Médicos do Programa Mais Médicos usam jaleco com logo do Sistema Único de Saúde (SUS) | Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
O médico sanitarista analisou os planos dos presidenciáveis, alertou sobre emendas parlamentares e defendeu a tecnologia contra desigualdades
Em entrevista ao Café do MyNews, o médico sanitarista e criador da Anvisa, Dr. Gonzalo Vecina, apresentou uma avaliação crítica sobre os planos de governo voltados à saúde pública apresentados na corrida presidencial. O especialista apontou que a maioria dos candidatos ao pleito demonstra pouca ou nenhuma proposta concreta para o setor, tratando o debate de forma superficial e distante das reais necessidades estruturais do Sistema Único de Saúde (SUS).
Vecina criticou tentativas de resolver dilemas sociais com propostas de segurança pública, além de considerar vazios ou puramente propagandísticos os discursos e anúncios de nomes para o ministério feitos pela direita. Por outro lado, destacou que gestores com histórico na medicina, como Ronaldo Caiado, possuem alguma experiência prática — embora restritos a visões econômicas tradicionais -, enquanto a atual gestão federal do presidente Lula busca reconstruir o Ministério da Saúde após o desmonte sofrido na gestão anterior com a militarização e enfraquecimento da pasta.
Um dos pontos centrais discutidos na entrevista foi a questão do financiamento e a destinação dos recursos públicos. Embora o Brasil invista cerca de 10% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em saúde — patamar equivalente ao de nações europeias —, apenas 40% desse montante financia a rede pública do SUS, ficando os 60% restantes no setor privado. O sanitarista também criticou severamente o volume de emendas parlamentares, afirmando que a distribuição sem um planejamento centralizado pulveriza verbas e prejudica a execução de políticas estruturadas de longo prazo.
O orçamento da área foi outro ponto relevante abordado na entrevista. O Brasil aplica cerca de 10% do PIB em saúde, valor semelhante ao de países europeus. No entanto, apenas 40% desse total financia o sistema público. Além disso, o sanitarista alertou para o impacto das emendas parlamentares. A distribuição sem planejamento centralizado pulveriza recursos e prejudica projetos de longo prazo.
Vecina enfatizou, ainda, a falta de diálogo entre prefeituras e governos estaduais no atendimento de alta complexidade. Na Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, o Estado utiliza o sistema CROSS e a capital usa o SIGA. Como as plataformas não se comunicam, ocorrem duplicidades de cadastros e atrasos no encaminhamento dos pacientes. O médico citou a fila nacional de transplantes como modelo eficiente de integração a ser seguido.
O avanço da tecnologia foi apresentado como solução viável para ampliar o acesso ao atendimento. A expansão da telemedicina e da inteligência artificial permite realizar diagnósticos à distância em áreas como dermatologia e radiologia. Essa inovação encurta distâncias geopolíticas e aproxima médicos especialistas das populações periféricas e isoladas.
Por fim, Gonzalo Vecina reforçou que o SUS é um instrumento indispensável de combate às desigualdades. Diante de um cenário polarizado, o especialista pediu atenção dos eleitores no segundo turno. Ele cobrou debates sérios sobre o setor para garantir atendimento de qualidade à população mais vulnerável.