Análise – Felipe Loureiro

O que se pode esperar do começo do governo de Joe Biden nos Estados Unidos

Não é exagero afirmar que hoje os Estados Unidos passam por um dos momentos mais delicados da sua história
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Joe Biden, que assume como presidente dos EUA, ao lado da vice, Kamala Harris
Joe Biden, que assume como presidente dos EUA, ao lado da vice, Kamala Harris.
(Foto: redes sociais)

Nesta quarta-feira (20) termina o pesadelo da administração Donald Trump nos Estados Unidos. Após uma tumultuada transição de poder, Joe Biden finalmente assume a Casa Branca, com controle da Câmara e do Senado. O que esperar do início desse novo governo norte-americano?

Antes de tudo, é um governo que demonstra consciência de que enfrentará desafios hercúleos. Não é exagero afirmar que hoje os Estados Unidos passam por um dos momentos mais delicados da sua história.

Biden terá que lidar com adversidades que se comparam a um misto dos desafios enfrentados por Abraham Lincoln em 1861 e Franklin Delano Roosevelt em 1933, ou seja, uma combinação de instabilidade institucional, embasada em profunda polarização na sociedade, e grave crise econômica – hoje produzida por uma catástrofe de saúde pública –, demandando urgente ação estatal em múltiplas frentes.

Isso sem contar, claro, as crescentes ameaças geopolíticas ao poder norte-americano no sistema internacional, com evidente destaque para a China, cada vez mais assertiva em seu entorno geográfico, e que vem apresentando progressiva penetração econômica global, com foco em setores estratégicos, como infraestrutura de transporte, energia e comunicações.

Biden terá muito a fazer, portanto. E tudo indica que, a partir de hoje, assistiremos a uma verdadeira blitz de ordens executivas e projetos de lei, não só revertendo radicalmente a direção das ações do governo federal norte-americano, mas também buscando enfrentar as diversas ameaças e crises do país.

Ainda no primeiro dia como como presidente, Biden deve assinar uma enxurrada de ordens executivas, determinando, entre outras coisas, o fim do banimento da entrada de cidadãos de um conjunto de países islâmicos nos EUA, a obrigatoriedade do uso de máscara em áreas sob jurisdição federal, e o retorno de Washington ao Acordo de Clima de Paris e à Organização Mundial da Saúde (OMS).

Ainda na primeira semana de governo assistiremos também a iniciativas importantes no campo legislativo, envolvendo desde proposta de regularização dos mais de 11 milhões de imigrantes ilegais que vivem nos EUA à apresentação de plano de ajuda econômica em resposta às disrupções provocadas pela pandemia. A ideia neste caso será não somente a de prover ajuda direta (e automática, a depender do estado da economia) a cidadãos de baixa renda, desempregados e a empresas em dificuldades, mas também a de garantir recursos a estados e municípios com o intuito de reabrir escolas com segurança, e viabilizar condições para aplicação de testes e vacinação em massa.

Sobre isso, inclusive, Biden utiliza-se fartamente do simbolismo rooseveltiano dos cem dias, prometendo, por meio da formação de um amplo corpo de profissionais federais de saúde pública, aplicar 100 milhões de doses de vacina nos seus cem primeiros dias de governo – o que, frente ao ritmo atual de vacinação nos Estados Unidos, seria um feito extraordinário.

A questão que fica é saber como o impeachment de Trump, que será julgado pelo Senado, impactará nessa ambiciosa agenda de Biden – lembrando que nos EUA, em contraste com o Brasil, ministros de Estado precisam ser confirmados pelo Senado. Ainda mais grave: dada a força do trumpismo, o impeachment do ex-presidente certamente tencionará ainda mais o clima político doméstico, já fortemente esgarçado desde as eleições presidenciais de novembro de 2020.

Biden precisará usar de toda a sua habilidade e pragmatismo políticos, construídos em mais de quatro décadas de carreira política em Washington, para desarmar as bombas do radicalismo de extrema-direita e da desconfiança dos eleitores trumpistas que o veem como ilegítimo.

Sem dúvida será uma dança longa e delicadíssima, mas que passará, acima de tudo, por uma resposta eficiente no combate à pandemia e, consequentemente, à crise econômica decorrente da emergência sanitária. Se fracassar nessa frente, Biden dificilmente conseguirá desatar o nó górdio de instabilidade, polarização e radicalismo da política norte-americana.


Quem é Felipe Loureiro

Felipe Loureiro é professor e coordenador do curso de Relações Internacionais da USP

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