colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics
Diplomacia

Os resultados que precisamos e aqueles que temos da Política Externa Brasileira

Uma política externa descolada do eixo tradicional das políticas públicas, é incapaz de gerar resultados e corresponder aos desafios impostos pelas dinâmicas da geopolítica das vacinas globalmente
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Um dos primeiros textos desta coluna discutiu o que é Política Pública e a sua utilidade. Longe de esgotar o assunto, aquela reflexão ressurge com força no atual momento. Seja pelas discussões bizantinas que envolvem a vacinação, seja pelos limites geopolíticos impostos ao governo brasileiro. O fato é que políticas públicas devem buscar resultados e soluções para a coletividade e que Política Externa, ao ser Política Pública, está enquadrada neste axioma.  

Se no passado tal concepção de realidade era um truísmo, hoje, é preciso reafirmar essa noção já que o domínio diplomático parece ter sido colonizado pela ideologia. A principal resultante deste fenômeno é a expulsão do cálculo tradicional de ganhos e benefícios e a exclusão do pragmatismo saudável da projeção de interesses nacionais no contexto de um cenário internacional cada vez mais competitivo.

Obviamente, este dilema não é exclusividade do Brasil. Ao contrário, o avanço do populismo mundo afora teve o condão de usar a Política Externa como um de seus alvos prediletos na busca de bodes expiatórios, numa manobra daninha para uma ordem internacional baseada no direito e na solução negociada para problemas comuns. No caso da Europa, a política de integração seria a culpada pelo desemprego, pela imposição de valores democráticos contra a vontade de regimes “iliberais”, pela suposta invasão de imigrantes, mesmo em países com números irrelevantes de imigrantes.

Nos EUA, Trump representou fenômeno semelhante. Manipulou a situação difícil de parcelas da população e seus temores mais recônditos em relação ao outro e ao diferente. Atribuiu a imigrantes os males sociais, culpou a China pela decadência da manufatura tradicional no país, acusou ambientalistas de inventar uma conspiração global para matar a indústria do carvão e retirar o poder do setor de hidrocarbonetos.

Em suma, o populismo tem como subproduto uma visão maniqueísta, que reduz o mundo a um roteiro cinematográfico de uma batalha as forças do bem – não coincidentemente ocidentais, conservadoras, nacionalistas – contra as forças do mal – o comunismo, o globalismo, a ONU, a OMS. Esse amálgama simplista distorce a realidade para fabricar soluções imaginárias. E como resultante, realiza-se um processo de fuga das Políticas Públicas baseadas em evidência e aposta-se em soluções baseadas em sectarismo.

Como exemplo deste processo, percebe-se a ideologização de Políticas Públicas, que se tornam um campo de embate desproporcional diante da gravidade das situações a serem enfrentadas. Neste país, vimos isso na questão da vacina, no relacionamento subserviente em relação aos EUA de Trump e na prática de pisar no calo da China, ignorando a relevância deste país para a economia nacional. Desta maneira, o populismo que hoje dá as cartas na nossa Diplomacia tornou-se um estudo de caso na busca de ganhar pontos com uma base eleitoral radicalizada em detrimento dos interesses concretos da população.

O fato é que se anteriormente, a lógica de ideologização não possuía resultados concretos, na atual conjuntura os danos são inescapáveis. A realidade se impõe e se vinga, em momento que o país precisa manter mercados abertos às exportações – nos EUA, na Europa, na América do Sul e na Ásia – e na hora de navegar no mar revolto da geopolítica das vacinas. Nesse caso, a vergonha e o constrangimento moral de uma Diplomacia sectária é um problema menor diante da perda de influência, poder e por consequência, capacidade de garantir a prosperidade, a saúde e o futuro de nossos cidadãos.

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