colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics

A política do espetáculo

Ao desejarem serem vistos como heróis de parcelas distintas da audiência, os congressistas correm o risco de trocarem o cumprimento de sua missão constitucional pela simples aprovação midiática
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da pandemia realizada no Senado Federal, é o mais novo sucesso de audiência nacional. Nas últimas semanas, a mídia tradicional, influenciadores de internet e cidadãos comuns têm se debruçado sobre as oitivas e trocam impressões nas redes sociais sobre o evento. Adicionalmente, os atores políticos de ambas as Casas, ao perceberem o interesse público sobre o evento, passam a desfilar suas figuras no colegiado. 

O resultado é a configuração de uma série de novos elementos na relação entre eleitores e parlamentares. De um lado, alguns Senadores, sobretudo, os oposicionistas, se aproveitam da agilidade dos internautas para verificar em tempo real a veracidade das falas de alguns dos depoentes. O relator da comissão, Senador Renan Calheiros (MDB-AL), por sua vez, abriu suas redes sociais para que cidadãos pudessem enviar perguntas direcionadas algum dos depoentes. 

A observação desses movimentos não deixa de ser um respiro democrático, sobretudo, naquilo que aumenta a sensação de pertencimento do cidadão. Porém, ao mesmo tempo, permite a reflexão acerca dos limites da representação política em dar vazão aos interesses da sociedade na atual conjuntura.  Nesse sentido, o risco se concentra na transformação do colegiado em um espetáculo dramatúrgico. 

Randolfe Rodrigues, vice-presidente, Omar Aziz, presidente, e Renan Calheiros, relator da CPI da Pandemia.
Sessão da CPI da Pandemia. Foto: Edilson Rodrigues (Agência Senado).

Ao mesmo tempo em que é louvável a recepção de perguntas ou a abertura para que uma parte da cidadania possa levantar questionamentos aos depoentes e representantes, é preocupante perceber que, em vários momentos, elementos importantes para o debate e a busca de responsabilidades em relação ao manejo da crise sanitária se percam diante do looping retórico e da defesa de soluções xamânicas, já reprovadas pela ciência médica da mais alta qualidade. 

Adicionalmente, merece um alerta o fato de que um número considerável de depoentes entra em sérias contradições em uma situação em que estão comprometidos a dizer a verdade.  Nessa lógica, a preocupação é a de que o colegiado perca efetividade, gerando uma situação em que o rito, a institucionalidade e, sobretudo, a necessidade do compromisso com o fato sejam considerados como menos importantes diante do regozijo da claque. 

A ideia de que os Senadores possam enebriar-se nos humores da população cria, portanto, a ameaça de que os representantes sejam vistos como meros personagens de uma novela de ficção. Ao desejarem serem vistos como heróis de parcelas distintas da audiência, os congressistas correm o risco de trocarem o cumprimento de sua missão constitucional pela simples aprovação midiática. Afinal, se a lógica da dramaturgia interessa mais aos atores políticos que o resultado, é possível dizer que a forma, vista como espetacularização, é mais importante que o conteúdo, visto como busca de respostas eficazes para a tragédia em que nos encerramos. 

À medida que cresçam as expectativas por uma resposta efetiva aos dilemas que a CPI se propôs a investigar, corre-se o risco de que qualquer resposta apresentada que não atenda aos humores de uma cidadania transformada em plateia seja vista como insuficiente. E esta, por sua vez, alimente um desengajamento político com consequências muito graves para toda a sociedade. Em um cenário pessimista, o aprofundamento do divórcio entre cidadãos representantes pode, inclusive, fomentar um processo acelerado de degradação democrática.

Inscreva-se na newsletter
Relacionadas
Democracia
A negação da governança democrática, compreendida pelo diálogo e respeito à diferença, mostra apenas a enorme necessidade da boa e velha arte política
O Brasil precisa voltar a utilizar seus ativos para atrair investimentos, ampliar as trocas, criar riquezas, incorporar a inovação
Levando em conta que o espaço da CPI é uma corte política, é importante separar aquilo que a cidadania deseja, daquilo que ela efetivamente tem
Tribunal da História
No âmbito do combate ao maior desafio do século, as desigualdades entre as nações evidenciaram crises que ultrapassam ideologias e esbarram na ignorância
O diálogo é um instrumento fundamental de resolução de disputas e que estas, por mais agressivas que sejam, não devem assumir nunca uma lógica de erradicação do outro
Diplomacia
Nos últimos dois anos e meio, o poder argumentativo do Brasil, condutor da política externa, foi abandonado e substituído por leituras ideológicas da realidade internacional

Utilizamos cookies essenciais e tecnologias semelhantes de acordo com a nossa Política de Privacidade e Política de Cookies. Ao continuar navegando, você concorda com estas condições.