Arquivos História - Canal MyNews – Jornalismo Independente https://canalmynews.com.br/tag/historia/ Nosso papel como veículo de jornalismo é ampliar o debate, dar contexto e informação de qualidade para você tomar sempre a melhor decisão. MyNews, jornalismo independente. Tue, 23 Jul 2024 22:28:12 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.7.2 Um Domingão com o Faustão que poucos conhecem: ele merece um novo coração https://canalmynews.com.br/balaio-do-kotscho/um-domingao-com-o-faustao/ Tue, 22 Aug 2023 17:47:28 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=39023 Bem que os velhos amigos, que ele nunca abandonou, poderiam agora fazer uma corrente de oração para o velho Faustão.

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Na volta do Balaio ao ar, na semana passada, agora aqui no MyNews, pedi aos leitores sugestões de pauta para tratar aqui. Não aguentava mais escrever sobre os mesmos assuntos todos os dias.Uma das ideias que me deram é falar de velhas reportagens produzidas ao longo das últimas seis décadas. Ao ver o amigo Faustão no vídeo em que ele pede orações para conseguir um novo coração, agora ainda mais magro, abatido, quase suplicando uma segunda chance, me lembrei de um domingo que passei com ele, em 2001, durante a gravação do seu programa na Globo, que lá ficou mais de 30 anos no ar.

Fazia parte de uma série intermitente de reportagens que escrevi na Folha sobre “Um dia na vida de…”, que podiam ser pessoas famosas ou anônimas, do presidente da República a um professor, artista ou médico, mostrando o cotidiano delas em suas atividades.

Mais longevo apresentador da TV brasileira, depois de Silvio Santos, é claro, Faustão vivia uma crise de audiência e relutou em me dar uma entrevista, algo que detestava (ele sempre preservou muito sua vida pessoal), mas aceitou que o acompanhasse na viagem ao Projac, o centro de produções da Globo em Jacarepaguá, de onde transmitia seu programa. Até me deu carona no jatinho fretado e no helicóptero.

Faustão tem a mesma idade que eu (75 anos), o mesmo tempo de carreira (quase 60) e começamos juntos na grande imprensa no velho Estadão da rua Major Quedinho, no centro de São Paulo, quando ele fazia graça de graça para os colegas de redação.

Nunca fomos amigos próximos, mas nos cruzamos muitas vezes em empregos, eventos, na famosa pizza que oferecia na sua casa no Morumbi e em viagens, e temos muitos amigos em comum. Foram eles que me contaram, já faz tempo, um lado da vida do Faustão que poucos conhecem: o cara que ajuda muitos amigos (geralmente, do futebol, dos tempos em que era repórter esportivo, e da televisão) que enfrentam dificuldades financeiras.

Sei que muita gente com recursos também faz isso, mas no caso dele tem um detalhe que mostra bem seu caráter: muitas vezes, nem o próprio beneficiado deve saber quem lhe prestou ajuda, para que não se sinta humilhado. Para fazer isso anonimamente, ele conta com assessores e, ao ficar sabendo de alguém necessitado, os mobiliza e manda entregar os recursos necessários.

Não contei isso na reportagem “A liturgia de Fausto Silva”, publicada na Ilustrada da Folha do dia 19 de junho de 2001, quando muitos de vocês leitores ainda não haviam nascido, porque ele me pediu. Ameaçava até romper relações.

Mas hoje, que esse grande coração do Faustão está doente, onde sempre cabe mais um, precisando de um transplante urgente, achei que devia contar esse segredo. Vamos rezar por ele, para que o amigo possa continuar ajudando os outros, mas ninguém deve saber disso…

“Vocês só veem as pingas que eu tomo, mas não os tombos que eu levo”, costumava brincar Faustão nos áureos tempos, quando tinha o maior faturamento da TV brasileira, com um detalhe: Faustão é um jornalista/artista que nunca bebeu e não comia a pizza que oferecia na sua casa para não engordar.

(*)

Abaixo, alguns trechos da reportagem da Folha, que pode ser encontrada, na integra, no arquivo digital do jornal no Google:

 

“Domingo, seis e meia da tarde. Está terminando o programa da Xuxa. A 25 quilômetros do centro do Rio de Janeiro, em Jacarepaguá, 300 homens estão mobilizados no front do Projac, a central de produção da Rede Globo, para mais uma batalha da guerra dos domingos na TV.

Vai entrar no ar o programa número 639 do “Domingão” do Faustão, que estreou em março de 1989 com a missão de ganhar do até então imbatível Silvio Santos e ultimamente vem sendo batido pelo programa do Gugu em São Paulo, embora continue liderando no resto do país.

O mais tranquilo é o próprio Fausto Corrêa Silva, 51, que não se abala com o corre-corre de diretores, produtores e técnicos, nem com os boatos que nas últimas semanas colocaram o seu programa no centro de uma inédita crise de audiência enfrentada pela maior rede de TV do país.

Aconteça o que acontecer, Faustão está decidido a cumprir até o fim seu contrato com a Globo, que só termina em março de 2003. “Sou profissional e cumpro meus compromissos. Não estou brincando de trabalhar. Tenho filha pequena para criar (Lara, 3 anos) e uma pilha de carnês para pagar”.

Na pracinha da cidade cenográfica de “A Padroeira”, a nova novela das seis que estreou ontem, ele passeia entre vacas e cavalos, conversa com figurantes e só pergunta quanto tempo falta para o programa começar. O resto ele improvisa.

Domingo é dia de alegria”, resume, lembrando mais um velho pároco do interior, preparando-se para a missa semanal, do que um general em dificuldades no campo de batalha.

Podem variar o sermão e a freguesia de fiéis, mas a liturgia é a mesma há mais de 12 anos, e ele não pretende muda-la. Quando a direção tentou fazê-lo, não deu certo. Até hoje, Faustão está traumatizado com as duas derrapadas seguidas do programa, quando tentaram enfrentar Gugu no campo dele, no início dessa guerra (os célebres episódios do “sushi erótico” e do Latininho).

Nos últimos quatro anos, o programa já trocou de diretor cinco vezes, mas o apresentador resiste ao processo de popularização a qualquer preço da televisão brasileira.

“Dramalhão e baixaria eu não faço”, diz ele, indiferente ao estresse da equipe na sala do “switcher”, que coloca o programa no ar com um olho nos monitores e outro nos números do Ibope. Faustão faz questão de não ser informado sobre as oscilações do eletrocardiograma da audiência durante o programa. “Se eu não me divirto, como é que posso divertir os outros?”, justifica.

(*)

Nos últimos tempos, Faustão já não vinha se divertindo no programa diário, depois de trocar a Globo e o Domingão pela Bandeirantes, que só ficou um ano no ar. Nem a audiência se divertia. Foi uma ousadia que não deu certo. Para mim, esse pode ter sido um dos problemas do coração dele. “Mais do que o trabalho, o que mata a pessoa é a tristeza, é não fazer o que você gosta e ser obrigado a fazer o que você não gosta”, já ensinava o grande cardiologista Adib Jatene, que morreu do coração, trabalhando.

Bem que os velhos amigos, que ele nunca abandonou, poderiam agora fazer uma corrente de oração para o velho Faustão conseguir logo um coração novo. Rezar não custa nada.

Vida que segue.

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As Avós da Praça de Maio são o melhor da Argentina https://canalmynews.com.br/coluna-da-sylvia/as-avos-da-praca-de-maio-sao-o-melhor-da-argentina/ Thu, 03 Aug 2023 22:31:05 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=38716 As Avós criaram, em 1977, uma associação apenas para buscar os netos, ou seja, os filhos desses desaparecidos que teriam nascido em cativeiro

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Poucas coisas são tão gratificantes, na Argentina, quanto o encontro de um neto por parte das Avós da Praça de Maio. Paralelamente à luta das Mães da Praça de Maio, que até hoje buscam os filhos desaparecidos durante a ditadura militar (1976-1983), as Avós criaram, em 1977, uma associação apenas para buscar os netos, ou seja, os filhos desses desaparecidos que teriam nascido em cativeiro. O cálculo é de que 500 bebês vieram ao mundo nos centros clandestinos de detenção.

Enquanto a maioria de seus pais e mães foram assassinados pela repressão, tornou-se uma prática comum que as crianças fossem poupadas. Porém, em vez de serem entregues a familiares, os militares se apropriaram desses bebês, entregando-os, com outra identidade, a amigos e parentes de militares, imaginando que, deste modo, jamais conheceriam sua origem.

Se no início a associação contava com dezenas de avós, estas vêm perdendo para o tempo seus principais membros fundadores. Uma delas ainda resiste, se trata de Estela de Carlotto. Depois de recuperar mais de 100 netos, ela, enfim, encontrou o seu, Ignacio de Carlotto, que havia sido entregue a uma família no campo, que o criou e que ele considerava seus pais até os 30 anos.
Carlotto ainda é das mais ativas, mas muitas das Avós Fundadoras estão envelhecendo e afastando-se da luta, ou mesmo morrendo. Mesmo que essa geração a partir de algum momento não possa mais fazer as buscas, elas certamente continuarão a ser feitas. Aos poucos, vêm assumindo a associação netos recuperados e militantes de direitos humanos.

Foi a pedido das Avós que se construiu um banco de dados genético único no mundo, que é capaz de identificar uma pessoa sem ter o material dos pais, mas sim das avós ou mesmo de primos.
Qualquer pessoa que tenha nascido nos anos 1970 e 1980 e tenha alguma desconfiança de ser um neto apropriado, tem o direito de fazer o teste. Em caso de o resultado dar positivo, as Avós proporcionam a divulgação, não sem antes realizar um trabalho com a ajuda de advogados e psicólogos que preparam a nova documentação da pessoa e a orientam a lidar com suas emoções nesta nova situação.

Mais uma alegria desse tipo ocorreu na semana passada, quando anunciaram a recuperação do neto 133, filho de Cristina Navajas e Julio Santucho. Ele é neto de uma das fundadoras da Associação, Nélida Navajas, que morreu em 2012 e não pôde conhecer o neto perdido. Na ocasião do anúncio, Mario Santucho, o irmão do neto encontrado afirmou: “Meu primeiro pensamento foi e sempre vai ser, para minha mãe e para a minha avó, porque elas nunca deixaram de lutar para nos encontrar e não estaríamos aqui sem elas.”

Hoje o trabalho das Avós e das Mães é reconhecido dentro e fora da Argentina, suas fundadoras andaram pelo mundo dando palestras e recebendo prêmios. Mas não foi assim sempre. No início de suas buscas, Mães e Avós compartilhavam um preconceito da elite argentina, eram chamadas de “Loucas da Praça de Maio” e, durante todo o tempo que durou a ditadura, não tinham presença ou voz nos meios de comunicação argentinos.

A história do neto 133 é como a de tantos outros. Tendo sido apropriado por um integrante das Forças de Segurança casado com uma enfermeira em 24 de marzo de 1977, afirmou que desde jovem teve dúvidas sobre sua identidade. Foi criado como filho único, com uma irmã vinte anos mais velha que já não vivia com a família. Foi ela que, um dia, contou ao caçula que ele não era filho biológico daquele casal. O rapaz, então, confrontou o pai adotivo duas vezes, mas nas duas recebeu a resposta de que ele, sim, era seu pai biológico. Inconformado com a resposta, o rapaz entrou, então, em contato com as Avós, fez teste de DNA, que foi comparado com a base de dados genéticos e teve sua identidade confirmada em 26 de julho último.

É normal que os netos encontrados não saiam à luz logo de cara, há todo um trabalho de reconstrução da história verdadeira, contatos com os pais adotivos e até a emissão de novos documentos, do DNI (o RG argentino) ao passaporte. A mãe morreu no centro clandestino em que deu à luz ao neto 133, o pai, escapou para o exílio. No dia do anúncio, seu pai, Julio Santucho, tinha lágrimas nos olhos. “É uma vitória da democracia e uma derrota da ditadura, porque eles quiseram roubar nossos filhos e os estamos recuperando”.

Ao entregar essas crianças para adoção, os militares não pareciam desconfiar de que essa mentira teria pernas curtas. Muita luta, muita pesquisa e investigação, fazem reviver uma geração inteira que tinha tido sua identidade roubada. É dos poucos assuntos que unem a sociedade argentina. A cada descoberta de um neto, o país chora de emoção. E aqueles que maquinaram a ditadura recebem essa dura e merecida resposta da história.

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Sapucaí reúne historiografia e delírio no segundo dia de desfiles https://canalmynews.com.br/mais/sapucai-reune-historiografia-e-delirio-no-segundo-dia-de-desfiles/ Mon, 20 Feb 2023 13:44:25 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=36031 Os desfiles começam com a curiosa chegada dos búfalos à Ilha de Marajó, contada pela Paraíso do Tuiuti

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A segunda noite de desfiles da Marquês de Sapucaí, nesta segunda-feira (20), trará histórias reais e imaginadas nos enredos das escolas de samba do Grupo Especial, com fábulas delirantes, historiografia e casos difíceis de acreditar. Os desfiles começam com a curiosa chegada dos búfalos à Ilha de Marajó, contada pela Paraíso do Tuiuti, que entra na avenida às 22h.

A jornada dos animais contada pela escola começa na Índia e está relacionada ao comércio de especiarias para o Ocidente. Um navio com búfalos e temperos viajava do país asiático para a Guiana Francesa, mas afundou bem diante da costa brasileira, onde os bovinos conseguiram chegar como náufragos e se tornaram símbolo cultural. Um dos carnavalescos da Tuiuti, João Vitor Araújo jura que foi assim.

“A tripulação humana morreu, mas os bichos conseguiram nadar até a Ilha de Marajó. Se você me perguntar como, não sei”, confessa. “Só sabemos que chegaram à costa, se adaptaram ao clima e vivem felizes até hoje. E hoje a Ilha de Marajó tem uma das maiores manadas do mundo”.

A partir dessa saga inacreditável, a escola descreve as belezas naturais da ilha e também a arte e o folclore marajoaras, famosos internacionalmente. O enredo homenageia ainda o compositor Mestre Damasceno e o carimbó.

Centenária
O desfile de 2023 vai marcar o centenário da Portela, a maior campeã da história do carnaval do Rio de Janeiro. A escola azul e branco de Madureira vai aproveitar a efeméride para visitar sua própria história, trazendo de volta cinco figuras marcantes, que no carnaval recebem o título de baluartes: o sambista histórico Paulo da Portela; a porta-bandeira Tia Dodô; o bicheiro e patrono Natal da Portela, e os cantores e compositores David Corrêa e Monarco.

Paulo da Portela será interpretado na avenida pelo ator Ícaro Silva, que considerou o convite uma grande honra pela importância histórica do sambista.

“Ajudou a tirar o samba da marginalidade, inventou o samba-enredo e trouxe para a nossa cultura popular o desfile de carnaval como a gente conhece hoje. Então é uma grande honraria não só pra mim como amante da escola, mas como artista e preto, e brasileiro, representar esse homem que tanto fez pela nossa população e pela tradição da cultura afro-brasileira”, disse o ator.

Também azul e branca, a Vila Isabel vai falar das festas religiosas de diversas crenças, destacando não apenas a espiritualidade, mas a diversão que elas promovem. Estão no enredo festas pagãs da antiguidade, festas dos padroeiros religiosos, festas populares como o São João e celebrações com origem indígena como a de Parintins. O carnaval, é claro, não fica de fora e será o grand finale do desfile.

O carnavalesco Paulo Barros lembra que o carnaval também é uma festa com origem religiosa e adianta que o desfile será uma grande miscelânea de celebrações. “O enredo está baseado na alegria e na diversão. Depois de um longo tempo com a pandemia, que nos deixou muito tristes, a gente estudava um enredo para a Vila e só pensava em alegria e diversão”.

A literatura de cordel é a grande inspiração da Imperatriz Leopoldinense para imaginar a chegada de Lampião à vida após a morte. Céu? Inferno? A Imperatriz vai contar que o cangaceiro não conseguiu abrigo em nenhum dos dois e voltou à Terra.

A história fantástica é uma adaptação de cordéis de José Pacheco, Guaipuan Vieira, Rodolfo Coelho Cavalcante e Moreira de Acopiara. O carnavalesco Leandro Vieira é o responsável pela pesquisa e desenvolvimento e imaginou um Lampião arruaceiro demais para ser aceito pelo Tinhoso, e pecador demais para que São Pedro lhe abrisse as portas do céu. Nem a intercessão de Padre Ciço resolve, e Virgulino termina se espalhando por todo o Brasil, na arte de Luiz Gonzaga e Mestre Vitalino.

“Lampião é esse personagem mítico do folclore brasileiro que em diversas áreas foi abraçado como uma figura típica da brasilidade. Então, ao se debruçar, nesses cordéis, a gente procura encontrar um destino delirante para essa figura tão contraditória e fascinante da cultura brasileira”, explica o carnavalesco Leandro Vieira. “Meu interesse não é saber se ele é herói ou vilão, não é fazer um julgamento do Lampião nem apresentar sua biografia”.

Depois da jornada de Lampião após a morte, a Beija-Flor vai entrar na avenida falando de eventos históricos reais, mas nem sempre lembrados. A escola de Nilópolis vai contar a “verdadeira independência do Brasil”, em 2 de julho de 1823, quando soldados brasileiros derrotaram tropas portuguesas que ainda estavam na Bahia, mesmo após o grito de Dom Pedro I às margens do Ipiranga.

A sinopse do enredo, intitulada Convocação, propõe a revisão do que é considerado o marco histórico da Independência, o 7 de setembro. “O triunfo popular de 1823 é muito mais sobre nós e sobre nossas disputas. O Dia da Independência que queremos é comemorado ao som dos batuques de caboclo, cantando que até o sol é brasileiro. Precisamos festejar os marcos populares em festas que tenham cheiro, cor e sabor de brasilidade, reconhecendo o protagonismo feminino e afro-ameríndio. Somos aqueles e aquelas que, excluídos dos espaços de poder, ousam ter esperança no amanhã. O Brasil precisa reconhecer os muitos Brasis e suas verdadeiras batalhas”.

A partir dessa mudança, a escola propõe uma releitura de toda a história brasileira, em um desfile que é também um “ato cívico pela construção de um Brasil livre, soberano e verdadeiramente independente. Fazemos festa porque esta é, também, manifestação política e na festa carnavalesca gritamos que outros Brasis são possíveis”, convoca a Beija-Flor.

Os desfiles do grupo especial terminam com uma homenagem da Viradouro a uma personagem pouco conhecida da história brasileira, Rosa Maria Egipcíaca, uma mulher africana nascida no Benin e escravizada no Brasil, onde viveu uma vida marcada também por visões, profecias e fé.

A escola de Niterói vai contar como a autora de Sagrada teologia do amor de Deus luz brilhante das almas peregrinas, livro do qual pouco foi preservado, causou a ira da Igreja Católica ao narrar experiências extrasensoriais com Jesus Cristo e mesclar suas raízes africanas aos ritos cristãos. Esse incômodo terminou em perseguição, e Rosa Maria foi presa e levada pela Inquisição para Lisboa, onde permaneceu até sua morte, em 1771.

Confira o horário em que cada desfile começa:

Paraíso do Tuiutí: 22h

Portela: 23h

Vila Isabel: 0h

Imperatriz: 1h

Beija-Flor: 2h

Viradouro: 3h

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54 anos esta noite https://canalmynews.com.br/maria-aparecida-de-aquino/54-anos-esta-noite/ Mon, 19 Dec 2022 21:06:00 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=34975 "Ditadura foi terrível e negativo para o Brasil sob todos os aspectos"

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O título deste artigo é uma referência ao livro do brilhante jornalista Paulo Francis: 30 anos esta noite – o que vi e vivi (SP, Cia. das Letras, 1994) – relançado em 2004 – e não ao filme de 1963, de mesmo nome, de Louis Malle. Nele, Francis rememora suas impressões e vivências do Golpe de Estado de 1964 que mergulhou o Brasil na escuridão, da qual ainda tentamos nos livrar e com a qual ainda temos contas a acertar.

Mas, a referência estanca aí. A noite a que me refiro não é a de 30 para 31 de março de 1964, antessala do Golpe de Estado e, sim, a noite de 12 para 13 de dezembro de 1968 que completou, há poucos dias, longos 54 anos. No dia 12 de dezembro de 1968, em votação histórica, a Câmara dos Deputados Federais, negou o pedido de licença para processar o Deputado Federal Márcio Moreira Alves, incluindo nesses votos 94 de parlamentares da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), o partido do governo. Este foi estrepitosamente derrotado: 216 votos contrários, 141 favoráveis e 12 abstenções.

No dia 2 de setembro de 1968, Márcio Moreira Alves discursou na Câmara dos Deputados, fazendo referência ao 7 de setembro que se aproximava. Pediu aos pais dos estudantes que não deixassem seus filhos participarem dos desfiles convocados para a comemoração da data e que as moças não dançassem com cadetes e não namorassem os jovens oficiais. Poucas pessoas presentes e pequena repercussão. Mas, os militares consideraram o discurso uma afronta. Em 12 de setembro começou o processo de cassação de Márcio Moreira Alves no STF e, dias depois, os ministros militares pediram que fosse processado com base na Lei de Segurança Nacional. Como Márcio era deputado e tinha imunidade parlamentar houve a necessidade de licença da Câmara para processá-lo o que foi negado na histórica votação de 12 de dezembro de 1968.

Mas, a vingança não tardaria. No dia seguinte, 13 de dezembro de 1968, o governo lança novo Ato Institucional 2 , o AI-5. Elaborado por Luís Antônio da Gama e Silva, Ministro da Justiça – vejam só!, o antigo reitor da Universidade de São Paulo/USP – do governo do General Artur da Costa e Silva, o segundo dos ditadores militares, pós-1964. O Ministro Gama e Silva anunciou o AI-5 pelo rádio lendo seus 12 artigos que consolidavam definitivamente a Ditadura com: fechamento do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas Estaduais e das Câmaras Municipais; intervenção federal nos Estados e Municípios; cassação de deputados, senadores e vereadores; suspensão dos direitos políticos dos cidadãos; decretação do Estado de Sítio sem consulta ao Legislativo; proibição do habeas corpus para os considerados crimes políticos.

Como se pode ver, a noite de 12 para 13 de dezembro de 1968 foi tenebrosa e precursora de tragédias anunciadas.

Eis que, transcorridos 54 anos, temos uma também tenebrosa noite de 12 para 13 de dezembro de 2022. Criminosos, em Brasília, incendiaram carros e ônibus, tentaram invadir a sede da Polícia Federal na Capital do país, depredaram prédios, almejaram invadir o Hotel onde se hospeda o presidente legitimamente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, dentre outras barbaridades. E isto, sem que houvesse qualquer reação policial contra os atos criminosos de vandalismo. O Governador do Distrito Federal, bem como o Ministro da Justiça – aquele que foi convocado pelo Presidente em exercício para dialogar com o, não menos criminoso, ex-deputado federal, Roberto Jefferson – nada fizeram. Nenhuma prisão contra os criminosos foi sequer anunciada. E eles prosseguiram, livremente, barbarizando a cidade. São os mesmos que se encontram acampados no Palácio da Alvorada; em frente ao Quartel General do Exército e, também, em frente aos quartéis.

Qualquer cidadão comum sabe que os quartéis e, obviamente, o Quartel General do Exército, constituem áreas militares das quais não se pode aproximar. Deve-se, por segurança, manter um distanciamento desses prédios. Como explicar os “acampamentos” e as invasões? A única resposta possível é a conivência policial de todas as escalas. E, também, governamental. Quem já participou de movimentos sociais conhece muito bem a rígida repressão policial, muitas vezes expressa com violência a manifestações de cunho pacífico, em luta por direitos.

O futuro Ministro, Flávio Dino, foi taxativo – e é necessário que o seja – observando que, se os criminosos não forem penalizados nestes poucos dias finais do governo atual, o serão no próximo governo. Só assim, romperemos com uma tradição nociva e tipicamente brasileira, a da conciliação, em nome do “ordeiro e cordial” povo brasileiro. Se não se julgam crimes, não se pode virar a página. E a história continuará sendo escrita e vivida com violência política tratada como banalidade.

Assim foi em relação à Ditadura Militar Brasileira (1964-1985). A Anistia foi feita para torturados e torturadores. Os torturados haviam sido penalizados de todas as formas, incluindo prisões, mortes e desaparecimentos. E os torturadores continuaram impunes. Isto é responsável pela construção de uma “memória positiva” da Ditadura Militar. O que faz com que muitos bradem: queremos a volta dos militares! No tempo dos militares é que era bom! Vade retro! Foi terrível e negativo para o Brasil sob todos os aspectos. Como se não bastasse, quando houve a oportunidade de rever essa excrescência, na Comissão Nacional da Verdade (CNV), nada foi feito e prevaleceu a anistia de ambas as partes.

Se não fizermos a necessária revisão da Lei da Anistia de 1979 o Brasil não poderá virar a página e continuaremos sob a égide dos militares. O atual governo é o melhor exemplo disso com a ocupação inédita de cargos e funções por militares de carreira. O lugar de militares é na caserna e na defesa dos interesses e da salvaguarda da população brasileira, o que não se tem visto.

Começa um novo período que, espero, tenha a coragem de virar aquela página nefasta da História brasileira: a Ditadura Militar.

*Profa. Dra. do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Mestrado e Doutorado pela FFLCH/USP e Pós-doutorado pela UFSCar. Autora de Censura, Imprensa, Estado Autoritário (1968-1978). Bauru, EDUSC, 1999 e Bons Tempos, Hein? SP, Todas as Musas, 2022. Especialista em estudos sobre a Ditadura Militar Brasileira (1964-1985).

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Saiba quem foi Giordano Bruno https://canalmynews.com.br/maria-aparecida-de-aquino/giordano-bruno/ Mon, 14 Nov 2022 22:14:43 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=34648 "Nossa indignação deve ser a mesma que a de Giordano Bruno frente à traição de que foi vítima"

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Giordano Bruno (1548-1600), frade dominicano italiano, foi um filósofo, teólogo, matemático, poeta e escritor. Nasceu em Nola (Nápoles) e morreu em Roma, na fogueira, condenado pela Inquisição do Santo Ofício, julgado por heresia. Acreditava que as estrelas eram sóis que possuiriam seus próprios planetas, nos quais também poderia haver vida. Para ele, o universo era infinito, portanto, não se justificava a ideia da existência de um centro.

Pensando em Giordano Bruno recordo um belíssimo filme que leva seu nome, datado de 1973, dirigido pelo laureado cineasta Giuliano Montaldo (1930 – …). Foi assistente de direção de Gillo
Pontecorvo em A Batalha de Argel (1961) e dirigiu, dentre outros, Os Intocáveis (1968) e Sacco e Vanzetti (1971), ambos de Montaldo. Giordano Bruno faz parte da fase brilhante do cinema italiano entre os anos de 1960 e 1970.

O filme foi estrelado pelo magnífico ator Gian Maria Volonté, que vive o frade Giordano Bruno. Volonté (1933-1994) participou de grandes filmes como: Investigação sobre um cidadão acima de
qualquer suspeita (Elio Petri – 1970), A classe operária vai ao paraíso (Elio Petri – 1971) e o já citado Sacco e Vanzetti. Além de ator foi um ativista político pró-comunismo e, durante muitos anos, foi casado com a conhecida atriz italiana Carla Gravina. Dentre muitos prêmios, em 1987, ganhou o Urso de Prata pela atuação no filme O caso Moro, também conhecido no Brasil. Morreu de ataque cardíaco, filmando na Grécia, sob a direção de Theo Angelopoulos (Alexandre, o Grande – 1980; Paisagem na Neblina -1988).

Na época assisti a muitos desses filmes, hoje clássicos, embora em 1973, tenha ocorrido a retirada de cartaz de muitos filmes pela censura férrea da Ditadura Militar brasileira, como A classe
operária vai ao paraíso e Sacco e Vanzetti.

Quando assisti Giordano Bruno me impactou, particularmente, uma frase do filósofo: Que ingenuidade, pedir a quem tem poder para mudar o poder. Como Bruno constava da lista de
procurados pela Inquisição havia se refugiado em Frankfurt. Entretanto, atende ao pedido de Giovanni Mocenigo de uma ilustre família veneziana para acompanhá-lo a pretexto de lhe ensinar a arte de desenvolver a memória. Veneza era conhecida por proteger foragidos e Bruno acede ao convite. Logo percebe que Mocenigo tinha péssimas intenções de utilizar as artes de Giordano para obter mais poder.

Assim, o filósofo se nega a ensiná-lo. Manifesta o desejo de retornar a Frankfurt e o nobre o denunciou à Inquisição. Foi preso e acusado de heresia. Teve a oportunidade de negar – abjurar – mas não o fez sendo condenado à morte, pronunciando a célebre frase aos seus algozes: Talvez sintam maior temor ao pronunciar esta sentença do que eu a ouvi-la.

Esta longa introdução leva às nossas preocupações atuais. Parafraseando Bruno, não podemos ser ingênuos em relação ao presente. Por alguns momentos acreditou-se que o presidente de plantão, escondido no seu silêncio, após a derrota nas urnas, fosse, finalmente, reconhecê-la. Não só não o fez como seus comandados espalharam a sublevação pelo país, buscando concretizar um golpe longamente acalentado.

Nossa indignação deve ser a mesma que a de Giordano Bruno frente à traição de que foi vítima: Que ingenuidade, pedir a quem tem poder para mudar o poder. Como imaginar grandeza em quem
não a tem? O presidente e seu entorno são seres humanos – se é que se pode denominá-los assim – diminutos, em termos de caráter. Portanto, deles só se pode acreditar na promoção da iniquidade de que são dotados.

Entretanto, sua derrota foi inequívoca. A nós compete garantir a consagração da democracia da vitória nas urnas e a posse do governo, legitimamente, eleito pela vontade popular.

*Maria Aparecida de Aquino é Profa. Dra. do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Tem mestrado e doutorado pela FFLCH/USP; Pós-doutorado pela UFSCar. É especialista em estudos sobre a Ditadura Militar brasileira (1964-1985).

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Auschwitz, 77 anos depois https://canalmynews.com.br/mais/auschwitz-77-anos-depois/ Mon, 31 Jan 2022 21:20:34 +0000 https://canalmynews.com.br/?p=23334 Relembrar as grandes atrocidades cometidas pelo ser humano contra a própria humanidade pode nos ajudar a nunca mais repeti-las

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A libertação pelos soviéticos do maior e mais terrível – se é que é possível mensurar nesse nível de atrocidades cometidas – dos campos de concentração nazistas, Auschwitz, ocorreu há 77 anos, em 27 de janeiro de 1945.

Quem já visitou algum campo de concentração nazista se assusta com alguns aspectos: a preservação magnífica e sua semelhança com tudo o que vemos nos filmes que se dedicam à temática da II Guerra Mundial (1939-1945).

Auschwitz funcionou entre 1940, quando foi construído e, 1945, quando os soviéticos libertaram os últimos prisioneiros (aproximadamente 7.000). Durante sua vigência, cerca de 1,3 milhão de pessoas foram deportadas para seus campos e, destas, foram exterminadas 1,1 milhão. Desses, por volta de 960.000 eram judeus.

Localiza-se ao sul da Polônia, na região da Cracóvia. É formado por três grandes unidades (Auschwitz I, II e III), além de outros subcampos, sendo que Auschwitz-Birkenau (Auschwitz II) era voltado principalmente para o extermínio.

A maioria dos prisioneiros de Auschwitz era composta de judeus, mas, havia, também, ciganos, alemães que haviam cometido infrações recorrentes e prisioneiros políticos poloneses, originários de outros campos.

O primeiro de seus comandantes (1940 a 1943) foi Rudolf Hess. Foi condenado à prisão perpétua nos famosos julgamentos de Nuremberg. Havia ajudado a redigir as execráveis “Leis de Nuremberg”, em 1935, que retiravam direitos dos judeus e são consideradas um dos marcos iniciais das atrocidades nazistas. Morreu, aos 93 anos, na prisão de Spandau, para onde foi transferido após o julgamento.

O escritor Primo Levi foi prisioneiro de Auschwitz. Escreveu: É isto um homem? (RJ, Rocco, 1988), narrando suas desventuras, mas, principalmente, refletindo sobre as dificuldades de adaptação à vida após a experiência limítrofe dos campos nazistas. Suas palavras nos forçam a pensar – além dos campos – sobre o que resta aos sobreviventes. Sua reflexão, extremamente dolorosa, ultrapassa o senso comum estabelecido historicamente acerca dos campos de concentração e demais experiências nefastas vivenciadas pelo homem, ao longo do tempo.

A mim, fica a indagação, muito debatida, mas ainda válida: como o ser humano é capaz de tais atrocidades?  Senão, vejamos: quando os soviéticos se aproximavam (e os nazistas sabiam antecipadamente de sua chegada) as guardas especiais alemãs, as SS, tentando uma evacuação do campo, fizeram dezenas de milhares de prisioneiros caminhar (o que ficou conhecido como “Marcha da Morte”) por muitos quilômetros. Atiravam nos que não conseguiam prosseguir. Aproximadamente 15.000 morreram na “Marcha”.

Outro questionamento que fica diz respeito à alegada ignorância dos referidos campos de concentração no transcorrer da II Guerra. Quando os campos, ao final da guerra, foram definitivamente desnudados para o mundo, boa parte dos povos protestaram ignorância sobre sua existência e, obviamente, sobre as condições vivenciadas pelos prisioneiros dentro deles.

Um exemplo chocante é o da França. Parcialmente ocupada por nazistas a partir de 1940, teve cerca de 75.000 judeus enviados para campos de concentração. Deles, somente cerca de 2.500 retornaram. E os franceses persistiram na constatação de ignorância acerca do que havia acontecido. Como você pode ignorar as pessoas ao seu redor desaparecendo? A escolha da conveniência assume muitas facetas. Essa, cruel, é uma delas.

Aos que presenciaram atrocidades cometidas pelo homem sempre resta a memória (às vezes é só o que resta). Os nazistas sabiam da sua importância, por isso, tentaram destruir o produto de sua ignomínia. Auschwitz, também, foi alvo de incêndio de documentação do ocorrido nos campos.

Aliás, é de se questionar: por que a maior parte dos regimes autoritários faz questão de preservar a documentação de seus horrores? Acreditam que durarão para a eternidade e que nunca serão derrubados? A mim parece que lhes falta o básico conhecimento da história da humanidade.

Sua ignorância histórica é nosso passaporte para o conhecimento e uma de nossas garantias da luta contra o esquecimento e, consequente aprendizado com o passado. Nunca mais! Para não esquecer e não repetir!


Quem é Maria Aparecida de Aquino?

Maria Aparecida de Aquino é professora de História Contemporânea, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP). Especialista nos estudos do regime militar brasileiro (1964-1985).

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Após acordo, França devolverá artefatos saqueados durante colonização africana https://canalmynews.com.br/mais/franca-devolvera-artefatos-saqueados-durante-colonizacao-africana/ Wed, 27 Oct 2021 17:29:59 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/franca-devolvera-artefatos-saqueados-durante-colonizacao-africana/ Será a primeira vez que a França reconduzirá objetos artísticos à África. Dos 5 mil artigos solicitados pela Nigéria, o governo francês retornará 26

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Autoridades do Benin, país da África Ocidental, firmaram um acordo com o governo da França para que a nação europeia devolva 26 artefatos históricos saqueados pelo exército francês durante os anos de colonização do continente africano, no século XIX.

Conhecidas como “Os Tesouros de Abomey”, as peças compostas por altares, ícones e estátuas foram roubadas em 1892, e estavam em exibição no museu parisiense Quai Branly há 18 anos. Com a decisão, a exibição da coleção será prontamente encerrada, e os itens seguirão para Benin, onde um museu está sendo construído na cidade de Abomey com auxílio do governo francês.

'Bronzes de Benin' em exibição no Museu Britânico de Londres.
‘Bronzes de Benin’ em exibição no Museu Britânico de Londres. Foto: Reprodução (Redes)

A universidade Jesus College, de Cambridge, também anunciou que devolverá uma escultura de um galo, retirada do Reino de Benin por tropas britânicas em 1897 – a obra faz parte do acervo de peças comemorativas criadas pelos povos Edo, grupo étnico da Nigéria descendente dos fundadores do Império Benin.

“Esta é a coisa certa a fazer por respeito à herança e história única deste artefato”, disse Sonita Alleyne, professora da instituição à Reuters. O governo nigeriano agradeceu o ato “pioneiro” e afirmou que está aguardando ansiosamente o retorno de outros artigos por parte de novas entidades.

Historiadores e especialistas em arte concluem que cerca de 90% do patrimônio cultural da África está na Europa. Como parâmetro, apenas o Museu do Quai Branly, abriga cerca de 70.000 objetos provenientes de terras africanas.

A entrega dos itens será realizada nesta quarta-feira (27) em uma cerimônia especial dirigida pela presidente da França Emmanuel Macron. As 26 peças fazem parte de uma lista composta por outras 5.000 solicitadas pela Nigéria.

Será a primeira vez que o país europeu devolverá objetos artísticos à África. Macron indicou que a iniciativa de devolução temporária ou permanente da herança africana teve início em 2017.

  • Peça do acervo ‘Os Tesouros de Abomey’. Foto: Reprodução (Domínio Público)

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Conheça as histórias de Angola e Moçambique, dois dos principais países lusófonos https://canalmynews.com.br/vip/conheca-as-historias-de-angola-e-mocambique-dois-dos-principais-paises-lusofonos/ Fri, 04 Jun 2021 20:51:26 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/conheca-as-historias-de-angola-e-mocambique-dois-dos-principais-paises-lusofonos/ Países são tema de terceiro episódio da série do MyNews Traduz sobre África

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O que está por trás da desigualdade na Nigéria? https://canalmynews.com.br/vip/o-que-esta-por-tras-da-desigualdade-na-nigeria/ Tue, 01 Jun 2021 12:08:17 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/o-que-esta-por-tras-da-desigualdade-na-nigeria/ Destaque no continente africano, Nigéria ainda preserva desigualdade como um traço marcante

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Enquanto discutimos cloroquina https://canalmynews.com.br/creomar-de-souza/enquanto-discutimos-cloroquina/ Thu, 27 May 2021 12:46:02 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/enquanto-discutimos-cloroquina/ No âmbito do combate ao maior desafio do século, as desigualdades entre as nações evidenciaram crises que ultrapassam ideologias e esbarram na ignorância

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A covid-19 é o maior desafio deste século. Um desafio a um só tempo político, econômico, social e sanitário. Seu potencial paralisante do ponto de vista econômico e a capacidade de sobrecarregar sistemas de saúde por onde passe criou cenas que se perpetuarão em livros de história por longo período. E para além das questões já levantadas, a pandemia revelou também a capacidade e a resiliência de algumas sociedades em comparação com outras.

Ato Nacional #600ContraFome em frente ao Congresso Nacional.
Ato Nacional #600ContraFome em frente ao Congresso Nacional. Foto: Comunicação MST.

Um olhar panorâmico sobre a realidade permite vislumbrar de maneira mais efetiva esse quadro. De um lado, temos os países com a capacidade de produzir insumos médicos, tais como, equipamentos de proteção, seringas, agulhas e as tão desejadas vacinas. De outro, estão aqueles que se tornaram em alguma medida reféns daqueles polos de produção. Ao lançarmos uma observação mais atenta sobre este último grupo, é possível identificar algumas soluções bem-sucedidas que poderiam ser replicadas.

Inicialmente, vale mencionar o caso de sucesso representado por Israel.  A sua proatividade em dialogar e negociar com um grande laboratório permitiu colocar em marcha uma estratégia de rápido processo de imunização de sua sociedade. Em paralelo, não se pode deixar de mencionar os EUA. A administração Biden criou as condições para avançar rapidamente na imunização de sua população, superando obstáculos importantes de ordem logística.

Esses casos de sucesso, porém, contrastam com as dificuldades e fracassos de outros países e regiões inteiras. Na América Latina, temos infelizmente alguns exemplos negativos em que se misturam dois elementos importantes: ausência de evidências para a construção de políticas públicas e a transformação de uma crise sanitária grave em objeto de confrontação política. Brasil e México, cada um em sua esquina ideológica, são casos ilustrativos de como não implementar políticas efetivas de enfrentamento da pandemia.

A situação de carência, confusão e desorganização em alguns países têm oferecido terreno para uma disputa por parte de atores internacionais interessados em aumentar poder e influência. Moscou, Pequim e Washington, cada um a seu modo, tem tentado explorar as vantagens estratégicas de produzirem os insumos médicos e vacinas necessários para a contenção da pandemia. Após assegurar os seus próprios suprimentos, essas potência passam a fazer uso da diplomacia da vacina para ganhar influência, no que alguns observadores chamam de “geopolítica da vacina”.

O Brasil, que tem todo o potencial para ser um ator relevante em matéria de vacinas, infelizmente ficou para trás. Virou um peão no tabuleiro geopolítico global, à mercê de outros países, tanto por falta de investimento em pesquisa internamente, quanto por estratégia equivocada de antagonizar parceiros estratégicos gratuitamente. Some-se a isso o negacionismo e o descompromisso de certos tomadores de decisão com políticas pública baseadas em evidências e temos a receita para um país dependente e sem rumo.

O curto-circuito decisório que marca a gestão brasileira da pandemia tende a cobrar uma fatura alta da sociedade. Para além do irreparável dano causado pela morte de quase meio milhão de brasileiros, falas desarrazoadas, posturas dúbias ou comportamentos isolacionistas tendem a tornar o país presa fácil em uma série de agendas estrategicamente importantes para a retomada da economia em algum momento do futuro.

A tempestade perfeita que assola o país inclui uma crise de imagem sem precedentes, que se inicia com o fracasso na contenção da pandemia, passa pelo pífio desempenho econômico e se consolida na má-gestão ambiental.

Enquanto no Brasil se gasta tempo e recursos públicos discutindo no Congresso a eficácia de soluções manifestamente ineficazes contra a pandemia, partes cada vez mais significativas do mundo se preparam para a retomada econômica. O prospecto para o mundo pós-covid é de crescimento, mas, somente para aqueles que não subestimaram a gravidade da situação, nem o fato de que há apenas um tratamento precoce possível, a vacinação. Ao ignorar tais verdades, a sociedade brasileira acelera sua marcha rumo a uma tragédia que tenderá a envergonhar nossos descendentes e condenar nossos líderes no implacável tribunal da História.   

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Estátuas e Franco https://canalmynews.com.br/herminio-bernardo/literatura-em-fatos-estatuas-e-franco/ Mon, 29 Mar 2021 19:00:33 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/literatura-em-fatos-estatuas-e-franco/ Só para membros:Última estátua em homenagem ao ditador espanhol é derrubada. Entender a história é essencial

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Sobre educação, educadores e história https://canalmynews.com.br/cecilia-leme/sobre-educacao-educadores-e-historia/ Wed, 17 Feb 2021 14:28:34 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/sobre-educacao-educadores-e-historia/ Cada geração presencia momentos de desenvolvimento e de dificuldade. Educar para a paz continua sendo uma obrigação

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Sou descendente de educadores e considero enriquecedor revisitar a história da educação através da história dos educadores. Minha avó e meu avô foram professores, e eu tenho um enorme orgulho disso. Ainda jovens, eles começaram a dar aulas em uma escola rural de Charqueada, uma pequena cidade no interior de São Paulo. Com o passar do tempo, decidiram mudar-se para a capital, para que os filhos tivessem acesso a outros ambientes educativos. Mas eles continuaram lecionando, dando aulas e exemplos para muitas gerações de crianças.

Sempre me lembro deles com reverência e imagino como terá sido sua prática educativa de muitos anos atrás. Tenho irmãos e primos com uma memória aguçada. Eles se lembram, com precisão, dos nomes de nossos antepassados, sua posição na árvore genealógica, datas e acontecimentos, os mais marcantes e aqueles que poucos sabiam que tinham acontecido.

Minha contribuição para recuperação das histórias familiares é mais modesta. Através de um exercício imaginativo do trabalho de meus avós como professores, tento fazer uma adaptação no tempo, para ver se encontro algumas respostas para os muitos desafios educativos da atualidade. Uma leitura histórica simplista, saudosista e, talvez, um pouco pessimista, levaria à afirmação de que as décadas ou os séculos passados eram mais favoráveis para viver e educar.  Será mesmo? Meus avós passaram por períodos históricos muito conturbados, como as duas grandes guerras, nas décadas de 1910 e 1940, com graves consequências para a vida das pessoas e países ao redor do mundo. Eles também foram educadores no período da gripe espanhola, que surgiu em 1918. A estimativa é que essa pandemia matou entre 20 a 50 milhões de pessoas. Outra pandemia que eles assistiram e enfrentaram é a que começou em 1957, ocasionada pelo vírus da gripe A (H2N2), de procedência aviária, com um milhão de mortos em todo o mundo.

Durante o período em que meus avós foram educadores, também houve acontecimentos marcantes no Brasil. De revoltas e golpes de Estado à regulamentação do voto feminino, da consolidação das leis do trabalho ao aparecimento da Bossa Nova, só para citar alguns exemplos. Por outro lado, a educação brasileira, nas primeiras décadas do século XX, esteve preocupada com a especialização da mão-de-obra. Na década de 1930, promoveram-se ações para intensificar a escolarização dos brasileiros, e foi criado o Ministério da Educação e Saúde Pública.

Na América Latina, algumas pedagogias que surgiram no século passado são herdeiras de um pensamento crítico anticolonial e reconhecem a função socialmente crucial da educação para os povos latino-americanos. Tais pedagogias não priorizam a especulação predominantemente teórica, são pedagogias práticas que buscam caminhos educativos facilitadores da relação entre educandos e seus contextos, e entre educandos e o conhecimento.

Cada período histórico registra dificuldades, superação e prosperidade. As principais mudanças durante as primeiras décadas do século XX ocorreram, em parte, como consequência da primeira grande guerra e da pandemia da gripe espanhola. Assim, meus avós, como educadores daquela época, presenciaram acontecimentos históricos que desencadearam um desenvolvimento nacional e mundial importante, mas também vivenciaram períodos de dificuldade. Isso me faz pensar que ensinar a enfrentar os desafios pessoais e históricos continua sendo uma exigência educativa. Por outro lado, sobram modelos políticos violentos, ditatoriais, cruéis e sanguinários ao longo da história.

No século XX, o nazismo, o fascismo, o salazarismo, a invasão de países, os golpes de Estado e a submissão de povos e culturas, por exemplo, nos envergonham como humanidade. Educar para a paz continua sendo uma obrigação. Ainda mais quando alguns governantes atuais, que deveriam dar exemplo de pacificação e unidade, promovem o armamento da população e apoiam a violência e a barbárie. A educação para a paz, nesses contextos, é uma rebeldia necessária, para que nossos meninos e meninas aprendam que existem formas pacíficas para resolver conflitos.

Meus avós também me deixaram o exemplo de que a educação não deve significar sacrifício, dor e sofrimento. Meu avô e minha avó trabalhavam em períodos alternados para dar conta de sua vida profissional e dos compromissos com a casa e os filhos. Eles deixaram um legado educativo importante, traduzido em amor ao ensino, respeito pelos estudantes, compromisso com as instituições educacionais, luta por melhor educação e profissionalismo feminino, já naquele tempo. É mais difícil educar hoje em dia? Será que nossas crianças e nossos jovens são mais rebeldes? Não creio. O que venho constatando é que as crianças e os jovens da atualidade nos estão indicando novas necessidades educativas, para responder aos desafios e exigências de um mundo em constante e rápida transformação.

Um lindo poema de Thomas Eliot diz: Não cessaremos a exploração. O fim de toda nossa busca será chegarmos aonde começamos e ver o lugar pela primeira vez. A exploração e a busca são características inerentes ao maravilhoso trabalho dos educadores. Podemos nos lembrar de uma infinidade deles, não apenas os que têm seu nome registrado na história oficial. É importante recordar, isto é, trazer ao coração a história e o exemplo de educadores e educadoras que nos marcaram e nos ajudaram a ser quem somos.

Em minha história familiar, o exemplo de meus avós me inspira a cada dia e me fortalece sempre. E me faz acreditar que as dificuldades da atualidade, grandes e desafiadoras, não têm o poder de paralisar os sonhos educativos, nem de destruir os caminhos que nos levam a buscar, a explorar e a forjar melhores tempos. Para nossa geração e para aquelas que estão chegando.

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‘Quem ama, de fato, o Carnaval, este ano está em casa’, diz Luiz Antonio Simas https://canalmynews.com.br/mais/quem-ama-o-carnaval-esta-em-casa-diz-simas/ Mon, 15 Feb 2021 22:12:07 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/quem-ama-o-carnaval-esta-em-casa-diz-simas/ Historiador e escritor ressalta a importância histórica da festa enquanto movimento de afirmação da vida

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Se a pandemia de covid-19 impossibilita a celebração do Carnaval de 2021 nas ruas, o mesmo não se pode dizer sobre as reflexões a respeito do simbolismo da festa. Afinal, “recordar é viver” — sobretudo quando as possibilidades de celebrar são limitadas pelo isolamento social.

‘Quem ama, de fato, o Carnaval, este ano está em casa’, diz Luiz Antonio Simas. Foto: Alexandre Macieira/RioTur - Carnaval 2020
‘Quem ama, de fato, o Carnaval, este ano está em casa’, diz Luiz Antonio Simas. Foto: Alexandre Macieira/RioTur – Carnaval 2020

Foi com esse intuito que, nesta segunda-feira (15) de Carnaval, com as ruas e avenidas de todo o Brasil atipicamente vazias, as jornalistas Juliana Braga e Gabriela Lisbôa receberam no Almoço do MyNews o historiador e escritor Luiz Antonio Simas.

Autor de livros como Dicionário da História Social do Samba e O Corpo Encantado das Ruas, Simas destacou, para além da grandeza do Carnaval enquanto festa de rua, o papel do Carnaval como “a mais politizada das nossas festas” — o que, segundo o escritor, é reafirmado em diferentes momentos históricos.

“Quando a gente vai estudar os carnavais da década de 1880, eles, por exemplo, são carnavais que colocam a abolição da escravatura na ordem do dia”, ressalta. A abolição ocorreu em 1888.

Já no século passado, o destaque de Simas é para o período que marcou a fase final da ditadura. “Os carnavais da década de 1980, por exemplo, traziam a bandeira da redemocratização num contexto de desmonte da ditadura militar”, diz. “Diversos enredos de escolas de samba têm uma função pedagógica de discutir algumas questões ligadas ao Brasil”.

Desse modo, para o historiador, o Carnaval não é uma celebração alienada. “O Carnaval é uma festa politizada, de transgressão e de afirmação da vida (…) Por isso é que eu digo que quem ama, de fato, o Carnaval, este ano está em casa. Porque é a vida que tem que ser afirmada”, destaca.

Luiz Antonio Simas no Almoço do MyNews

Luiz Antonio Simas fala sobre Carnaval no Almoço do MyNews

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Vivemos uma mudança estrutural ou um pequeno ponto fora da curva? https://canalmynews.com.br/creomar-de-souza/vivemos-uma-mudanca-estrutural-ou-um-pequeno-ponto-fora-da-curva/ Wed, 03 Feb 2021 21:22:46 +0000 http://localhost/wpcanal/sem-categoria/vivemos-uma-mudanca-estrutural-ou-um-pequeno-ponto-fora-da-curva/ Vivemos um momento grave, porém passageiro, ou um divisor de águas que vai liberar novas forças, de impactos ainda desconhecidos?

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Vivemos uma mudança estrutural ou um pequeno ponto fora da curva?
Celebração religiosa sem público na Catedral de Westminster, no Reino Unido, em razão da Covid-19.
(Foto: Mazur / cbcew.org.uk)

A escola dos “Annales” na França utiliza a noção da história de longa duração. Em vez de ter um foco numa história de curto prazo, voltada para a descrição de eventos pontuais, a perspectiva de longa duração busca inserir essa sucessão de fatos em movimentos mais amplos de médio e longo prazos, que desvelam forças estruturais, tendências subterrâneas, acomodação de placas tectônicas ao longo de décadas e até séculos.

Este ponto de partida é importante para uma reflexão acerca de como os historiadores do futuro analisarão o período atual de crises múltiplas. Há mais de um século, durante o período da gripe espanhola, milhões morreram, a situação econômica não era brilhante, com muitos países ainda destroçados pela Primeira Guerra Mundial. No entanto, aquele período hoje nos parece pouco dramático. O problema sanitário do passado é quase um soluço passageiro na história do entre guerras, incapaz de retirar a atenção dos historiadores para outros aspectos dramáticos, em particular o legado de tragédias e emoções negativas que ofereceriam terreno fértil para a Segunda Guerra.

Isto leva a duas perguntas: o momento atual será também encarado, daqui a algumas décadas, como um fenômeno grave, porém passageiro? Ou, contrariamente, será considerado um divisor de águas a partir do qual novas forças foram liberadas, com impactos transcendentes no modo como as sociedades se organizam?

Se a primeira hipótese estiver correta, talvez tenhamos de passar pela provação para voltar ao bom e velho normal tal como estávamos acostumados. Nesse caso, a economia não seria reorganizada de maneira significativa e nem as relações de poder entre os países sofreria alteração de monta. Movimentos políticos populistas continuariam negando a ciência, ganhando eleições aqui e acolá, perdendo outras. EUA e China retomariam nas mesmas bases sua competição geoeconômica em busca da liderança mundial.

Vivemos uma mudança estrutural ou um pequeno ponto fora da curva?
Rua deserta em Pelotas (RS) durante lockdown contra a Covid-19.
(Foto: Rodrigo Chagas/Fotos Públicas)

Entretanto, se a segunda for a correta, é bem possível que o velho normal tenha sido sepultado definitivamente. Como se trata de uma novidade e não a repetição dos padrões de comportamento e de relações de força anteriores, tanto no interior dos países quanto na cena internacional, seria mais difícil saber se a humanidade retirará do trauma as lições que permitam dar a volta por cima. Os estudiosos preocupados com a história de longa duração buscarão identificar as novas tendências inauguradas com a crise, quer no sentido de revalorização da ciência e de políticas públicas pragmáticas, quer no sentido contrário, de um populismo eventualmente revigorado, que se aproveita da distribuição desigual do acesso à saúde para eleger novos bodes expiatórios para sua própria incompetência: o globalismo, o vírus chinês, a ONU.

O mais importante não é qual das hipóteses está correta, mas a certeza de que a história não é teleológica, não flui numa direção pré-determinada. Se queremos que o momento atual seja uma provação que pelo menos sirva para avançar rumo a sociedades mais justas e prósperas, será preciso retirar lições deste período de sofrimento e crise. Evitando o equívoco de aferrar-se, diante de questões complexas, a respostas simplistas que já se provaram equivocadas, como o extremismo que vicejou entre as duas grandes guerras e que hoje reaparece sob novas roupagens, num ensaio de repetição trágica da história.

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