O eleitor tem o direito de conhecer Samara e Renan Foto: Nelson Jr./Ascom/TSE Eleições

O eleitor tem o direito de conhecer Samara e Renan

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Por que os candidatos à Presidência 2026 fora do eixo Lula x Flávio Bolsonaro são invisíveis ?

Renan Santos e Samara Martins nunca estiveram juntos numa mesma frase antes desta coluna.  A lógica do noticiário eleitoral talvez explique por quê. Ela é nordestina, dentista do SUS em Natal, preta, mãe de dois meninos, vice-presidente nacional de um partido socialista fundado há menos de dez anos. Ele é paulistano, branco, veio de classe média alta, é um dos fundadores do MBL e hoje comanda uma legenda recém-criada. Ela está na esquerda que critica até o PT por conciliação demais. Ele diz que Flávio Bolsonaro é “farsante” e “corrompido”. São opostos em quase tudo, menos numa coisa: o obstáculo que os separa do Planalto não é a falta de ideias. É a falta de vitrine.

Entrevistei os dois e de formas diferentes, a mesma queixa. Renan repete isso sempre que pode: quando o eleitor o conhece, ele ganha o voto. Não é fanfarronice vazia, os números dão algum crédito à frase. Ele saiu de 1% nas pesquisas no fim de 2025 para a casa dos 3% a 5% no cenário geral ao longo de 2026. Mas entre jovens de 16 a 24 anos os institutos já o colocam na casa dos 25% a quase 40%, à frente inclusive de Flávio Bolsonaro nesse recorte etário. É um fenômeno concentrado: cresce rápido onde consegue aparecer, as redes sociais, cursos de formação política, congressos pagos.

Samara enfrenta o mesmo gargalo, multiplicado. O Unidade Popular não tem acesso ao fundo eleitoral nem a tempo relevante de TV. A briga por visibilidade que Renan trava com um adversário difícil, ela trava contra um adversário quase intransponível. Ainda assim, os 3% que chegou a pontuar no Datafolha de maio valem mais do que parecem: são 3% de reconhecimento arrancados praticamente sem dinheiro, numa corrida em que ela é, até agora, a única mulher entre os pré-candidatos à Presidência. Quantas mulheres, mães, mulheres negras, trabalhadoras que dependem do SUS gostariam de ouvir o que Samara tem a dizer, se soubessem que ela existe?

Isso veio à tona de novo nesta semana, quando uma coluna na Folha de São Paulo alertando para a ausência de uma candidatura feminina no páreo presidencial rodou pelas redes. Samara respondeu, com razão, que essa candidatura já existe: é dela, e da sua vice, a guarda-portuária Raquel Brício, numa chapa 100% feminina. O problema não é a falta de mulher na disputa. É que a mulher que está na disputa segue invisível para a maior parte do eleitorado que provavelmente se identificaria com sua biografia.

O dinheiro faz diferença numa campanha, sim, e seria ingênuo fingir o contrário. Mas há um segundo fator que pesa tanto quanto o caixa: a pauta. A grande mídia tradicional foi capturada pelo fla-flu Lula–Bolsonaro. O debate político gira em torno de quem produz mais escândalo, não para quem tem plano de governo. Renan e Samara têm propostas com começo, meio e fim.  Ele fala em privatizaça2o. Ela em reestatização. Ele sugere revisão de programas sociais; ela defende auditoria da dívida pública e redirecionamento de recursos do orçamento para políticas sociais. Concorde-se ou não com o conteúdo, são plataformas articuladas. E mesmo assim, poucos ouvem.

Renan só começou a ser ouvido quando passou a pontuar de forma consistente acima dos 3%, como se o direito de ser avaliado pelas ideias dependesse primeiro de provar, numa pesquisa, que já é conhecido o suficiente para ser levado a sério. É um círculo vicioso: sem vitrine não se cresce, sem crescer não se ganha vitrine. Samara vive a versão mais dura desse mesmo círculo, porque parte de um patamar de recursos ainda mais baixo.

Não escrevo isso para pedir voto para nenhum dos dois. Escrevo porque, depois de sentar com Renan Santos e com Samara Martins, saio convencido de uma coisa bem mais simples do que uma indicação de voto: o eleitor tem o direito de conhecer o que eles têm a dizer antes de decidir que não quer saber.

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