colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics
CORRIDA POR VOTOS

Pista escorregadia até as eleições de 2022

Corridas eleitorais são disputadas, normalmente, em terrenos bastante desafiadores. No caso específico das eleições no Brasil em 2022, o cenário é uma pista sinuosa e muito escorregadia para aqueles que sonham em morar no Palácio do Planalto
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp

Candidatos competitivos são enormes vidraças de cristal. E como tal, seus concorrentes e desafetos estão sempre aptos a arremessarem tijolos em suas direções. Se vivêssemos em tempos normais, tais eventos seriam vistos como uma atividade a ser administrada dentro das quatro linhas do marketing político. Contudo, tendo em vista que os anos vinte do século XXI são muitas coisas, menos tempos normais, torna-se importante compreender quais são os riscos que os principais proponentes ao Palácio do Planalto irão enfrentar do ponto de vista narrativo e imagético.

Inicialmente, é importante compreender que as ilações aqui construídas vão levar em consideração os quatro principais proponentes à Presidência até o presente momento. Comecemos, então, pelo atual presidente da República, que muito provavelmente será um candidato com discurso de questionamento ao processo eleitoral como um todo. Este simples elemento dá à eleição uma diferença em relação a arranjos precedentes pelo fato de que o principal ator político do jogo será ao mesmo tempo alvo de críticas e franco-atirador.

Esta dinâmica tende a empurrar o pleito para uma direção tendencialmente perigosa, em que a ideia de tumulto pode ser vista como uma estratégia de ação. Neste aspecto, os principais concorrentes do presidente Bolsonaro possuem diante de si uma série de escolhas muito difíceis. A primeira delas diz respeito à calibragem dos discursos e da transformação de agendas em mensagens que efetivamente possam dar ao eleitor a garantia de que escolher quaisquer um deles em detrimento ao atual mandatário é uma boa escolha.

Tal reflexão resguarda alguns dilemas. Sobremaneira quando se pensa em cada um dos três principais concorrentes de Bolsonaro e em como suas imagens possuem fragilidades que certamente serão exploradas dentro da lógica do tumulto e dissenso que será parte importante do pleito. Lula, Moro e Ciro, cada um a seu turno, serão continuamente fustigados e testados em seus compromissos, coerência e percepções da realidade. E neste aspecto, tendo em vista que uma parcela cada vez maior da sociedade não espera encontrar tais atributos no candidato à reeleição, paradoxalmente, os principais concorrentes serão muito mais cobrados nisto.

Em termos práticos, Lula certamente será alvo de questionamentos frequentes sobre o não ‘mea culpa’ do PT e eventuais declarações de apoio a ditadores de esquerda ao redor do globo. Ciro, de outro lado, será castigado pelos apoiadores de Lula por não ter apoiado Haddad em 2018, ao passo que a pecha de destemperado deve retornar ao centro das reflexões sobre ele. Moro, o candidato em ascensão no presente momento, por sua vez, tende a ser alvo preferencial de lulistas e bolsonaristas. Em uma lógica – ressalvadas as diferenças – que se assemelha ao esmagamento de Marina por Dilma e Aécio em 2014.

O fato é que diante de um cenário em que potencialmente estas e outras fragilidades estão em processo de mapeamento pelas campanhas citadas, abre-se espaço para uma reflexão acessória, que é a necessidade de construir falas em ambientes controlados. No contexto em que deep fakes e outros subterfúgios serão usados de maneira consistente na campanha eleitoral, caberá às estruturas de campanha entender que é virtualmente impossível impedir o espalhamento de percepções negativas sobre o candidato.

De qualquer maneira, será importantíssimo construir estratégias de contenção de danos que permitam a sobrevivência em uma conjuntura marcada por incerteza e tumulto. A percepção que se matura a cada dia é a de que o próximo ciclo de eleição presidencial se assemelhará e muito a uma corrida de Fórmula 1 com pista chuvosa, e o vencedor será aquele que conseguir manifestar ao longo das voltas a maior capacidade de se manter no trilho seco com o menor número de infortúnios.


Relacionadas
política e religião
Historicamente, o Senado Federal é mero validador das indicações dos Chefes de Governo ao Supremo. Porém, questões políticas outras tornaram a validação do nome de André Mendonça uma procissão que trazem à baila a necessidade de uma discussão sobre a laicidade do Estado
Enquanto alguns dos principais atores institucionais e políticos do país estão no exterior, uma série de temas urgentes se apresentam em compasso de espera. Tal qual uma donatária medieval sem senhor, o país padece nas suas próprias vulnerabilidades
ELEIÇÕES 2022
O processo eleitoral se iniciou com precocidade. Isto posto, o impacto sobre os atores políticos e os eleitores leva a uma explosão de paixões e olhares que muitas vezes se perdem em emoções e tentativas de compreender um futuro incerto
Diplomacia
O apequenamento da participação do Brasil em diálogos internacionais de alto nível é fruto de uma dinâmica que atende interesses eleitorais de curto prazo. Contudo, os custos desta postura podem afetar interesses e negócios até mesmo daqueles que hoje apoiam o governo Bolsonaro
Esfera pública
A República Federativa do Brasil não se encerrará em dezembro de 2022 e dito isto, é de fundamental importância alertar aqueles que trocam a avaliação racional do voto pelo mero exercício de paixões de ocasião acerca do risco que se cria para o dia seguinte do processo eleitoral
E AGORA?
A CPI da Pandemia foi a novela de maior audiência da TV Brasileira em 2021. Porém, diferentemente de outros folhetins midiáticos, seu final abriu espaço para interpretações dúbias acerca de vencedores e perdedores do debate político em torno do fracasso coletivo que envolveu o enfretamento à Covid-19
Inscreva-se na newsletter

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e Política de Cookies. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.