colunista Cecília Leme
Mestra em Pedagogia e doutora em Desenvolvimento Regional
Educação

Educação pode assumir um papel protagonista para parir resistência e alimentar esperança

Que tipo de educação necessitamos para superar os muitos problemas que afligem nosso país?
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A partir da década de 1960, acentua-se um processo de institucionalização da violência liberal conservadora no continente latino-americano, o que provocou profundas e rápidas transformações, principalmente de caráter social, político e cultural. Esse contexto favoreceu o surgimento de práticas educativas críticas com metodologias alternativas às práticas tradicionais de educação.

Os fundamentos teóricos clássicos da pedagogia e as grandes linhas educativas existentes já não conseguiam explicar a educação latino-americana, e não ofereciam subsídios para sua transformação e adequação às novas necessidades contextuais. As múltiplas realidades e os contrastes socioeconômicos gerados por políticas autoritárias e elitistas criaram um ambiente favorável para o surgimento de um processo de reconstrução teórica e de revisão metodológica da educação. O que foi nascendo desse processo recebeu diferentes denominações, como educação popular, educação libertadora, educação inclusiva ou educação social. Sem desconsiderar a pertinência de cada termo, opto por utilizar a expressão educação social, porque considero que todo processo educativo pressupõe incidência social.

Uma constante inquietude nos debates sobre a educação social está relacionada com os lugares privilegiados para a intervenção socioeducativa.  O grande desafio é o plantio de resistência e esperança em comunidades e contextos em que as pessoas não têm acesso a condições mínimas para viver dignamente, ou que já não encontram motivos para acreditar em mudanças positivas. Falar de esperança na educação é algo muito sério. Implica construir junto com pessoas e comunidades uma ética de resistência incansável e uma desobediência civil legitimada pela possibilidade de (re)construção dos tecidos sociais rompidos. E é exatamente essa a urgência da educação social: atuar em diferentes espaços e realidades, nos quais urge reconstruir esperança e vislumbrar caminhos de resistência que conduzam às necessárias mudanças sociais, econômicas e políticas.

Por isso a educação social latino-americana tem privilegiado os locus marcados pelo abandono político, a exclusão cultural e o esquecimento social. Com relação a isso, lembro-me de uma caminhada pedagógica pelas ruas de São Paulo, quando eu trabalhava como educadora social junto a crianças em situação de rua. Naquela noite, surpreendeu-me a pergunta do Marcelo, um menino de 10 anos: “tia Cecilia, que tipo de educadora é você?” Essa pergunta me fez pensar. Claro, o Marcelo não se referia às teorias e metodologias pedagógicas que aprendemos na universidade.

Enquanto eu pensava sobre isso, o menino completou a pergunta. “Não é por nada, tia, é que aqui chegam muitos tipos de educadores. Uns querem saber tudo da nossa vida e eu não gosto disso. Eu só conto coisas da minha vida para meus amigos, as pessoas em quem confio. Chegam educadores para dar sopa quente e vão embora logo. Isso é bom, principalmente quando faz muito frio, porque a sopa nos esquenta e ajuda a dormir. Chegam educadores que querem nos obrigar a louvar a Deus, esses são muito chatos. Também chegam educadores que só querem conversar com a gente. Não dão nada, não convidam para rezar, não perguntam sobre nossa vida, só ficam com a gente e sabemos que são nossos amigos”.

As palavras daquele menino ativaram em mim um processo de busca profissional que ainda não terminou. Que tipo de educadora sou eu? Que tipo de educação necessitamos para superar os muitos problemas que afligem nosso país? Aprendi com o Marcelo que tanto a educação institucional, como a educação social, aquela que acontece fora dos espaços educativos convencionais, são práticas sociais críticas, pois levam a tomar uma posição pessoal e profissional, o que Paulo Freire denominou ato comprometido. Essa perspectiva freiriana recupera o aspecto intencionalmente político e reflexivo da educação, para que se converta em uma prática-compromisso que contribui, de fato, para uma melhor vida para a humanidade e o planeta. Com isso quero reforçar que a educação pode assumir um papel protagonista para parir resistência e alimentar esperança. Também pode ser partícipe na luta pelas tão necessárias mudanças políticas que garantam justiça social, ética administrativa e acesso equitativo aos direitos fundamentais. Isso só se alcança com acesso a uma educação de qualidade, que forme pessoas pensantes e críticas, que se neguem a eleger políticos populistas, ou a conviver com a incitação da violência e da barbárie, ou a acreditar em soluções mentirosas para problemáticas humanas e sociais complexas.

Acredito na capacidade educativa de descobrir ou inventar alternativas que silenciem o monólogo impositivo de uns poucos para que se escute a melodia de diferentes vozes que dialogam, que sorriem e que cantam. Uma educação que paralise definitivamente as mãos que golpeiam e os corpos que abusam. Uma educação que promova relações e ações para a paz, que reinvente o cotidiano, a vida, a história e a própria educação.

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