Foto: Marri Nogueira/Agência Senado
Queda da participação eleitoral entre brasileiros de 16 a 24 anos combina envelhecimento da população, menor adesão ao cadastro eleitoral e perda de confiança nas instituições tradicionais
O peso dos jovens no eleitorado brasileiro vem diminuindo. Segundo levantamento do Instituto Nexus citado pela BBC News Brasil, a participação dos brasileiros de 16 a 24 anos no eleitorado caiu de 18,2% em 2010 para 12,5% em 2026. Em números absolutos, o grupo passou de 24,7 milhões para 19,2 milhões de eleitores. Parte dessa redução acompanha uma mudança demográfica: dados do Censo do IBGE mostram que a população de 16 a 24 anos caiu de 30,66 milhões em 2010 para 27,02 milhões em 2022. Ainda assim, a redução do peso dos jovens entre os eleitores foi maior que a queda dessa faixa etária na população, indicando que o envelhecimento do país não explica sozinho o fenômeno.
Outro fator está relacionado à relação dos jovens com as instituições políticas. Pesquisa da Fundação Friedrich Ebert citada pela BBC aponta que 57% dos jovens brasileiros dizem não confiar nos partidos políticos, embora 66% considerem a democracia a melhor forma de governo. O contraste sugere que desconfiança em partidos e instituições tradicionais não equivale necessariamente a rejeição da política. Segundo o sociólogo Rafael da Costa, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), os jovens têm se relacionado mais com redes digitais, influenciadores, comunidades e causas específicas do que com estruturas políticas tradicionais.
Os dados do Tribunal Superior Eleitoral ajudam a separar duas questões: comparecer às urnas e chegar a ter um título de eleitor. Entre 2014 e 2022, o comparecimento dos eleitores de 16 e 17 anos, para quem o voto é facultativo, permaneceu relativamente estável, enquanto entre os jovens de 18 a 24 anos, sujeitos ao voto obrigatório, caiu de 81,6% para 78,5%. A diferença sugere que o principal problema pode estar menos no abandono das eleições por quem já participa e mais na entrada de novos eleitores. Cruzamento feito pela BBC entre dados do Censo de 2022 e do TSE estimou que cerca de 1,9 milhão de brasileiros de 18 a 24 anos poderiam estar fora do cadastro eleitoral naquele momento.
O fenômeno também ocorre em uma sociedade em que a transição para a vida adulta está mais longa, com entrada mais tardia no mercado de trabalho e adiamento de casamento, filhos e saída da casa dos pais. Ao mesmo tempo, a menor presença jovem no eleitorado pode criar um efeito de retroalimentação: quanto menor o peso eleitoral dessa faixa, menor pode ser o incentivo para que campanhas e partidos direcionem suas agendas a ela. A história do voto jovem, porém, mostra que participação política juvenil pode assumir diferentes formas. Desde a Constituição de 1988, quando jovens de 16 e 17 anos conquistaram o direito facultativo ao voto após mobilização estudantil, novas gerações passaram a participar do processo eleitoral. Os dados atuais indicam, portanto, não simplesmente o desaparecimento do interesse político entre jovens, mas uma transformação na maneira como essa parcela da população se relaciona com eleições, instituições e participação pública.