colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics
Coluna – Creomar de Souza

Vivemos uma mudança estrutural ou um pequeno ponto fora da curva?

Vivemos um momento grave, porém passageiro, ou um divisor de águas que vai liberar novas forças, de impactos ainda desconhecidos?
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Vivemos uma mudança estrutural ou um pequeno ponto fora da curva?
Celebração religiosa sem público na Catedral de Westminster, no Reino Unido, em razão da Covid-19. (Foto: Mazur / cbcew.org.uk)

A escola dos “Annales” na França utiliza a noção da história de longa duração. Em vez de ter um foco numa história de curto prazo, voltada para a descrição de eventos pontuais, a perspectiva de longa duração busca inserir essa sucessão de fatos em movimentos mais amplos de médio e longo prazos, que desvelam forças estruturais, tendências subterrâneas, acomodação de placas tectônicas ao longo de décadas e até séculos.

Este ponto de partida é importante para uma reflexão acerca de como os historiadores do futuro analisarão o período atual de crises múltiplas. Há mais de um século, durante o período da gripe espanhola, milhões morreram, a situação econômica não era brilhante, com muitos países ainda destroçados pela Primeira Guerra Mundial. No entanto, aquele período hoje nos parece pouco dramático. O problema sanitário do passado é quase um soluço passageiro na história do entre guerras, incapaz de retirar a atenção dos historiadores para outros aspectos dramáticos, em particular o legado de tragédias e emoções negativas que ofereceriam terreno fértil para a Segunda Guerra.

Isto leva a duas perguntas: o momento atual será também encarado, daqui a algumas décadas, como um fenômeno grave, porém passageiro? Ou, contrariamente, será considerado um divisor de águas a partir do qual novas forças foram liberadas, com impactos transcendentes no modo como as sociedades se organizam?

Se a primeira hipótese estiver correta, talvez tenhamos de passar pela provação para voltar ao bom e velho normal tal como estávamos acostumados. Nesse caso, a economia não seria reorganizada de maneira significativa e nem as relações de poder entre os países sofreria alteração de monta. Movimentos políticos populistas continuariam negando a ciência, ganhando eleições aqui e acolá, perdendo outras. EUA e China retomariam nas mesmas bases sua competição geoeconômica em busca da liderança mundial.

Vivemos uma mudança estrutural ou um pequeno ponto fora da curva?
Rua deserta em Pelotas (RS) durante lockdown contra a Covid-19.
(Foto: Rodrigo Chagas/Fotos Públicas)

Entretanto, se a segunda for a correta, é bem possível que o velho normal tenha sido sepultado definitivamente. Como se trata de uma novidade e não a repetição dos padrões de comportamento e de relações de força anteriores, tanto no interior dos países quanto na cena internacional, seria mais difícil saber se a humanidade retirará do trauma as lições que permitam dar a volta por cima. Os estudiosos preocupados com a história de longa duração buscarão identificar as novas tendências inauguradas com a crise, quer no sentido de revalorização da ciência e de políticas públicas pragmáticas, quer no sentido contrário, de um populismo eventualmente revigorado, que se aproveita da distribuição desigual do acesso à saúde para eleger novos bodes expiatórios para sua própria incompetência: o globalismo, o vírus chinês, a ONU.

O mais importante não é qual das hipóteses está correta, mas a certeza de que a história não é teleológica, não flui numa direção pré-determinada. Se queremos que o momento atual seja uma provação que pelo menos sirva para avançar rumo a sociedades mais justas e prósperas, será preciso retirar lições deste período de sofrimento e crise. Evitando o equívoco de aferrar-se, diante de questões complexas, a respostas simplistas que já se provaram equivocadas, como o extremismo que vicejou entre as duas grandes guerras e que hoje reaparece sob novas roupagens, num ensaio de repetição trágica da história.

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