Foto: Agência Brasil
Do trauma das vítimas às consequências políticas da Guerra ao Terror, filmes e documentários ajudam a entender como o 11 de Setembro continua sendo contado, e disputado, pelo cinema
Após 25 anos dos ataques de 11 de setembro de 2001, as imagens das Torres Gêmeas ainda ocupam um espaço particular no imaginário coletivo. Mas, ao longo dessas duas décadas e meia, o cinema foi muito além de reconstituir o momento em que os aviões atingiram o World Trade Center.
Entre histórias de sobreviventes, homenagens às vítimas, dramas sobre o luto e investigações sobre a Guerra ao Terror, diferentes produções tentaram responder a uma pergunta que permanece atual. Como contar uma tragédia que não terminou quando as torres caíram; e quais foram suas consequências políticas, sociais e históricas?
Nesta seleção, há filmes que apostam na emoção, outros na denúncia política e alguns que encontram justamente no cotidiano das pessoas uma maneira de falar sobre um acontecimento que mudou os Estados Unidos e o mundo.
Quando os ataques de 11 de setembro interromperam o tráfego aéreo na América do Norte, mais de 6 mil passageiros ficaram presos em Gander, uma pequena cidade canadense. O documentário mostra como os moradores transformaram a tragédia em um gesto coletivo de solidariedade, acolhendo, alimentando e hospedando desconhecidos de diferentes partes do mundo. Um bom começo porque foge da imagem tradicional do 11 de Setembro e mostra uma consequência pouco lembrada. Milhares de pessoas comuns ajudando desconhecidos.
A história de Welles Remy Crowther, um dos heróis do 11 de setembro, ficou conhecida por um detalhe aparentemente banal, uma bandana vermelha. Preso no World Trade Center, Crowther ajudou outras pessoas a escapar antes de morrer. O documentário reconstrói sua trajetória e mostra como sua história de coragem continuou inspirando famílias, atletas, artistas e até o presidente Barack Obama. Uma história mais emocional, mas interessante justamente por mostrar como a memória de uma única pessoa pode representar a dimensão humana da tragédia.
Michael Moore transformou o 11 de setembro em ponto de partida para uma investigação política sobre os anos Bush. O documentário questiona como os ataques foram utilizados pelo governo norte-americano para justificar a chamada Guerra ao Terror e as invasões do Afeganistão e do Iraque. É considerado um dos filmes mais controversos e politicamente engajados sobre as consequências do atentado. Michael Moore não está interessado apenas em lembrar o ataque, mas em questionar o que os Estados Unidos fizeram depois dele, apresentando uma dimensão mais abertamente política.
Em vez de acompanhar os acontecimentos em escala global, Oliver Stone concentra a narrativa em dois policiais que ficaram soterrados nos escombros do World Trade Center. O filme acompanha sua luta pela sobrevivência e o esforço das equipes de resgate. Uma história sobre o 11 de setembro, pelo ponto de vista daqueles que estavam literalmente no centro da tragédia. Aqui entra o olhar de Oliver Stone, que reduz a escala gigantesca do acontecimento a dois homens tentando sobreviver. Com foco mais nas ações do resgate do que atentado em si.
Na véspera de cumprir uma sentença de sete anos de prisão, um traficante de drogas passa suas últimas horas em liberdade pelas ruas de Nova York. Lançado poucos meses após os ataques, o filme transforma uma história pessoal em um retrato de uma cidade ainda traumatizada pelo 11 de setembro, explorando culpa, arrependimento, amizade e as relações humanas em meio a uma Nova York profundamente modificada. Vale destacar o contexto de produção, feito pouco tempo depois dos ataques, o filme registra uma cidade que ainda tentava entender o que havia acontecido.
Charlie Fineman perdeu a esposa e as filhas nos ataques de 11 de setembro e se afastou completamente do mundo. Anos depois, reencontra Alan Johnson, seu antigo colega de faculdade, que tenta ajudá-lo a enfrentar o trauma. O filme usa a amizade entre os dois para discutir luto, isolamento e as diferentes formas de sobreviver emocionalmente a uma tragédia. Uma abordagem mais íntima sobre aquilo que acontece depois da cobertura jornalística e das cerimônias, com foco na dificuldade de continuar vivendo quando uma pessoa perde tudo.
Após o 11 de setembro, os Estados Unidos criaram um programa secreto de interrogatórios da CIA que utilizava métodos considerados brutais e abusivos. O filme acompanha Daniel Jones, investigador do Senado responsável por produzir um relatório sobre o programa. Mais do que recontar os ataques, a produção investiga o que aconteceu nos bastidores da Guerra ao Terror e a batalha para tornar essas informações públicas. O filme ajuda a deslocar o olhar dos atentados para suas consequências: tortura, interrogatórios e os mecanismos de poder construídos sob o argumento da segurança nacional.
O que vale a vida de uma pessoa depois de uma tragédia? Essa é a pergunta central do filme, que acompanha o advogado Kenneth Feinberg, responsável pelo fundo de compensação destinado às vítimas do 11 de setembro. Entre burocracia, disputas políticas e histórias pessoais dolorosas, o longa mostra o difícil processo de transformar vidas perdidas em valores financeiros. Destaca-se nesta seleção de filmes, ao sair do drama individual e entra em uma questão incômoda: como um governo coloca preço na vida de milhares de pessoas depois de uma tragédia?
Asli e Saeed se apaixonam e se casam secretamente na década de 1990, apesar da oposição da família dela. Anos depois, Saeed desaparece e Asli começa a descobrir uma realidade que desconhecia. O filme apresenta o 11 de setembro por uma perspectiva íntima e inesperada: a de uma mulher que percebe que sua própria história de amor estava ligada aos acontecimentos que mudariam o mundo. Um dos filmes mais diferentes da seleção. Em vez de começar pelo atentado, constrói uma história de relacionamento e faz o espectador descobrir gradualmente sua ligação com o 11 de Setembro.
A série documental em cinco episódios acompanha os acontecimentos que antecederam e sucederam os ataques de 11 de setembro. Além de reconstruir o atentado, a produção investiga a Guerra ao Terror, o Afeganistão, o crescimento da Al-Qaeda e as transformações políticas e sociais provocadas pelos ataques. Um panorama amplo para entender como o 11 de setembro redefiniu a política mundial. Encerrar com uma série documental funciona bem, porque amplia novamente a perspectiva e coloca todas essas histórias dentro de um contexto histórico maior.