O que está acontecendo com o país das liberdades? Bandeira dos EUA (Foto: Unsplash)

O que está acontecendo com o país das liberdades?

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Durante décadas, os Estados Unidos venderam ao mundo uma imagem quase mítica: a terra da liberdade, da livre circulação de ideias, da democracia vibrante e da abertura aos povos do planeta. Não por acaso, o país transformou o esporte em um dos principais instrumentos de projeção de seu chamado soft power. Mas os acontecimentos que […]

Durante décadas, os Estados Unidos venderam ao mundo uma imagem quase mítica: a terra da liberdade, da livre circulação de ideias, da democracia vibrante e da abertura aos povos do planeta. Não por acaso, o país transformou o esporte em um dos principais instrumentos de projeção de seu chamado soft power. Mas os acontecimentos que cercam a Copa do Mundo de 2026 levantam uma pergunta incômoda: o que está acontecendo com o país das liberdades?

A poucos dias do início do torneio, o noticiário internacional passou a registrar episódios que, vistos em conjunto, desenham um cenário preocupante. Não se trata de um incidente isolado ou de uma decisão administrativa pontual. Trata-se de uma sucessão de fatos que colocam em xeque a própria essência de um evento global concebido para aproximar povos e culturas.

Torcedores de países africanos relatam dificuldades e negativas de visto para acompanhar suas seleções. Entidades de apoio a seleções da Costa do Marfim, Senegal e outros países denunciaram que centenas de torcedores foram impedidos de viajar para os Estados Unidos, sob justificativas genéricas relacionadas a critérios migratórios e segurança nacional.

A situação alcançou contornos ainda mais simbólicos quando Omar Artan, árbitro somali escolhido pela FIFA para atuar na Copa do Mundo, foi impedido de ingressar nos Estados Unidos mesmo possuindo visto válido. Artan seria o primeiro somali a arbitrar um Mundial. Em vez de celebrar a universalidade do futebol, o episódio transformou-se em um constrangimento diplomático internacional.

A seleção do Irã também se tornou personagem involuntária desse enredo. Embora os jogadores tenham obtido autorização para entrar no país, dirigentes e membros da comissão técnica tiveram vistos negados ou restringidos. O resultado foi a transferência da base da equipe para o México, obrigando deslocamentos excepcionais para as partidas disputadas em território norte-americano.

Em paralelo, multiplicam-se relatos de interrogatórios prolongados, retenções em aeroportos e procedimentos de segurança que extrapolam aquilo que normalmente se espera de uma competição esportiva internacional. O discurso oficial invoca razões de segurança. E segurança, evidentemente, é uma preocupação legítima. Mas a pergunta permanece: quando a exceção passa a ser a regra, ainda estamos diante de um ambiente de integração global ou de um sistema de suspeição permanente?

O paradoxo é evidente. A Copa do Mundo não é apenas um campeonato de futebol. É uma celebração da diversidade humana. É o momento em que fronteiras se tornam menos importantes do que as camisas que unem milhões de pessoas. Quando árbitros, jogadores, jornalistas e torcedores começam a ser tratados antes como potenciais ameaças do que como participantes de um evento global, algo parece estar fora do lugar.

Não se ignora o contexto geopolítico contemporâneo. O mundo vive tensões internacionais, conflitos armados e desafios migratórios sem precedentes. Mas justamente por isso os grandes eventos esportivos sempre foram vistos como espaços de encontro, não de exclusão.

Talvez a maior ironia desta Copa seja justamente esta: o país que durante décadas se apresentou como símbolo da liberdade corre o risco de sediar o Mundial mais marcado por barreiras, controles e restrições de acesso da história recente.

E quando uma Copa do Mundo começa a discutir mais vistos do que gols, mais fronteiras do que estádios e mais exclusões do que celebrações, a pergunta deixa de ser apenas esportiva.

Ela se torna política, cultural e civilizatória.

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