colunista Cecília Leme
Mestra em Pedagogia e doutora em Desenvolvimento Regional
Coluna – Cecília Leme

É preciso reinstalar o caráter utópico da educação

Em um mundo tecnicamente fragmentado, a tarefa educativa de fomentar processos integradores e não aceitar reducionismos é essencial
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Educar não é uma tarefa simples, pelo contrário, exige constante preparação profissional e convicção de que as transformações pessoais e sociais, apesar de difíceis e desafiadoras, são possíveis. Essa convicção se alimenta de uma perspectiva da educação como processo, caminho, obra de arte que vai se construindo e aperfeiçoando pouco a pouco.

Como educadora, alguns questionamentos me acompanham sempre. O que me motiva a permanecer na educação? O que obstaculiza uma inserção educativa mais acertada? Qual modelo político-pedagógico nutre minhas reflexões e práticas? Como enfrento o descaso político que ameaça destruir pilares educativos essenciais?

Educação é como uma obra de arte que vai se construindo e aperfeiçoando pouco a pouco.
Educação é como uma obra de arte que vai se construindo e aperfeiçoando pouco a pouco. Foto: Pixnio (Reprodução).

Por outro lado, também existem desafios educativos relacionados aos educandos, tanto no espaço escolar institucional, presencial ou virtual, como nos outros espaços onde acontece a educação. Como motivar e entusiasmar os educandos para a aventura da aprendizagem? Como educar no respeito às diversidades? Como fazer dos espaços educativos lugares de verdadeiro desenvolvimento cognitivo e ressignificação socioafetiva?

Para educar é fundamental colocar-se em uma atitude permanente de escuta e interrogação. As perguntas educativas não representam insegurança, pelo contrário, significam humildade pedagógica, postura imprescindível na tarefa de educar. O intercâmbio de saberes também se apresenta como uma característica educativa necessária, pois convida os educadores a se reconhecerem como aprendentes também. Isso faz da educação e do ato de educar um espaço/tempo de constante formação e qualificação.

Nunca estaremos suficientemente preparados enquanto educadores, sempre há algo que aprender e algo que desaprender. Uma ameaça atual para a educação tem sido a prevalência do funcionalismo nas instituições educativas, levando à supervalorização da técnica, da instrumentalização e das aprendizagens utilitaristas.

Muitas vezes, os centros educativos são obrigados a priorizar a preparação técnica para as exigências do mercado, deixando de estimular uma formação integral que eduque as pessoas para a vida e seus desafios. A instrumentalização educativa pode levar a uma inércia cultural e à negação da contribuição das humanidades e dos avanços da ciência para o desenvolvimento humano.

Na atual situação pandêmica, sobram vozes desatinadas e posturas políticas mal intencionadas que colocam em dúvida evidências científicas. Com isso, propostas sérias para o enfrentamento e a superação da crise sanitária são ridicularizadas e desprezadas. As desastrosas consequências desse negacionismo são evidentes e mancham de sangue nossa historia contemporânea.

Exemplo disso é o atraso para iniciar o processo de vacinação contra a Covid-19 no Brasil, o que tem provocado uma justificada indignação social. A negação dos avanços da ciência e o silenciamento das campanhas educativas para prevenção da contaminação viral são atos perversos. Outra ameaça à educação é o crescimento de uma perspectiva cultural que determina uma maneira de ser idolátrica e fragmentada. Essa perspectiva leva o ser humano a limitar-se ao seu próprio conceito e ao de seu grupo de pertencimento, o que pode desencadear um apego acrítico a instituições e modelos que oferecem uma ilusória estabilidade.

Tal postura gera e alimenta diferentes tipos de fundamentalismo, como religioso, político, cultural e de opinião. A hegemonia do pensamento único promove intolerância e discriminação contra as diversidades que nos conformam e nos enriquecem como coletividade. Igualmente, são vários os riscos pessoais que ameaçam a prática educativa e se convertem em desafios. Entre eles, podemos destacar a apatia, o desânimo, a prepotência, a impotência diante das dificuldades, o ativismo irreflexivo e o fatalismo que imobiliza e impede transformações.

Atualmente, a obrigatoriedade do distanciamento social, devido à pandemia, desencadeou um desafio educativo enorme em diversos países: descobrir quando e como iniciar o retorno às escolas, sem colocar em risco a saúde de estudantes, professores e equipes administrativas. Injusto seria responsabilizar os educadores pelos possíveis problemas, atrasos ou defasagens na aprendizagem durante a pandemia. Uma conversação aberta, séria e profissional, envolvendo educadores, gestores educativos, secretarias e ministério da educação é o caminho para buscar respostas para essa situação.

Os desafios não devem paralisar os educadores. Pelo contrário, muitas são as possibilidades que oferece a educação na atualidade. Em um mundo tecnicamente fragmentado, a tarefa educativa de fomentar processos integradores e não aceitar reducionismos é essencial. O desencanto e a insatisfação das pessoas, ou a descrença em transformações sociais e políticas positivas, podem se converter em oportunidade para novos pensamentos e renovadas metodologias educacionais.

É impostergável reinstalar o caráter utópico da educação, aquele que reconhece que a ação educativa, ainda que tenha limites, se alimenta de esperança e contribui para a formação e o crescimento das pessoas. Para que sejam o que ainda não são, mas que podem vir a ser. E para a geração de relacionalidades saudáveis, nos diversos espaços da convivência humana e planetária.

Todo país que almeje um verdadeiro desenvolvimento para seu povo e a superação das crises que impactam a atualidade precisa reconhecer a importância do trabalho dos educadores. Aqueles profissionais que, cotidianamente, assumem o maravilhoso desafio de motivar e acompanhar outras pessoas em suas aprendizagens.

A valorização da educação, através do reconhecimento dos educadores e a implementação de políticas públicas condizentes, não pode ficar para amanhã. Esse é o caminho para que a educação responda satisfatoriamente à sua vocação ético-política, de vislumbrar novos horizontes pessoais, sociais, políticos e econômicos. Horizontes possíveis, necessários e alcançáveis.

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