Opinião: Caiado disputa a Presidência com um partido que não é seu

Opinião: Caiado disputa a Presidência com um partido que não é seu

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A convenção deste domingo (26) confirmou a chapa de Ronaldo Caiado à Presidência pelo PSD. Ao lado do presidente da legenda, Gilberto Kassab, o ex-governador de Goiás revelou que foi convidado à corrida pelo próprio Kassab — dado que expõe o descompasso entre um candidato programático e um partido historicamente fisiológico. Kassab não é o […]

A convenção deste domingo (26) confirmou a chapa de Ronaldo Caiado à Presidência pelo PSD. Ao lado do presidente da legenda, Gilberto Kassab, o ex-governador de Goiás revelou que foi convidado à corrida pelo próprio Kassab — dado que expõe o descompasso entre um candidato programático e um partido historicamente fisiológico.

Kassab não é o tipo de político que arrasta massas ideológicas, característica quase obrigatória para vencer um pleito majoritário. O PSD constrói maioria em prefeituras e câmaras municipais de modo pulverizado à partir de estratégias para eleições proporcionais e carece da força nacional necessária para bancar sozinho uma candidatura ao Planalto — e em Goiás, base política de Caiado, essa força é ainda menor.

Nesse cálculo, Kassab tem mais a ganhar tendo Caiado como cabeça de chapa do que ocupando o posto de vice em uma articulação nacional. O presidente do PSD não abre mão da pulverização partidária que garante votos em múltiplas esferas, isto é, quem já detém capital político local  merece o apoio da legenda — não o contrário. 

Em Goiás, o PSD figura entre os principais partidos de centro do estado, mas opera sob forte influência direta do grupo político de Caiado, nomeado presidente estadual da legenda em março deste ano. A mudança tirou o senador Vanderlan Cardoso da presidência estadual, passando a ocupar uma das vice-presidências.

A bancada federal do PSD goiano soma o deputado Ismael Alexandrino, e Daniel Vieira Ramos, o “Daniel Agrobom”. Nas eleições de 2022, apenas esses dois nomes do partido venceram cadeiras legislativas em Goiás, desempenho que o partido deve reconhecer bem, e que ajuda a explicar a cautela da legenda em nível nacional.

Durante o lançamento da candidatura, neste domingo, Caiado classificou Flávio Bolsonaro de candidato “kinder ovo”, sem citá-lo nominalmente antes de emendar a crítica direta. “Não adianta agora encaminhar um candidato, que o pessoal mais jovem me disse, que é o candidato kinder ovo, uma surpresinha todo dia. Não adianta”, declarou.

O ex-governador atribuiu o apelido às polêmicas recentes envolvendo o senador durante a pré-campanha. “O outro já teve oportunidade e nada construiu e hoje está aí às voltas com tantas denúncias no dia a dia da sua curta trajetória política”, afirmou.

Lula também recebeu críticas de Caiado, que atribuiu ao petista responsabilidade pelo empobrecimento do país em duas décadas de poder somadas. “Nós vamos cometer o erro de entregar para o PT o candidato que ele quer no segundo turno? Vamos dar mais quatro anos para o PT? Depois de todos esses descalabros que estão ocorrendo. O Lula insultando a dentadura do Trump, o outro achando que pode intervir na legislação brasileira. Outro vindo do país vizinho para também fazer apenas aqui bravatas”, disse, em referência aos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei.

Um rompimento antigo

As farpas contra Flávio Bolsonaro se somam a um histórico de embates entre Caiado e a família Bolsonaro que remonta à pandemia de covid-19. Médico ortopedista de formação, o ex-governador rompeu publicamente com Jair Bolsonaro em março de 2020, após o então presidente minimizar a gravidade da doença. “Ignorância não é virtude”, declarou Caiado à época, defendendo a autonomia dos governadores frente ao Planalto: “O presidente não vai me desmoralizar. Sou um aliado da primeira hora, mas não posso admitir que ele venha agora atacar governadores.”

O ex-governador também criticou a defesa que Bolsonaro fazia da cloroquina — “não é o presidente que tem que prescrever cloroquina na porta do Palácio” — e a tentativa de responsabilizar prefeitos e governadores pelo impacto econômico do isolamento social: “Um estadista tem que ter a coragem de assumir as dificuldades. Se existem falhas na economia, não tente responsabilizar outras pessoas. Assuma sua parcela.” 

Em um episódio de confronto direto, ao dispersar manifestantes bolsonaristas que descumpriam decretos estaduais em Goiânia, chegou a dizer: “Não preciso dos seus votos.”

O racha voltou a esquentar nas eleições municipais de 2024, quando Caiado e Bolsonaro apoiaram candidatos rivais à prefeitura de Goiânia — Sandro Mabel (União Brasil) de um lado, Fred Rodrigues (PL) do outro. Diante dos ataques de Bolsonaro a governadores que adotaram isolamento social durante a pandemia, aliados de Caiado reforçaram que o estado agiu por responsabilidade médica e que Goiás não seria “curral eleitoral” de decisões tomadas em Brasília.

Apesar desse histórico, as críticas de Caiado a Flávio Bolsonaro nesta campanha vêm em tom mais brando que o de 2020 — o que pode custar-lhe justamente o eleitorado indeciso. É nessa hesitação entre marcar posição e evitar desgaste que a candidatura de Caiado parece hoje mais ensaio de aglutinação do capital político à Kassab que qualquer outra coisa.

A postura mais comedida de Caiado convive com uma contradição regional: em São Paulo, o PSD apoia o governador Tarcísio de Freitas, que por sua vez declara apoio incondicional a Flávio Bolsonaro — concorrente direto de Caiado à Presidência. O arranjo, no entanto, dificilmente escapou ao cálculo de Kassab, hábil articulador de alianças que convivem com contradições regionais.

O panorama das convenções

O país vive o período oficial de convenções partidárias, que se estende de 20 de julho a 5 de agosto, com a disputa presidencial ainda em formação.

Pesquisa Real Time Big Data divulgada na terça-feira passada mostra o presidente Lula (PT) à frente no primeiro turno, com 40% das intenções de voto no cenário estimulado. Na sequência aparece o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com 33% — distância que, com margem de erro de dois pontos percentuais, não configura empate técnico entre os dois primeiros colocados.

Atrás deles, o levantamento aponta Renan Santos (Missão) com 9% e Ronaldo Caiado (PSD) com 7%. A mudança de metodologia do instituto, que passou a permitir respostas por formulário digital, favoreceu especificamente Renan Santos — território de maior força do Missão, e Caiado com uma variação negativa.

Lula concentra o discurso em agendas econômicas e sociais de apelo popular, como a ampliação da isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil e o fim da escala de trabalho 6×1. Lidera as pesquisas de primeiro e segundo turno e conta com a máquina federal para entrega de obras, mas enfrenta resistência no Congresso para pautas arrecadatórias e dificuldade para alinhar palanques regionais do MDB, PSD e União Brasil — legendas cujas alas estaduais preferem nomes de oposição no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.

Flávio Bolsonaro discursa sob a bandeira da continuidade do projeto conservador e da pacificação nacional, mantendo entre 25% e 30% das intenções de voto como herdeiro direto do eleitorado bolsonarista raiz. Conta com fatia expressiva do Fundo Eleitoral e do tempo de TV, mas precisa reduzir a rejeição herdada do sobrenome familiar no eleitorado de centro e disputar espaço (ou zelar por apoio) com governadores de centro-direita como Tarcísio de Freitas, Ratinho Jr. e Romeu Zema.

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