colunista Creomar de Souza
Consultor de risco político e CEO da Dharma Politics

A degradação da marca Brasil no mundo

O Brasil precisa voltar a utilizar seus ativos para atrair investimentos, ampliar as trocas, criar riquezas, incorporar a inovação
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Alguns poucos países possuem atributos necessários para assumir papel decisivo em processos internacionais, exercendo liderança e influência em temas de interesse regional e global. Os atributos de poder e influência – tais como população, território, recursos naturais – não fazem a diferença por si sós. Estas características devem ser utilizadas com inteligência, estando alinhadas com objetivos de desenvolvimento, bem-estar, ou seja, uma estratégia de lugar no mundo. Na ausência desta percepção, os recursos de poder são facilmente desperdiçados, enquanto o peso econômico mingua e as iniquidades de toda espécie proliferam.

O Brasil tem todas as condições de ser um país decisivo no mundo e na sua região, mas esse destino não está escrito nas estrelas e pode muito bem ser frustrado pela desinteligência de nossa elite política e econômica. O clichê de país do futuro, um futuro que jamais chega, precisa ser definitivamente superado, e isso requer deixar de lado a obsessão coletiva de fabricar monstros imaginários. O resultado desta disfunção cognitiva é que enquanto os monstros reais, tais como, a desigualdade e o racismo proliferam, a sociedade insiste em caçar fantasmas imaginários. 

O dossiê da revista The Economist descreve bem a situação do Brasil de hoje e ilustra como somos vistos no exterior. O país de grande potencial que não consegue realizar sua vocação porque elege os inimigos errados. Nosso inimigo não é a cobiça internacional sobre a Amazônia, mas a falta de articulação de projetos que tornem a floresta de pé muito mais viável economicamente e vantajosa socialmente para todos os brasileiros do que sua exploração predatória. Tampouco constituem ameaças os organismos internacionais e instituições multilaterais, como a OMS, cujos defeitos não incluem a dominação global ou a imposição de obrigações a nós estranhas. Como disse um ex-Secretário Geral da ONU, a organização – e isso vale para outras instituições internacionais – não foi criada para garantir o paraíso, mas para livrar-nos do inferno.

Não precisamos sufocar nossos princípios constitucionais, nosso compromisso com o direito internacional e nem importar conflitos alheios à nossa realidade para comprar um ingresso para o mundo livre e desenvolvido. Somos até aqui uma democracia com personalidade própria e vocação universalista, cujos interesses demandam cultivar a autonomia decisória, a diplomacia e o diálogo plural, em busca de uma ordem internacional equilibrada e regida pelo direito e pelas normas multilaterais. Ao menos essa foi a visão pactuada na Constituição de 1988 e que gostaríamos projetar no mundo. Esta aspiração permanece, porém, enfraquecida diante de uma liderança que afastou o país de sua vocação de líder em matéria de ciência, vacinas, saúde pública, desenvolvimento sustentável, direitos humanos e habilidade diplomática para construir pontes.

A inserção internacional não pode ser apenas um devaneio de cavalaria medieval. E por mais que a retirada da franja lunática do Itamaraty – para usar uma expressão do embaixador Ricupero – gera certo alívio, a política externa não se faz no vácuo e nem pode se sustentar por si mesma. Ela projeta o país que temos e aquele que queremos construir. Nesse sentido, nossa capacidade de influenciar processos decisórios que nos afetam nos tabuleiros regional e internacional seguirá sofrendo as consequências de um país sem rumo e direção, em que a falta de estratégia interna para lidar com nossos problemas limita a capacidade de alcançar objetivos externos.

O Brasil precisa voltar a utilizar seus ativos para atrair investimentos, ampliar as trocas, criar riquezas, incorporar a inovação. Ao revalorizar o universalismo e o compromisso com o direito e o multilateralismo, o país tem todas as condições de aumentar a influência na busca de soluções para desafios globais em áreas como direitos humanos, democracia e paz e segurança internacionais. 

Nada disso será possível, porém, se não fizermos o dever de casa, superando o negacionismo para retomar políticas públicas baseadas em evidências, deixando de lado o populismo e o flerte com o autoritarismo para consagrar a política como debate plural sobre propostas e resultados concretos. Sem esta retomada, seremos apenas um grande depósito em liquidação para investimentos que efetivamente não querem laços profundos com a nossa sociedade. Para usar o título da reportagem da revista inglesa, é preciso que nos afastemos do precipício para onde nossas elites estão nos empurrando carnavalescamente. Antes que seja tarde demais.

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