colunista Cecília Leme
Mestra em Pedagogia e doutora em Desenvolvimento Regional
COLUNA – CECÍLIA LEME

A educação é um caminho privilegiado para a pacificação da sociedade

É importante promover habitualmente uma análise de conjuntura local e global, para buscar as raízes e as causas da violência, com o objetivo de erradicá-la
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp

Como a educação pode contribuir para a construção de uma cultura de paz? Qual tem sido o papel da educação para superar tantas manifestações de violência, em diversos âmbitos da convivência humana? Algumas atitudes e decisões políticas no cenário brasileiro atual ensinam e promovem agressão, o que pode levar à assimilação da violência como algo normal, natural e socialmente aceitável.

Diante disso, a educação tem sido interpelada a desconstruir a violência gerada e reproduzida em diferentes espaços da convivência, como a família, a comunidade, os grupos de amizade, as redes sociais e o cenário político. Isso significa que não apenas os educandos, mas também os educadores, em algumas ocasiões, se sentem arrebatados ou aprisionados por condutas e situações violentas, sem saber como proteger-se ou como reagir.

A educação é um caminho privilegiado para a pacificação da sociedade. Foto: Green Chameleon / Unsplash

Mais do que nunca, e urgentemente, a educação tem que se posicionar. Os centros educativos, por exemplo, devem se questionar sobre o crescimento da violência dentro e fora dos espaços onde acontece a educação, tanto físicos como virtuais. Igualmente, é importante promover habitualmente uma análise de conjuntura local e global, para buscar as raízes e as causas da violência, com o objetivo de erradicá-la. Nesse exercício, é necessário envolver também as famílias, para que assumam seu papel e seu compromisso educativo para construir ambientes e relações de paz.

Sabemos que os espaços convivenciais são ambientes privilegiados para a aprendizagem. As experiências de convivência familiar, comunitária, escolar e social vão conformando uma tela biográfica, e forjando descobertas cognitivas e experiências afetivas que acompanharão os educandos por toda a vida.

Qual ou quais pedagogias podem contribuir para a construção de uma cultura de paz? Como tecer uma educação sem violência e uma educação para a não-violência? A proposta conceitual de educação para a paz, de Francisco Barahona (2008), oferece uma reflexão relevante, pois vincula o processo educativo com um processo global e social de ensino-aprendizagem para a paz. “Educar para a paz significa fundamentalmente a tentativa da criação de uma cultura onde impere a cooperação e a harmonia, que venha substituir a cultura de choque e competição na qual vivemos atualmente”.

Esse autor adverte que a educação para a paz não significa uma matéria ou disciplina que deve ser incluída no plano de estudos. Ao contrário, deve ser um conteúdo e um processo global da sociedade, através do qual as pessoas e os grupos sociais aprendem a desenvolver a totalidade de suas capacidades, atitudes, aptidões e conhecimentos. Também o educador brasileiro Antônio Carlos Gomes da Costa desenvolveu uma teoria educativa para buscar possíveis caminhos para o trabalho com adolescentes e jovens em situação de violência e causadores de violência. Essa teoria se chama “pedagogia da presença” e parte de um esforço coletivo para a construção de práticas educativas que contribuam para a recuperação desses adolescentes e jovens. Segundo Gomes da Costa, a “presença” é uma exigência constante para o desenvolvimento da personalidade e inserção social de qualquer pessoa.

Durante todo o processo vital, o ser humano deseja e necessita a presença de outras pessoas. Quando isso não acontece, ou seja, quando não existem vínculos afetivos significativos, ou quando eles são muito frágeis ou foram rompidos, a vida vai se tornando vazia de sentido e a conduta se deteriora cada vez mais, levando a posturas violentas e destrutivas. Sem dúvida, uma educação para a paz mediada pela pedagogia da presença supõe uma boa dose de empatia e altruísmo, aquelas qualidades que fazem que os seres humanos se coloquem no lugar de seus semelhantes, cooperem e sejam solidários.

A maior dificuldade dos educadores tem sido a de ensinar e promover a paz em sociedades cada vez mais violentas e, muitas vezes, benevolente com os violentos. A aposta por uma educação para a paz não significa elaborar um documento que contenha unicidade de ideias e metodologias. Cada território educativo tem conflitos e necessidades pontuais, que devem ser considerados pelos educadores, com a convicção de que educar para a paz é um desafio permanente.

Não existe caminho para a paz, a paz é o caminho”. Com essa célebre frase, Mahatma Gandhi expressou um dos seus mais importantes valores: é possível alcançar ideais sem utilizar violência. Nesse sentido, a educação é um caminho privilegiado para a pacificação da sociedade. E para as transformações sociais, econômicas e políticas necessárias para que a paz não seja um sonho distante ou inalcançável para muitas pessoas, comunidades e nações.

Inscreva-se na newsletter
Relacionadas
Educação
Que tipo de educação necessitamos para superar os muitos problemas que afligem nosso país?
COLUNA – CECÍLIA LEME
Cada geração presencia momentos de desenvolvimento e de dificuldade. Educar para a paz continua sendo uma obrigação
COLUNA – CECÍLIA LEME
As tecnologias da informação e comunicação revolucionaram o processo educacional
Coluna – Cecília Leme
Em um mundo tecnicamente fragmentado, a tarefa educativa de fomentar processos integradores e não aceitar reducionismos é essencial
Coluna – Cecília Leme
“A educação será portadora de esperança no crítico momento histórico em que vivemos, no Brasil e no mundo”
Coluna – Cecília Leme
Acredito na educação porque acredito na capacidade humana de crescer e de se transformar

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e Política de Cookies. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.