colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics
Estratégia

Não se deve subestimar o Bolsonarismo

Em um ambiente político marcado por crise e uma eventual fragilidade do governo, a maior ilusão para aqueles que fazem oposição a Bolsonaro e seu projeto é a percepção de que isoladamente cada um pode derrotar o Presidente em sua reeleição
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O professor Dawisson Belém certa vez definiu que o Bolsonarismo é o Trumpismo com dois dias de atraso. Tal reflexão, fruto de observações empíricas e de uma métrica refinada, tornou possível compreender os impactos de Trump e de sua narrativa política sobre o jogo de forças eleitorais no Brasil em 2018. Porém, para além disto, o processo de emulação de uma forma de fazer política resultou em outra característica bastante particular do atual governo brasileiro, a campanha cotidiana.

Desde o seu primeiro dia de governo, Bolsonaro sempre buscou reproduzir de maneira tropicalizada o esforço construído por Trump de fazer cada ato de governo um ato de campanha. Na América, Trump se utilizava de redes sociais como o Twitter e o Facebook para alimentar seus seguidores com todo tipo de informação que tivesse a capacidade de gerar engajamento e repulsa aos rivais.

No Brasil, por sua vez, Bolsonaro, com ao auxílio prestimoso daqueles que estão em seu entorno, conseguiu criar algo mais eficaz; grupos de Telegram e WhatsApp que criaram um canal paralelo de comunicação entre o Presidente e seus seguidores. O envio constante de mensagens, vídeos e outras informações dão ao Chefe do Executivo a base de apoio e o respiro necessários para cumprir dois objetivos: sobreviver a quaisquer ações ou intenções de impeachment e manter-se minimamente competitivo em termos eleitorais.

Presidente Jair Bolsonaro utiliza grupos de mensagens como um canal paralelo de comunicação com seus apoiadores.
Presidente Jair Bolsonaro utiliza grupos de mensagens como um canal paralelo de comunicação com seus apoiadores. Foto: Reprodução (Redes Sociais)

O “nó górdio” para Bolsonaro, contudo, não está na manutenção dos votos de seus apoiadores, e sim na aquisição de votos entre aqueles que hoje avaliam o governo de forma negativa. Para estes, sobretudo aqueles que se declaram órfãos de uma terceira via, o Planalto aposta que o caminho é um mix entre entregas de agendas importantes em âmbito econômico e uma diminuição no tom do Presidente. Não se trata aqui de moderação, afinal, no terceiro ano de mandato já está claro que Bolsonaro não irá assumir nenhum tipo de comportamento com vernizes institucionais.

Diante desta constatação, surge uma pergunta: o que cabe ao núcleo de apoio do Presidente para atrair votos que hoje não estão em sua cesta? Basicamente, a construção de uma agenda mínima de resultados econômicos com um silêncio obsequioso do Presidente em temáticas importantes. Além disso, a peculiaridade do momento que o país atravessa mostra que é mais fácil a obtenção de resultados em agendas que diminuam o estresse econômico do que a realização de ações individuais do Chefe da República em evitar confrontos.

E a resposta a isto está ligada à lição apreendida pelos Bolsonaristas com ideólogos de Trump: a ideia de capturar o debate político custe o que custar. Diferentemente de outros políticos, a Bolsonaro não importa que se fale bem ou mal, o importante é que se fale dele. Esta capacidade de monopolizar o debate político dá ao Presidente e ao seu grupo a possibilidade de retirar voz, minutos, espaços e cliques de quaisquer adversários. E como isto tem sido feito de maneira eficaz até aqui, não importando o que se fala, se tem falado de Bolsonaro o tempo todo.

A resultante disto é que, ao mesmo tempo em que a rejeição ao Presidente é muito alta, a sua resiliência eleitoral não é desprezível. E diante de um cenário em que aqueles que apoiam Bolsonaro tendem a não mudar de opinião até o dia da eleição, a questão reside em saber se o Presidente terá a capacidade de reverter as avaliações negativas que recebe. E aqui, dois elementos são importantíssimos, o primeiro é a distância temporal do pior momento da pandemia para o momento da eleição.  E o segundo, a possibilidade de que, a partir de um avanço na vacinação, a economia apresente sinais de recuperação que entusiasmem aqueles que não querem um retorno do Partido dos Trabalhadores ao poder.

O fato, portanto, é que se de um lado não é possível menosprezar a rejeição que Bolsonaro sofre, de outro, não se deve deixar de lado o potencial de sua estratégia de comunicação via redes sociais de aumentar sua capacidade de angariar votos. E soma-se a isto o fato de que não se percebe entre os antagonistas do Presidente, até aqui, nenhum movimento concreto de construção de um compromisso mínimo em derrotar Bolsonaro. Os sonhos hegemônicos dos rivais são a melhor oportunidade do Presidente.

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