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OPINIÃO

Goleiro esquerdo ou direito?

A depender do momento histórico, é importante para o país, ora adotar políticas públicas mais conservadoras, ora adotar outras tantas mais progressistas. Assim como o mundo se transforma em função das tecnologias, das mudanças ambientais, do espírito do tempo; também podem mudar as prioridades nacionais
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Há um bom par de anos, o grande humorista Juca Chaves foi entrevistado pelo não menos brilhante e também humorista Jô Soares, no extinto “Programa do Jô”, na Rede Globo de Televisão. Em um momento da entrevista, ao ser questionado sobre algo relacionado ao futebol, o Juca disse que, quando jovem, jogava na posição de “goleiro esquerdo”. Isto mesmo: “goleiro esquerdo”! A essa resposta inusitada, seguiram-se não apenas os inevitáveis risos da plateia, mas também a sua teimosa permanência em minha memória.

Hoje, diante da polarização política na qual nós brasileiros estamos mergulhados, somos insistentemente instigados a tomar partido como simpatizantes do pensamento de esquerda ou de direita, com o acréscimo de algumas poucas adjetivações simplistas: progressistas, conservadores, reacionários, revolucionários. Como torcedores de futebol constrangidos a não vestir o uniforme de outro time, somos compelidos a cerrar fileiras com algum dos dois extremos do espectro político-ideológico, sob pena de retaliações de todas as montas na família, entre os amigos, no trabalho e, principalmente, nas redes sociais.

Desde a origem das terminologias “direita” e “esquerda”, durante a Revolução Francesa de 1889, passando pelas revoluções liberais do século XIX e pelas revoluções socialistas do século XX, associa-se ao arcabouço teórico da direita à ideia de “liberdade” e, aos alicerces do pensamento de esquerda, a ideia de “igualdade”, como se a cada campo coubesse o monopólio desses direitos fundamentais.

As raízes do pensamento de direita (de Adam Smith a Edmund Burke) são tão legítimas e respeitáveis e consistentes quanto as bases do pensamento de esquerda (de Karl Marx a Vladimir Lenin). Os antagonismos que observamos entre essas duas correntes são desdobramentos lógicos destes valores fundamentais, corolários derivados daquilo que se pretende mais importante como ponto de partida: a liberdade ou a igualdade, para a direita ou para a esquerda, respectivamente.

Uma discussão sobre política, religião, futebol ou qualquer outro assunto não deveria ter como intento principal subjugar os argumentos discordantes, quando branda; ou desqualificar as vozes dissonantes, quando mais aguerrida; mas a depuração do pensamento de todos os interlocutores com vistas à produção de um conceito ou ideia mais encorpado que os iniciais, passível de ser partilhado por todos.

Essa forma de encarar o debate público origina-se na dialética platônica, método proposto há cerca de 2.300 anos: a busca pelo conhecimento passa pela noção de que a uma ideia (uma tese) se contraponha uma outra ideia (uma antítese) de forma que da fusão dessas duas concepções se consiga chegar a um conceito mais elaborado (uma síntese). Da recorrência nesse procedimento, acredita-se, é possível aproximar-se progressivamente da verdade.

A depender do momento histórico, é importante para o país, ora adotar políticas públicas mais conservadoras, ora adotar outras tantas mais progressistas. Assim como o mundo se transforma em função das tecnologias, das mudanças ambientais, do espírito do tempo; também podem mudar as prioridades nacionais. Uma mesma área, antes estratégica para uma nação, pode agora perder relevância e, por isso, demandar uma abordagem governamental diferente.

De forma tão inusitada quanto a resposta do Juca Chaves ao Jô Soares, pode-se tentar quebrar a rigidez conceitual que nos obriga a tomar partido de uma única posição política, praticar uma única religião ou torcer para um único time de futebol. Mesmo que não seja razoável jogar futebol como “goleiro esquerdo” ou “goleiro direito”, a menos que se mudem as regras ou se crie um novo jogo; é possível ser politicamente de direita e ser de esquerda, de forma alternada ou mesmo concomitante, notadamente em questões pontuais, sem que isso represente uma apologia da neutralidade.


Quem é Renato de Almeida Eliete?

Renato de Almeida Eliete é cientista político e se interessa por temas relacionados a Sociologia, História e Filosofia


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