colunista Cecília Leme
Mestra em Pedagogia e doutora em Desenvolvimento Regional
Coluna – Cecília Leme

Crianças, olhares e educação: por que me tornei educadora

Acredito na educação porque acredito na capacidade humana de crescer e de se transformar
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Educação é um elemento fundamental para o pleno desenvolvimento do ser humano
Educação é um elemento fundamental para o pleno desenvolvimento do ser humano.
(Foto: Unsplash)

Minha decisão por ser educadora nasceu de uma indignação, misturada com certa dose de querer transformar o mundo. Essa foi a motivação primeira para iniciar o caminho educativo que é minha grande paixão. Acredito na educação porque acredito na capacidade humana de crescer e de se transformar.

Tive o privilégio de acompanhar pessoas e compartilhar seus processos de crescimento e de superação, quando ninguém acreditava que isso fosse possível. A indignação que me levou a ser educadora nasceu nas ruas do centro de São Paulo, faz alguns anos.

Nas minhas andanças por essa região me deparei com grupos de meninos e meninas que viviam na rua. O que mais me indignou, além de um cenário urbano que os incorporava e, de certa forma, os ignorava, foi o tamanho da tristeza que observei no olhar de cada uma daquelas crianças. Um olhar sem brilho, sem esperança, sem colorido. Um olhar sem direção.

Não tenho dúvida de que minha vocação educativa nasceu nesse encontro de olhares. Abandonei o curso de Direito pela metade e abracei a Pedagogia com um entusiasmo enorme, daqueles que alimentam o sonho dos jovens de transformar o mundo. Junto com outras pessoas igualmente indignadas, me aventurei no caminho da educação pelas ruas de São Paulo.

Vários acontecimentos, conversas e encontros com aquelas crianças me alimentam e me iluminam até hoje. Sempre me lembro com ternura da Sandrinha, e me pergunto por onde andará e se estará feliz. Numa noite fria, ela correu para sentar-se perto de mim na Praça da Sé. Abriu um pacote e me ofereceu um pedaço de pão, que era tudo o que tinha para jantar. Depois de um tempo, ela me deu outro pedaço e disse: “tia Cecília, leva para sua casa, para seu café da manhã”. Aquele pão era tudo o que a Sandrinha tinha para comer e por isso essa partilha me comoveu imensamente e me ensinou que a educação acontece no encontro, no olhar, na empatia.

A realidade que encontrei nas ruas e as experiências de educação social que vivenciei confirmam que as crises políticas e econômicas recaem sobre a infância de forma desastrosa. Os altos índices de violência doméstica e violência sexual contra crianças e adolescentes, a falta de políticas públicas que garantam suficientes investimentos em saúde, emprego, educação, moradia, lazer, cultura e outros setores, rouba o brilho do olhar das crianças e deveria causar vergonha social. Não só no Brasil, mas também em outros países da América Latina e de outros continentes.

O relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF, 2017), Um rosto familiar: a violência na vida de crianças e adolescentes, apresenta uma análise detalhada das mais variadas formas de violência que sofrem meninas e meninos em todo o mundo. Destacam-se a violência disciplinar e a violência doméstica na primeira infância, a violência na escola, incluindo bullying, a violência sexual e mortes violentas.

O mesmo relatório também indica que, para alguns tipos de violência, a exposição e o risco têm um componente geográfico, ou seja, a violência tem relação com o território. Por exemplo, quase metade dos homicídios de adolescentes ocorre na América Latina e no Caribe, embora a região represente um pouco menos de 10% da população mundial de adolescentes.

Por outro lado, o Relatório de Status Global sobre Prevenção da Violência contra Crianças 2020, publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), UNICEF e a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), indica que metade das crianças do mundo, a cada ano, é vítima de violência física, sexual ou psicológica, sofrendo ferimentos, incapacidades e morte. O relatório adverte que isso acontece porque os países não seguem os protocolos necessários para proteger a infância.

Esses dados são, no mínimo, alarmantes para a educação, pois quando existe violência, inexistem processos educativos de qualidade. A indignação que me levou a ser educadora me deu de presente o encontro com crianças que sofrem. E elas me devolveram a certeza de que a contribuição educativa para superação das assustadoras crises que nos afetam como humanidade e como planeta é essencial, necessária e urgente.

Por isso continuo sendo educadora, já não pelas ruas de São Paulo, mas como professora na Universidade Nacional, na Costa Rica. Sou eternamente grata àqueles meninos e meninas que me questionaram e me desinstalaram. Eles ainda me ajudam a continuar indignada e a entender que nosso mundo se empobrece muito e se brutaliza cada vez que se ofusca o brilho no olhar de uma criança.

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