Bandeira dos EUA (Foto: Unsplash)
Ricardo tem 52 anos, uma empresa de tecnologia que fatura bem, um apartamento em São Paulo com vista para o parque e uma frase pronta para quando perguntam onde ele se vê daqui a dez anos: “No Brasil, claro. Minha vida toda está aqui.” O que ele não costuma contar na mesma conversa é que […]
Ricardo tem 52 anos, uma empresa de tecnologia que fatura bem, um apartamento em São Paulo com vista para o parque e uma frase pronta para quando perguntam onde ele se vê daqui a dez anos: “No Brasil, claro. Minha vida toda está aqui.”
O que ele não costuma contar na mesma conversa é que tem um visto americano de investidor aprovado há dois anos, uma casa já escolhida num condomínio em Orlando — escola internacional a dez minutos, segurança na portaria — e uma planilha que ele atualiza sozinho, de madrugada, calculando quanto tempo levaria para mudar a família caso “as coisas piorem”. Ele não sabe definir exatamente o que seria piorar. Mas sabe que o gatilho está armado.
Ricardo não vai embora. Provavelmente nunca vá. E é exatamente por isso que ele é a história mais interessante do Brasil rico de 2026 — mais interessante, inclusive, do que os milionários que de fato fazem as malas.
Porque os que vão embora são poucos. Em agosto de 2025, a BBC News Brasil obteve da Receita Federal um dado inédito: o número de declarações de saída definitiva do país, separadas por faixa de renda. A conclusão desmontou um clichê repetido à exaustão no debate sobre taxar os super-ricos. Não há êxodo. Menos de 1% dos milionários brasileiros deixa o país a cada ano — e essa proporção está caindo desde 2017. O número absoluto de saídas sobe, é verdade, mas só porque o número de milionários quadruplicou: eram 81 mil em 2011, passaram de 366 mil em 2023. Quanto mais ricos o país produz, mais ricos ele mantém.
Se a estatística diz que quase ninguém vai, então por que tanta gente como Ricardo dorme com a planilha aberta?
Essa é a pergunta que os números de saída não conseguem responder — porque eles medem quem foi, não quem pensa em ir. E é nesse vão, entre a ação rara e a intenção generalizada, que mora um retrato pouco confortável de como a elite econômica brasileira enxerga o futuro do próprio país.
O imposto é a justificativa mais educada. Raramente é o motivo.
O motivo de Ricardo — quando ele baixa a guarda e fala sério — não cabe numa alíquota. Tem a ver com a portaria do condomínio em Orlando, sim, mas não pelo lazer: é não precisar pensar onde os filhos podem ou não andar. Tem a ver com a sensação de que, aqui, a regra do jogo pode mudar no meio da partida. Tem a ver, acima de tudo, com querer poder sair — mesmo sem nunca sair. Não é uma passagem só de ida. É uma apólice.