Lacerda: Coração de tempestade (Vol. 1: 1914-1955) de Mário Magalhães. Foto: Reprodução
Em entrevista ao Café do MyNews, o jornalista Mário Magalhães fala de obra sobre o controverso líder político brasileiro
Fruto de 11 anos de uma rigorosa investigação histórica, o jornalista e escritor Mário Magalhães lançou o primeiro volume da biografia de Carlos Lacerda. Em entrevista ao Café do MyNews, o biógrafo explicou que a obra cobre o período de 1914, ano do nascimento de Lacerda, até 1955, quando ele partiu para o exílio. O objetivo do trabalho é resgatar o político das simplificações e visões estereotipadas que o aprisionaram ao longo das décadas.
Magalhães destacou as profundas mudanças ideológicas de Lacerda. O biógrafo lembrou que o político foi comunista convicto por mais de uma década antes de se transformar em um influente anticomunista. Mais tarde, entre 1966 e 1968, Lacerda surpreendeu ao se aliar aos ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitschek, além do próprio Partido Comunista Brasileiro, na formação da Frente Ampla contra a ditadura militar.
Essa postura controversa também apareceu em outros momentos: em 1948, Lacerda opôs-se à criação do Estado de Israel, apenas para, anos mais tarde, tornar-se amigo da nação. Da mesma forma, embora defendesse o liberalismo econômico, sua gestão como governador do antigo estado da Guanabara destacou-se por investimentos públicos em infraestrutura, como a construção da segunda adutora do Rio Guandu.
Outro ponto trazido por Mário Magalhães foi a relação contraditória do político com os movimentos golpistas no Brasil. Apesar de ter ficado marcado historicamente como um inflamado pregador do golpismo, sobretudo em 1955, ele nunca ocupou cargos derivados de rupturas democráticas, pelo contrário: quando Getúlio Vargas deu o golpe do Estado Novo em 1937, Lacerda estava preso por militância comunista.
O autor enfatizou, ainda, que escreveu a obra para oferecer um relato escrupuloso sobre o biografado. Assim, Magalhães citou o jurista Evandro Lins e Silva para descrever Lacerda: segundo ele, o político mantinha um estilo extremista em todas as situações. Por essa razão, seus contemporâneos o comparavam constantemente a fenômenos naturais, como tsunamis e furacões.
Além disso, o livro traz episódios marcantes da família, como a recusa de seu avô, o ministro do Supremo Tribunal Federal Sebastião de Lacerda, em ser sepultado com a toga do tribunal por discordar da Corte. Por fim, Magalhães revelou que escreverá o segundo volume da biografia nos próximos anos.