colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics
Coluna – Creomar de Souza

Uma Receita para 2021!

A maioria dos consultores de risco aproveita o momento para fazer seu balanço do ano que passou e arriscar algumas previsões. Vou fugir à regra
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Chegamos ao fim de um “annus horribilis” com a esperança de que o próximo, mesmo que não se prove um “annus mirabilis”, ao menos permita deixar para trás o que de pior 2020 nos trouxe ou fez aflorar — não apenas na saúde, mas também na política e na economia.

A maioria dos consultores de risco aproveita o momento para fazer seu balanço do ano que passou e arriscar algumas previsões. Vou fugir à regra. É que previsões estão fora de moda diante de tantos eventos inusitados que mudam completamente o cenário, obrigando analistas a refundar seus esquemas conceituais e sacudir vetustos paradigmas.

Olhando o passado recente, da eleição de Trump, passando pelo Brexit, chegando à pandemia do Covid-19, é como se tivéssemos embarcado numa nau à deriva — digna de Saramago —, vagando pela vastidão do oceano. E ao evitar adentrar esse mar de incertezas, ao menos por hoje. Creio ser mais útil refletir sobre nossa atitude como indivíduos e cidadãos de um sofrido país, açoitado pela pandemia e pelo desencantamento com a política, diante do tempo presente, assim como do futuro que o raiar de um Ano Novo evoca.

No debate clássico sobre se somos livres para construir nosso futuro ou se nossa condição está determinada de antemão por fatores estruturais e variáveis que não controlamos, a verdade reside no meio. É por isso que sugiro uma combinação de fé — o espaço por excelência para expressar nossos desejos — e de ação no plano terreno das atividades humanas, que requerem esforço e resolução.

Receita para 2021

A simbiose proposta é a chave para que o Ano Novo nos anime na busca de um país melhor, em que a ciência seja base das políticas de saúde e os políticos se preocupem menos com a eliminação do adversário e mais com soluções para os problemas nacionais. E que a economia não seja vista como domínio exclusivo de economistas preocupados com equilíbrio fiscal, mas também de humanistas preocupados com o emprego.

A simbiose proposta é a chave para que o Ano Novo nos anime na busca de um país melhor
A simbiose proposta é a chave para que o Ano Novo nos anime na busca de um país melhor. (Foto: Pixabay)

No plano da fé, nós brasileiros apelaremos a Iemanjá, Nossa Senhora, os Orixás e todos os santos que pudermos mobilizar. Mas isso não basta. Vamos precisar de resolução também, teremos de mudar atitudes, e a principal delas é passar a valorizar mais a democracia e a política como âmbitos de diálogo e busca de soluções coletivas.

Aqui vale lembrar que os homens fazem sua própria história, mas não sob as condições que escolhem. E ainda que haja condicionantes que não controlam, são livres para agir e mudar sua própria circunstância. E é por isso que, em vez de prever o que vai ocorrer em 2021 ou além, convido todos a ler a Receita de Ano Novo de Drummond, cujos versos finais captam a centralidade do agente sobre seu destino, sem prejuízo das velinhas, rezas e juras que tampouco prescindimos:

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

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