colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics

O futuro é o agora

A antecipação do debate eleitoral, verdadeira fuga para o futuro, alimenta sonhos idílicos, mas é pouco eficaz na resolução da tempestade perfeita em que nos encontramos
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A decisão do ministro Edson Fachin virou de ponta cabeça o panorama político brasileiro. Não bastassem as dificuldades correntes do cotidiano, como pandemia, crise econômica e baixa qualidade da governança pública em todos os níveis, o judiciário injeta uma nova dinâmica política ao alterar substancialmente o terreno em que se desdobra a rivalidade entre apoiadores da operação Lava Jato e seus opositores, entre o antipetismo e as forças à esquerda no espectro político. E, de quebra, desvia a atenção do momento presente para uma projeção do futuro. 

A próxima eleição presidencial tornou-se, subitamente, o elemento mais importante do debate político. Considerando a importância dos atores políticos envolvidos, parece ser natural que haja alguma ansiedade no que concerne ao futuro da democracia nacional. Contudo, considero ser importante neste exato momento uma boa dose de distanciamento para entender o sentido dos últimos acontecimentos. Por isso, creio que vale a pergunta: não existem outras prioridades que devem ser colocadas antes do debate eleitoral?

Possivelmente sim, e inclusive algumas delas tem sido postas neste texto e em colunas anteriores. O país caminha a passos largos na direção de se tornar um estudo de caso de tudo aquilo que não se deve fazer em termos de políticas públicas diante de uma grave crise de saúde. Em alguns dias, provavelmente, ultrapassaremos os mais de 2.000 mortos diários por Covid-19 e, mesmo assim, as ações do governo federal têm sido lentas e difusas. E talvez aqui esteja a resposta para o questionamento levantado anteriormente. 

Diante do fato de que temos, como sociedade, fracassado no combate à pandemia, uma reação natural do ponto de vista cognitivo é mirar no futuro. Este exercício de fuga para frente – ou “Flucht nach vorne”, como diria o Ministro Gilmar Mendes em outro contexto – tem sua manifestação mais importante na antecipação do debate eleitoral. Não importando se as simpatias estão direcionadas ao presidente Bolsonaro, ao ex-presidente Lula ou quaisquer outros nomes que surjam, prevalece a lógica de antecipar as eleições, enquanto a tarefa de encarar a realidade torna-se uma ação desnecessária. 

E o que a realidade exige no dia de hoje? Nada mais, nada menos, do que menos balela anticientífica e mais compromisso com políticas públicas eficazes, a começar pela vacinação em massa e auxílio aos mais necessitados. Essa postura que se requer dos responsáveis e autoridades políticas significa deixar de lado vaidades egocêntricas, de modo a enxergar o que realmente importa: dar resposta aos brasileiros em dificuldade, respeitar seu sofrimento e seu luto, dar condições aos que precisam de um sustento que possam enfrentar a pandemia sem riscos excessivos e desproporcionais, mobilizar a sociedade para encarar a realidade com base em evidências, não os moinhos de vento da conspiração internacional. 

Independentemente de você ser um socialista, um liberal ou um centrista, o futuro é o agora e a contenção da situação drástica que vivemos passa necessariamente pelo enfrentamento da realidade dura como ela se apresenta. E neste aspecto, a antecipação do debate eleitoral atende apenas aqueles que querem falar de eleição, sem auxiliar no processo de construção de soluções para a tempestade perfeita que se abateu sobre o Brasil, muito por obra de nossa própria incompetência, diferentemente dos fenômenos climáticos que não podemos controlar. 

Ignorar os efeitos da pandemia, portanto, é calar muitos brasileiros em suas dores, lutos e perdas. Cabe, portanto, a reflexão acerca daquilo que importa neste exato momento e a cobrança sobre os decisores que possuem mandato e aos postulantes a serem mandatários da importância de assumirem responsabilidades e construírem um pacto que permita ao país superar a encruzilhada em que nos encontramos. 

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