colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics

Por quem os sinos dobrarão no 07 de setembro?

Não há nada mais perigoso para um ambiente de liberdades individuais plenas que assunção de crenças políticas como uma verdade absoluta. O risco de transformar um posicionamento em profissão de fé é a banalização da ideia de que vale o uso de qualquer artifício para se derrotar o rival político, transformado em inimigo em um campo de batalha
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Qual o limite da crueldade humana em nome de uma causa? Que tipo de barbaridade pode ser justificada a partir de uma crença ferrenha em uma ideologia? Muitas são as tentativas de responder tais questionamentos, de Erich Fromm à Hannah Arendt, não foram poucos os pensadores que buscaram compreender a construção do arbítrio ideologicamente justificado. Entretanto, dentre os vários caminhos possíveis para compreender o peso da violência justificada e a imbecilidade que envolve instigar a guerra, ninguém parece ter sido tão feliz quando Ernest Hemingway em seu retrato literário da Guerra Civil Espanhola intitulado “Por Quem os Sinos Dobram”.

Ao narrar a trajetória de Robert Jordan como um voluntário nas brigadas republicanas durante o conflito espanhol, Hemingway se presta a dois serviços: o primeiro é o exercício autobiográfico de expiação dos demônios encarnados por ele visualizados durante seu tempo de engajamento na luta fratricida. O segundo, mais importante para este texto é o de tecer um retrato bastante cru dos impactos negativos que homens empoderados por causas podem causar na vida de cidadãos comuns.

Obra 'Por quem os sinos dobram?', de Ernest Hemingway.
Obra ‘Por quem os sinos dobram?’, de Ernest Hemingway. Foto: Reprodução (Divulgação)

Neste sentido, a descrição da crueldade e da violência perpetrada tanto por franquistas quanto por republicanos é um alerta importante àqueles que a espada é possível construir um cenário de paz sobre um exército de cadáveres. Esta reflexão em específico parece bastante importante para o Brasil atual. Sobretudo quando homens públicos que buscam se travestir de figuras míticas convocam seus fiéis para demonstrações de força que podem se transformar em verdadeiros abatedouros de vidas humanas.

O fato é que se a democracia permite a expressão de ideias e a concorrência destas em prol de angariação de preferências, é necessário também compreender que esta liberdade pode ser utilizada para destruir direitos. O país hoje se encontra diante de uma série de encruzilhadas e, tal qual a Espanha pré-guerra civil. A instabilidade política, a falta de confiança na capacidade das instituições em solucionar problemas e, sobretudo, a tentativa de lideranças autoritárias de se colocarem como focos exclusivos de solução de problemas criam um precedente perigoso que alimenta sentimentos negativos e banaliza a ideia do direito de existência do diferente.

A confusão que propositalmente se estabelece entre liberdade de expressão e irresponsabilidade de expressão tem um propósito, a ideia de incutir medo, instabilidade e banalização da violência como instrumento de pacificação. Neste sentido, Popper definiu de maneira bastante precisa a necessidade de que as sociedades democráticas têm de reconhecer com facilidade seus inimigos e criar mecanismos dentro da lei para que eles sejam cerceados na sua tarefa de destruir liberdades e provocar o caos social.

Aqui faz-se importante compreender que a questão não é de posicionamento progressista ou conservador. O cerne está no compromisso feito de respeitar as regras do jogo democrático e compreender que nenhum individuo é superior a elas. Porém, se os indivíduos investidos de funções institucionais, sobretudo aqueles em posição de deter o arbítrio e a erosão do prédio democrático se omitem, o risco de excessos justificados em salvacionismos de ocasião cresce na mesma velocidade que o exercício repetitivo de propagação da falácia e da transferência de ônus causados por omissões.

Diante do fato irremediável de que não haverá moderação ou bom senso dos indivíduos envolvidos na convocatória ao conflito, fica aqui o apelo àqueles que são indivíduos comuns e que, por consequência, serão os mais diretamente afetados pela violência das grandes causas libertadoras. Não se torne uma presa fácil daqueles que propagam o caos sob a justificativa de que será alcançado um paraíso na terra. Afinal, para aqueles que mandam os jovens e incautos à morte, a vida já é um elísio terrenal desde que seu poder seja mantido ao custo da vida e dos sacrifícios alheios.


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