Estados Unidos

O Matriarcado Harris: biógrafo de Kamala explica papel e influência da mãe da vice-presidente dos EUA

Shyamala Harris nasceu na Índia sob domínio colonial britânico, foi acadêmica, mãe solo e figura central para Kamala
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Vice-presidente Kamala Harris faz comentários ao pessoal do Departamento de Defesa, com o presidente Joe Biden e o secretário de Defesa Lloyd J. Austin III, o Pentágono, Washington, D.C., 10 de fevereiro de 2021. (Foto do DoD por Lisa Ferdinando/ Fotos Públicas)
(Foto: Departamento de Defesa dos Estados Unidos / Fotos Públicas)

Na mitologia hindu, Devi é a deusa-mãe, uma matadora de demônios e, ao mesmo tempo, representação da energia feminina e da beleza. Quando a imigrante indiana Shyamala Gopalan Harris teve sua primeira filha, em 1964, ela a batizou Kamala Devi Harris e afirmou anos depois: “uma cultura que adora deusas produz mulheres fortes”.

Shyamala deixou a Índia para fazer pós-graduação na Universidade da Califórnia em Berkeley, aos 19 anos, em 1959. Estudiosa do câncer de mama, ela conheceu nos Estados Unidos o economista heterodoxo e imigrante jamaicano Donald Harris. Os dois foram casados 8 anos e tiveram duas filhas: Kamala e Maya Harris.

“Essa mulher estava fazendo isso sozinha e eu acredito que ela foi um exemplo para suas filhas. Kamala, em toda minha experiência, raramente deixa de mencionar sua mãe em todos os discursos importantes que ela dá. Ela raramente faz referências ao seu pai”, diz Dan Morain, jornalista com mais de 40 anos de experiência e autor da biografia “Kamala Harris – Uma Vida Americana”.

Apesar da união formal com Donald, Morain destaca que Shyamala foi a responsável pela criação e formação das filhas. A imigrante indiana levava Kamala para reuniões do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos e em eventos de centros culturais negros que contavam com a presença de nomes como a cantora Nina Simone, a poeta Maya Angelou e Shirley Chisholm, congressista de Nova York que foi a primeira candidata presidencial negra do país.

Primeiras eleições

Kamala entrou no Judiciário como procuradora-geral adjunta do Condado de Alameda, na década de 1990, época em que também teve um relacionamento com Willie Brown, então presidente da Assembleia do Estado da Califórnia e veterano da política local. No livro, Morain afirma que no período Kamala aparecia mais nas colunas sociais dos jornais do que em reportagens sobre seu papel como procuradora.

O relacionamento com Brown terminou logo após o veterano do Partido Democrata ser eleito prefeito de San Fransisco, em 1995, e Kamala disputou sua primeira eleição em 2002, quando concorreu, e venceu, a corrida pelo cargo de procuradora da cidade e do condado de São Francisco.

Logo nos primeiros meses no cargo, ela enfrentou um batismo de fogo. O policial Isaac Espinoza foi morto em serviço e a recém-empossada procuradora foi pressionada pelas forças policiais da região a pedir a pena de morte para o assassino. Opositora da pena capital, Kamala manteve sua posição e não cedeu à pressão que veio até mesmo da senadora democrata Dianne Feinstein.

Ainda assim, Kamala foi criticada por grupos de direitos humanos por promover uma lei estadual que prendeu pais de filhos que não frequentavam a escola e ignorar uma pergunta sobre a legalização da maconha, em 2010.

Morain destaca que Kamala conseguiu “navegar” o cenário político da Califórnia com pragmatismo e ascendeu nos cargos do Judiciário. Em 2010, foi eleita como Procuradora-geral da Califórnia, sendo a primeira mulher e a primeira negra no cargo. Logo após ser reeleita como Procuradora-geral da Califórnia, concorreu e conseguiu uma vaga no Senado dos Estados Unidos.

O jornalista veterano avalia que Kamala conseguiu mais liberdade para expressar suas opiniões após deixar o Judiciário e que escolhe com cuidado as disputas que compra.

“Ela nem sempre evita uma briga. Há certas brigas que ela assume, mas sobre a pena de morte, ela é uma oponente moral da pena de morte, ela pensa que é fundamentalmente injusto, ela acredita que é racista, que as pessoas recebem condenações injustas e são enviadas para o corredor da morte. Ela não acredita que o Estado deva matar em nome do povo. Quando ela estava disputando a eleição para procuradora do distrito de São Francisco, ela deixou claro que nunca apresentaria um caso de pena de morte e se manteve fiel a isso”, diz o jornalista ao MyNews.

Vice-presidente dos Estados Unidos

Kamala esteve longe de ter um desempenho eleitoral de destaque durante as prévias do Partido Democrata que escolheram o nome que tentaria tirar da Casa Branca o então presidente Donald Trump. As prévias democratas escolheram Joe Biden, mas então algo mudou na política do país.

Em 25 de maio de 2020, o policial branco Derek Chauvin sufucou o homem negro George Floyd, disparando uma onda de protestos que varreu o país. Morain afirma que a política dos Estados Unidos e o Partido Democrata mudaram após o episódio.

“Tornou-se quase imperativo que ele escolhesse uma mulher negra para o trabalho, existem apenas algumas que seriam qualificáveis. E, dentre elas, Kamala Harris era a única que tinha participado de uma disputa estadual, ela ganhou disputas estaduais no maior estado dos EUA, Califórnia, ela venceu três vezes, ela foi examinada por jornalistas, ela concorreu ao cargo de presidente, ela não concorreu bem, mas concorreu, então ela foi examinada por adversários políticos, por pesquisadores da oposição, ela tornou-se a opção mais lógica”, diz o jornalista.

Joe Biden e Kamala Harris. Foto: Twitter Kamala Harris / Fotos Públicas
Joe Biden e Kamala Harris. Foto: Twitter Kamala Harris / Fotos Públicas

Kamala será presidente em 2024?

Biden é o presidente mais velho da história da Casa Branca, com 78 anos. Kamala, por sua vez, tem 56 anos. Morain destaca que isso não significa, contudo, que a filha mais velha de Shyamala será o nome principal da chapa do Partido Democrata nas próximas eleições presidenciais.

“Eu sei que Biden gostaria de ser presidente há muito tempo e se ele puder concorrer em 2024, se sua saúde permitir, ele irá concorrer em 2024, é meu palpite. Dito disso, ela será candidata a presidente, não tenho dúvidas de que ela será candidata quando Joe Biden tiver terminado. Ela não fará nada para tirá-lo do caminho de qualquer maneira, seu trabalho, e ela entende completamente, é ser a melhor vice-presidente que ela pode ser. E o sucesso dela depende do sucesso dele, se ele for um presidente de sucesso, então ela terá uma melhor chance de se tornar presidente”, diz Morain.

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