Estátua da Justiça em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília. Foto: Marcelo Casal Jr.
Mercado Financeiro
Família Pianna processa Reag, intermediária da operação para a XP, após liquidação do Banco Master interromper pagamentos previstos em contrato
Há uma ação de execução correndo no Tribunal de Justiça de São Paulo que, à primeira vista, parece corriqueira: a família Pianna cobra uma dívida da REAG. Mas, puxado o fio, esse processo revela a anatomia de uma fraude, e expõe uma engenharia intricada entre REAG, XP e Banco Master, criada para tirar o prejuízo da família Pianna, da XP e do Master e empurrá-lo para o mercado. Não é um triângulo. É um circuito que se fecha.
O inusitado está em quem sobrou para pagar a conta. A família Pianna executa a REAG, que o Banco Central liquidou em janeiro de 2026. A REAG, por sua vez, carrega essa dívida porque herdou uma operação do Banco Master, também liquidado. Dos três vértices dessa engenharia, só a XP continua de pé no mercado e a hipótese da família Pianna também aciona-la não está descartada segundo observadores desta operação.
A compra do Will Bank, vendida como o movimento estratégico do Master para entrar no varejo bancário, nunca foi bem isso. Foi um “favor”. O Will Bank era um ativo na carteira de um fundo de private equity gerido pela XP. O banco caminhava para quebrar e ameaçava gerar um prejuízo superior a R$ 500 milhões à carteira do fundo e, com ele, um dano de imagem para a XP, sua gestora e aos cotistas do fundo. O Master se ofereceu para tirar esse ativo insolvente das mãos do fundo. A saída “de mercado” virou um passivo complexo e indesejado, transferido para a REAG por meio da Will IP, hoje REAG IP.
Para viabilizar a aquisição, a transação foi estruturada de forma deliberadamente complexa, com a REAG num papel central: isolar o Banco Master dos passivos e do relacionamento com os antigos controladores. É uma engenharia frequente nas chamadas “soluções de mercado” e, na leitura da apuração do MyNews, um caminho para contornar o escrutínio do Banco Central. O roteiro se repete: os controladores da instituição quebrada saem de cena e uma instituição “saudável” absorve a operação, com seus milhares de correntistas ativos.
Na prática, isso se desdobrou em três peças.
A primeira foi a aquisição da Will IP pela REAG, a instituição de pagamento rebatizada como REAG IP. Para o Master, era a chance de se livrar de um negócio não essencial, que consumia capital e carregava risco.
A segunda foi o contrato que a apuração do MyNews chama de “mesada Pianna”: a REAG assinou um contrato de prestação de serviços, fictício, segundo a apuração, para pagar mais de R$ 1 milhão por mês à família Pianna. Recursos que, no desenho original, deveriam vir do Banco Master. A família não aceitou sair de mãos abanando, e a XP pressionou o Master a aceitar as condições impostas. Com isso, eliminava o risco de prejuízo para a carteira do fundo e o dano de imagem que a quebra do Will Bank representava para a gestora.
A terceira peça foi a retenção por passivos tributários. O Banco Master reteve valores da família Pianna como garantia contra passivos fiscais, com pagamentos parcelados entre 2025 e 2028. Essa dívida, do Master com os Pianna, também foi estruturada através da REAG IP, mais uma vez para afastar os antigos controladores do Will Bank da operação.
Aqui a operação deixa de ser um triângulo e se fecha num circuito. Para tirar o Will Bank das mãos do fundo da XP, o Master colocou dinheiro na mesa. E, segundo a apuração do MyNews, parte relevante desses recursos não ficou parada: logo depois de recebê-los, a XP comprou CDBs emitidos pelo próprio Banco Master.
E não os guardou. Ato contínuo, distribuiu esses papéis na sua plataforma para a base de investidores pessoa física, vendidos como um excelente negócio, afinal, tinham a cobertura do FGC, o Fundo Garantidor de Créditos, que protege aplicações como CDB até R$ 250 mil por CPF e por instituição.
Repare no movimento. O dinheiro que o Master gastou para socorrer um ativo insolvente da XP voltou para o caixa do Master, agora na forma de funding via CDB. A XP fechou o circuito: livrou-se do Will Bank, livrou-se do dano de imagem, ainda foi remunerada para distribuir os títulos e transferiu o risco de crédito do Master para milhares de clientes de varejo. Quando o Master foi liquidado, esse risco não evaporou: caiu no colo do FGC, ou seja, foi rateado por todo o sistema bancário. O “mercado” para onde o prejuízo foi empurrado, no fim, tem nome e CPF: o investidor pessoa física e o fundo que garante seus depósitos.
Quando o Banco Master foi liquidado, o fluxo de caixa que bancava os pagamentos da REAG à família Pianna simplesmente parou. As obrigações contratuais, porém, ficaram de pé, todas com a REAG.
De um lado, a dívida imediata: a família Pianna executa a REAG na Justiça pelo não pagamento da “mesada” prevista no contrato de serviços. De outro, a dívida futura: a mesma família cobra os valores retidos pelo Master, que venceriam ano a ano.
O resultado é uma inversão completa de quem ganha e quem perde. A REAG, cujo conglomerado já não existe mais, herdou dívidas relevantes de uma operação em que entrou como facilitadora, movida por uma necessidade da XP de proteger um fundo sob sua gestão e por uma estratégia do Master. A XP saiu na frente em todas as pontas: livrou o fundo sob sua gestão de um prejuízo milionário, blindou a própria imagem e ainda transformou o dinheiro que recebeu do Master em CDBs vendidos à sua base, empurrando o risco para o varejo e, no limite, para o FGC. E a família Pianna saiu ilesa. Pelo menos por enquanto.
A REAG IP está em processo de cancelamento de licença junto ao Banco Central desde 1º de junho.
Uma observação ajuda a medir o tamanho do labirinto. A “REAG” não é uma empresa só. Sob o mesmo guarda-chuva convivem razões sociais distintas: a corretora, a Reag Trust DTVM, hoje rebatizada como CBSF DTVM, liquidada pelo Banco Central em janeiro de 2026, e a instituição de pagamento, a REAG IP, antiga Will IP, que é a parte executada pela família Pianna. CNPJs diferentes, papéis diferentes, dentro de uma mesma engrenagem. É justamente nessa multiplicação de entidades que operações como essa encontram espaço para circular e para diluir responsabilidades.
O episódio não é um caso isolado. Ele mostra a amplitude e a criatividade das operações engendradas pelo Master. Favores que viram passivos, ativos insolventes que trocam de mãos com aval regulatório, dinheiro que sai e volta pela mesma porta, dívidas que acabam nas mãos de investidores, enquanto quem deveria responder por elas saiu de cena. Se uma única execução na Justiça de São Paulo revela toda essa teia, é razoável supor que há muito mais por vir a ser revelado no caso Master. A conferir.
Procurados pela reportagem, representantes da família e da Reag não se manifestaram até o fechamento desta edição.