colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics
Análise

Vamos pensar o Brasil de 2040?

Dentro de uma lógica governativa, o trabalho de planejamento e análise de tendências deve ser compreendido como parte fundamental para o progresso democrático de uma nação
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Acaba de ser publicada a última edição do documento de tendências e cenários de longo prazo a cargo do Conselho de Inteligência Nacional dos Estados Unidos, o “Global Trends 2040”. Diante de um mundo cada vez mais complexo e com interações das mais diferentes ordens e origens, o exercício se propõe a pensar o futuro, identificando tendências e construindo cenários, de modo a preparar governo e sociedade para os desafios vindouros.

Governos existem para fazer as existências de seus cidadãos mais livres, justas e estáveis. Estes três elementos, liberdade, justiça e estabilidade, quando garantidos de maneira equilibrada e razoável pelo governo, permitem que os cidadãos possam desenvolver suas potencialidades com maior desenvoltura e, consequentemente, este movimento gera uma espiral positiva que tornam a sociedade e o governo mais prósperos.

O trabalho de planejamento e análise de tendências deve ser compreendido como planejamento necessária para o progresso de uma nação.
A análise de tendências deve ser compreendida como plano necessário para o progresso de uma nação. Foto: Reprodução (Flickr – com modificações).

Quando unimos o propósito à ordem democrática, temos então o melhor resultado possível. Afinal, os cidadãos podem inserir-se de maneira ativa nas ações que permitem ao governo melhorar suas vidas. As demandas, petições e sugestões legais tornam-se ferramentas essenciais para a melhoria da sociedade. Estas passam inclusive a produzir desafios criativos aos governos e permitem aprimorar a governança pública ao servirem de meio de consolidação de um planejamento estratégico estruturado no tempo.

O planejamento, por sua vez, é um elemento importantíssimo dentro de uma lógica governativa. A atual crise que vivemos mostra a importância do planejamento a partir do princípio da escassez. O colapso causado pela pandemia no Brasil e em várias sociedades mundo afora está diretamente vinculado ao fato de que na ausência de uma eficaz construção de cenários corre-se riscos desnecessários, e o resultado poderá ser a tragédia.

O mundo pré-pandemia criou algumas impressões falsas sobre o papel da política e dos políticos. Vendeu-se a ideia de que a política poderia existir como antipolítica, e que o político poderia desprezar o diálogo como instrumento de melhoria de seu próprio mandato e das políticas públicas.

Além disso, a maior das ilusões era a de que seria possível construir um mundo de muros e barreiras, em que o isolamento seria solução simplória para problemas complexos. Estes movimentos, simbolicamente materializados em Trump e no Brexit, sofreram um golpe fortíssimo da realidade. Esta, num misto de tragédia grega e prosa Shakespeariana, impôs verdades irrefutáveis, como a necessidade do diálogo, a urgência da articulação e a premência de um planejamento de qualidade para lidar com crises presentes e desafios futuros.

E o Brasil? Pois bem, nós possuímos algumas estruturas que fazem esse trabalho de planejamento e análise de tendências futuras com qualidade. De memória, é possível lembrar do IPEA, dos grupos de cenários prospectivos das forças armadas e do louvável esforço feito pela Secretaria de Planejamento Diplomático do Itamaraty em 2017 e 2018. Todas essas ações e estruturas, contudo, precisam ser priorizadas pelos tomadores de decisão, o que não tem sido o caso mais recentemente. Há ainda uma enorme resistência – suprapartidária e em todo espectro ideológico – em fazer planejamento de longo prazo.

Seja por birra ideológica, seja por vaidade eleitoral, a resistência de abraçar o planejamento e uma visão de futuro é um grande obstáculo para evitar prejuízos, tomar precauções e preparar-se para os desafios que emergem no horizonte. Sempre haverá eventos imprevisíveis, nunca será possível controlar as inúmeras variáveis de diversas ordens que moldam o ambiente e a realidade. No entanto, planejamento bem feito, monitoramento de tendências e desenho de cenários futuros como o do “Global Trends 2040”, quando se tornam política pública construída de maneira conjunta entre governo e sociedade civil, ampliam a capacidade de moldar um futuro desejável e conter tragédias evitáveis. O futuro é agora e o agora exige planejamento.

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