colunista Fabio La Selva
Mentor de carreiras
Opinião

Apreço às Banalidades

Fica aqui o convite à reflexão: Quais banalidades que estamos ignorando hoje, podem se tornar ótimos motivos para fazer o dia, ou talvez, a semana mais feliz?
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Tempos atrás, eu estava tendo um daqueles dias bem ruins, em que parece que nada dá certo, e me sentia insatisfeito com diversas coisas. Ao fim de um longo dia, quando tudo o que queria era me deitar e acabar logo com a maré desfavorável, ainda teria um acontecimento chave para coroar aquele dia digno de se esquecer: não encontrava de jeito nenhum a minha carteira.

Não era a primeira vez que isso acontecia (organização definitivamente não é o meu forte), e aquele frio na barriga já era um velho e indesejável conhecido. Se eu tentasse descrever como é esse sentimento, eu diria que é uma profunda frustração por pensar que perdi todos os meus documentos, misturado com um precoce cansaço de me imaginar iniciando a saga pelo Poupatempo para refazê-los, somado a uma ansiedade descompassada pela incerteza do que poderia acontecer com meus cartões e meu dinheiro. 

Depois de cerca de uma longa hora procurando, encontrei a carteira perdida embaixo do tapete do passageiro do carro. Carambola, que felicidade. E esse sentimento feliz perdurou até a hora de me deitar. E meu dia que estava ruim, ficou simplesmente excelente. 

Ao me deitar na cama, em minha rotineira reflexão de fim de dia, foi natural concluir que para achar uma carteira, que é um acontecimento tão maravilhoso, é preciso primeiro perdê-la. Portanto, se eu não a tivesse perdido, não teria terminado o dia tão contente. E na mesma linha de raciocínio, pensei: E se eu não perder a carteira? Será que não posso simplesmente ficar contente por saber que ela está segura no bolso da calça, ou em cima da mesa de cabeceira? E a conclusão que eu cheguei é que eu posso sim, se eu quiser.

E como uma bola de neve, essa nova reflexão foi gerando outras novas observações. Curioso reparar que as coisas que mais nos marcam na rotina de trabalho são as reuniões em que o cliente reclamou. A conversa com o chefe, que ele criticou. A desavença com o colega de equipe. O e-mail atravessado de um stakeholder. Em casa, a discussão com o cônjuge. A desobediência do filho. Essas coisas pegam a gente de jeito e costumam nos marcar. Geralmente são marcas que perduram por dias, quando não, semanas. 

E apesar de estas serem situações que lamentamos, é curioso observar também que quando ocorre o oposto, não celebramos. Na verdade, até ignoramos. A reunião com o cliente que foi boa, o email cordial de um colega de equipe, um jantar sem brigas em família. Tratamos essas coisas como banalidades. Que por conceito, significa “sem relevância”.

A ficha que caiu para mim e me fez repensar a percepção que eu tinha dos acontecimentos rotineiros, foi constatar que as “banalidades” são, na realidade, coisas boas que acontecem no meu dia, mas que eu já tinha a expectativa de que iriam acontecer. E que elas são o que ocorre a maior parte do tempo! As adversidades sim, costumam ser as exceções. Hoje consigo ver que o nível de energia e atenção que eu dava a essas duas categorias, era totalmente desproporcional.

Bastou um pouquinho de consciência para rebalancear isso. E começar a observar a beleza das banalidades. É bacana reparar que esse exercício costuma fazer brotar uma admiração natural pelo o que antes era banal. Afinal, torna-se um paradoxo: Se banalidade significa algo sem relevância, agora que eu decidi dar relevância, o que seria?

O conceito, é claro, é o que menos importa. Mas fica aqui o convite à reflexão: Quais banalidades que estamos ignorando hoje, podem se tornar ótimos motivos para fazer o dia, ou talvez, a semana mais feliz? 

Confesso que hoje, ver minha carteira repousando tranquilamente na mesa de cabeceira, às vezes me faz abrir um discreto sorriso.


Quem é Fabio La Selva

Fabio La Selva é mentor de carreiras, co-fundador da Cortex Academy e gerente de parcerias no Google.

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Morei e trabalhei no Vale do Silício pelo Google de 2017 a 2019, liderando uma operação de atendimento a parceiros de publicidade de todas as Américas
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