DIÁLOGOS – O QUE ESPERAR PARA 2021

Kim Kataguiri: 2020 não acabará no dia 31 de dezembro

Que 2020 foi ruim, todo mundo sabe. Mas o que temos para 2021? Já adianto: nada muito animador
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Todos esperam um 2021 melhor. 2020 nos deixou um país mais pobre, mais desigual, com milhões de crianças sem aula e quase 190 mil mortos por coronavírus. A pior catástrofe da nossa geração. Ainda pior no Brasil: enquanto o número de mortos crescia exponencialmente e um número recorde de comércios quebravam, nosso presidente mostrava uma caixa de cloroquina a uma ema.

Ficamos com o pior dos dois mundos: nem salvamos vidas promovendo uma rígida quarentena durante as primeiras semanas de pandemia, com fechamento de fronteiras e testagem e massa, nem salvamos a economia. A falta de liderança de Bolsonaro fez com que adotássemos um modelo de “meia-quarentena”, com destruição de vidas e de empregos.

Ok, que 2020 foi ruim, todo mundo sabe. Mas o que temos para 2021? Já adianto: nada muito animador. Durante a pandemia, o governo gastou muito e gastou mal. Milhares de famílias receberam auxílio emergencial indevidamente, e nenhum tipo de banco de dados — que seria valiosíssimo para a criação de uma rede básica de proteção social permanente — foi criado. Não conhecemos a renda per capita das famílias que estão recebendo o benefício, nem a atividade profissional dos informais, se os filhos estão frequentando a escola ou de que assistência técnica ou de crédito precisam para retomar suas atividades no ano que se aproxima.

Lembram quando Guedes disse que havia descoberto “40 milhões de brasileiros invisíveis”? Pois bem, eles continuarão invisíveis em 2021. Não teve nem Renda Brasil nem Renda Cidadã, mas haverá um rombo de R$ 250 bilhões a pagar que será jogado no lombo de cada um desses brasileiros, fruto do populismo fiscal do governo Bolsonaro.

O deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) durante pronunciamento na Câmara
O deputado federal Kim Kataguiri (DEM-SP) durante pronunciamento na Câmara. (Foto: Michel Jesus/Câmara dos Deputados)

Esse populismo tende a aumentar. Para a classe política, 2021 é ano de eleição presidencial. É nele em que o governo focará em inaugurar obras e atender as bases eleitorais dos políticos do centrão, que agora apoiam o governo. Bolsonaro já sabe que perdeu a classe média, aquela que se preocupa com as perspectivas de longo prazo do país. Isso significa zero reformas, zero privatizações, zero cortes de gasto. Não precisam acreditar em mim. Bastar ler a Lei de Diretrizes Orçamentárias enviada por Bolsonaro e Guedes e aprovada pelo Congresso Nacional. Nela, os gastos obrigatórios – principalmente com folha de pagamento do funcionalismo avançam em R$ 30 bilhões, sem nem um centavo de corte, coisa que houve em 2019, quando o governo ainda tinha algum comprometimento com a agenda fiscal.

Mais: não haverá dinheiro suficiente para pagar o básico: conta de água e luz de prédios públicos, aluguel etc. Isso significa que o governo precisará pedir ainda mais dinheiro ao Congresso, que, sob o possível comando do centrão, turbinado por Bolsonaro, cobrará esse boleto com juros e correção monetária.

Tudo isso com a promessa de manter os juros a 2.2%, com o governo tomando dívida cada vez maiores a prazos cada vez mais curtos – menos de um ano. Estamos endividando meus tataranetos, que ainda só existem na minha imaginação, só para comprar o almoço do dia seguinte. Essa ficção vendida pelo governo e mantida na marra lembra muito o último ano do primeiro mandato do governo Dilma. Conhecemos o fim desse filme.

Você, caro leitor, pode me chamar de pessimista. Aceito a pecha. No Brasil, os pessimistas dificilmente correm o risco de errar.


Quem é Kim Kataguiri

Kim Kataguiri, 24, é escritor, deputado federal pelo DEM-SP e estudante de Direito

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