaristas, se pertencem à esquerda, à direita ou ao centro e se admiram algum partido.

Entre os entrevistados, também são recorrentes manifestações de rejeição ao partidarismo e desconfiança em relação à política. No entanto, quando explicam suas visões, os participantes associam a esquerda à proteção dos trabalhadores, dos mais pobres e das minorias e a direita ao trabalho, ao empreendedorismo, ao conservadorismo e à menor dependência do Estado.

A pesquisa mostra que parte do eleitorado possui posições políticas sem necessariamente organizá-las dentro das classificações tradicionais. A mesma diferença aparece entre identidade e voto, já que alguns participantes recusam simultaneamente as definições de lulista e bolsonarista, mas, quando confrontados com as alternativas concretas, retornam a Lula ou a Flávio Bolsonaro.

A pesquisa sugere, assim, que a polarização eleitoral de 2026 pode ser menos ideológica do que aparenta. Os polos continuam fortes não necessariamente porque a maioria dos entrevistados se considera parte deles, mas porque concentram os candidatos conhecidos, as rejeições e a percepção de viabilidade.

Para as campanhas, isso significa que a disputa por esse eleitor tende a depender menos da tentativa de enquadrá-lo em um campo e mais da demonstração de atributos concretos. Nas entrevistas, aparecem como critérios de escolha propostas, histórico administrativo, capacidade de trabalho e atributos pessoais.

A distância em relação às identidades políticas não elimina a força de Lula e do bolsonarismo, apenas mostra que parte dessa força se sustenta mais em comparação, memória, rejeição e percepção de viabilidade.

As declarações reproduzidas na sequência foram extraídas diretamente das respostas registradas na pesquisa e ajudam a evidenciar a distância entre o desejo por uma alternativa e o conhecimento sobre os candidatos disponíveis. Por se tratar de uma pesquisa qualitativa, essas falas não devem ser lidas como frequências estatísticas, mas como expressões dos sentimentos, impressões e critérios mobilizados pelos entrevistados diante da possibilidade de uma terceira candidatura.

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