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Sob Bolsonaro, Brasil quer se colocar como referência mundial ultraconservadora

Sem a sombra de Trump, Bolsonaro tenta colocar o Brasil como exemplo mundial de conservadorismo e “família tradicional”
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Como fica a diplomacia brasileira sob o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) com a derrota de Donald Trump nos Estados Unidos e a saída dessa referência a partir da posse de Joe Biden? Para o jornalista Jamil Chade, especializado em acompanhar a política externa brasileira, a troca de comando na Casa Branca não deve gerar, pelo menos de imediato, uma mudança nesse posicionamento global.

Pelo contrário, o Brasil, sob a administração de Bolsonaro, vem buscando a consolidação como o novo arauto do ultraconservadorismo global.

“A política externa brasileira hoje é um braço extremamente atuante de uma política doméstica ultraconservadora”, resume Chade durante participação no Almoço do MyNews desta terça-feira (5).

Essa tendência é facilmente notada nos últimos anos, com o governo brasileiro atuando de maneira muito coordenada com outros países para evitar a aprovação de textos na ONU, OMS (Organização Mundial de Saúde) e em outras instituições, que falam de direitos reprodutivos, acesso à educação sexual, entre outros assuntos.

“Isso tudo tem um objetivo: não dar nenhuma brecha para que o aborto, eventualmente, seja reconhecido como prática legítima”, exemplifica

Brasil da ‘família tradicional’

A recente legalização do aborto na Argentina, bem como as reações diplomáticas do governo brasileiro, exemplificam a conjuntura mundial de politização das mais variadas estruturas sociais.

“A agenda religiosa, conservadora, no debate mundial, não vai desaparecer com a saída de Trump. Nos últimos anos, governos trouxeram de volta para as negociações internacionais temas que compreendem essa agenda, abrangendo temas como religião, cultura e uma espécie de freio à expansão de direitos, especificamente dos direitos das mulheres”.

A religião, orientada dentro dos valores morais de ‘família tradicional’, caracteriza-se, segundo o jornalista, como uma das principais representantes do ocidentalismo: “defender o cristianismo, defender os valores ocidentais, tudo isso significa, na versão desses governos, endurecer regras e leis em questões sociais, na saúde e na educação”.

Chade ressalta ainda que esse tipo de atuação encontra respaldo não só político, mas financeiro mundo afora. “A agenda é sólida, porque tem o apoio de muitas entidades religiosas pelo mundo, e essas entidades têm muito dinheiro e muita influência para manter essas pautas no centro do debate”.

Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília
Palácio do Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília (Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil)

Brasil e o meio ambiente

Questionado sobre a postura federal frente aos programas ambientais e a relutância internacional em preservar a Amazônia, o jornalista aponta que o meio ambiente é um tema no centro da agenda global e que não há como fugir dele.

“O Brasil de certa forma se escondida na sombra do Trump frente ao mundo. Biden vai assumir uma postura diferente, complicando a história para o Brasil, que certamente será pressionado”, comenta Chade, que no entanto descarta a possibilidade de boicotes financeiros – ações que podem ser, “tranquilamente”, contornadas judicialmente.

“A derrota que o Brasil já sofreu, e que não será revertida no curto prazo, foi na batalha pelos corações e mentes dos consumidores. Na Europa, entre os jovens, há a mentalidade ‘meu voto é meu euro’, na qual o consumo é direcionado para empresas que não violem determinados princípios, e hoje a questão ambiental está no centro.”

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