colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics
Coluna – Creomar de Souza

Ninguém faz melhor oposição ao governo do que o próprio governo

O custo de escolhas estratégicas equivocadas do Governo Federal cobrou um preço alto nas últimas semanas
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Ninguém faz melhor oposição ao governo do que o próprio governo
O ministro Eduardo Pazuello (Saúde) e o presidente Jair Bolsonaro durante o lançamento do plano nacional de imunização contra a Covid-19. (Foto: Isac Nóbrega/PR)

Enquanto o mundo observa com olhar atento a transição de governo nos Estados Unidos, no Brasil a confluência de equívocos políticos e de gestão pública segue seu curso. Se a aprovação de dois imunizantes em caráter emergencial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) representou uma verdadeira apoteose cívica no último fim de semana, os desafios de construção de um amplo programa de vacinação passam diretamente por uma estabilização do ambiente político.

Neste sentido, o ato do governador João Doria de iniciar a vacinação no Estado de São Paulo poucas horas após a decisão da Anvisa é um marcador importante do panorama político nacional. De um lado, o mandatário paulista capitalizou de maneira direta os ganhos de uma batalha campal protagonizada por ele e o Presidente da República nos últimos meses. De outro, a derrota avassaladora na Anvisa e o início simbólico da vacinação em São Paulo, nitidamente, deixaram o Governo Federal atordoado.

De uma coletiva esvaziada feita pelo Ministro da Saúde, o General Pazuello, passando pelo silêncio sepulcral do Presidente da República, o custo de escolhas estratégicas equivocadas cobrou um preço alto nas últimas semanas. Longe de uma construção maniqueísta que coloque Bolsonaro como o mal e Doria como o bem. O fato é que a opção do Palácio do Planalto em ignorar uma abordagem científica da crise sanitária, aliada a uma série de erros de comunicação e de desconhecimento da lógica de funcionamento do Sistema Único de Saúde, redundou na máxima de que ninguém faz melhor oposição ao governo do que o próprio governo.

Como um reforço previsível da lógica acima exposta, o presidente Bolsonaro fez uma evocação ao papel das Forças Armadas como elemento decisório mais importante de uma democracia. A ação, como de costume, desperta atenções e sensações desagradáveis em vários grupos do espectro político. Porém, ela serve muito bem como anteparo ao processo de construção ora em curso de uma grande ofensiva do governo no Legislativo. 

Este movimento, orquestrado de maneira muito eficaz por assessores mais próximos do Presidente, e parlamentares que apoiam o governo, construiu duas ações importantes durante as últimas semanas. A primeira foi minar qualquer ação que visasse uma interrupção do recesso parlamentar, e a segunda, a construção de uma base de apoio significativa para as candidaturas de Arthur Lira (PP-AL) para presidência da Câmara dos Deputados e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) para a presidência do Senado Federal.

Cabe, porém, a reflexão em termos contrafactuais: e se os candidatos do Planalto forem derrotados? O questionamento parte do princípio de que em passado recente foi observada situação semelhante com Dilma. Lá e aqui, o governo prometeu tudo que os parlamentares desejavam para que seus candidatos vencessem, porém, o fato de que a relação entre Executivo e Legislativo estava bastante desgastada, os parlamentares mudaram de lado nos últimos instantes do jogo.

O ponto aqui, portanto, não é estabelecer uma lógica infundada de previsibilidade. Entretanto, não há dúvida alguma de que a simultaneidade de crises é fator que gera alguma instabilidade no horizonte decisório. E esta, ativa o tradicional mecanismo retórico do presidente de entrar em modo de campanha, a diferença é que neste exato momento a diminuição do alcance de suas falas nas redes sociais é um desafio para o qual seu grupo não parece estar preparado.

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